“Round 6”: no jogo da Netflix, os coreanos entram para ganhar

Por que faz todo o sentido vir da Coreia do Sul o maior sucesso da história da Netflix

Assista aqui a resenha em vídeo:


Leia aqui a minha resenha na revista VEJA:

Fenômeno “Round 6” atesta a força estrondosa do soft power coreano

Atração mais vista da história da Netflix tem a cara e a garra da Coreia do Sul, a nação que disparou na bolsa da influência cultural

“Fale de sua aldeia”, disse o russo Lev Tolstói, “e estará falando do mundo.” Se a “aldeia” em questão for a Coreia do Sul, são grandes as chances de que se falará também ao mundo. Desde o ano passado, com o Oscar ao Parasita de Bong Joon-ho, e agora com o fenômeno Round 6, sobre uma gincana de jogos infantis em que 456 pessoas competem até a morte por um prêmio de 40 milhões de dólares, o público está descobrindo aquilo que os cinéfilos mais atentos já sabem há uma ou duas décadas: que a produção sul-coreana de cinema e TV é única — vital, ávida, arrojada e capaz como nenhuma outra de apreender o espírito do tempo e dissecar os mal-estares que o compõem. Round 6, que há poucos dias se tornou a série mais vista da Netflix até hoje, elenca uma variedade de mal-estares que são distintamente sul-coreanos, mas familiares em qualquer longitude e latitude. Da insegurança financeira e a sensação de que as regras do jogo são mais do que arbitrárias — são aleatórias —, e do autoritarismo até o clima de safári humano que domina hoje parte do entretenimento, não há aspecto da série com que não seja possível se relacionar.

O que torna a Coreia do Sul um caso sem precedentes é que, com apenas 52 milhões de habitantes e cercada pelos pesos-pesados Japão, China e Rússia (além da irmã da qual foi tragicamente separada, a Coreia do Norte, que não para de testar armas nucleares à sua porta), ela detém um soft power — o poder de influência cultural e de ditar comportamentos — só comparável ao anglo-americano. O mundo hoje joga em massa os games coreanos, ouve fanaticamente as bandas de K-pop, assiste às suas novelinhas açucaradas e séries inovadoras e se fascina com a voluptuosidade e a complexidade do seu cinema — e, com frequência, faz tudo isso usando tecnologia de marcas sul-coreanas.

O ingrediente irreplicável da receita é, claro, a própria Coreia do Sul. Protagonista de uma transformação econômica dramática, que o levou da miséria na primeira metade do século XX à atual renda per capita anual de 31 489 dólares (a do Brasil está em 6 797), o país jogou todas as fichas na educação (obsessão nacional) e na industrialização. Mas carrega as marcas da história tumultuada — a humilhante ocupação japonesa entre 1910 e o fim da II Guerra, a separação em duas, a guerra de 1950-1953, o fim da esperança de reunificação, ditaduras, levantes populares e uma democratização complicada, com quatro presidentes condenados por corrupção.

Em 1997, com a crise asiática, a economia de evolução meteórica — hoje a décima do mundo — tomou um tombo feio, que deixou de herança um desmonte do mercado de trabalho: embora o desemprego seja baixíssimo, boa parte dessa estatística é sustentada por altas taxas de pequeno empreendimento próprio e informalidade. Como os personagens de Parasita e de Round 6, um grande contingente de sul-coreanos só tem o emprego estável na lembrança; no dia a dia, são acossados pelo temor da insolvência, do endividamento e do desamparo. E também pela falta de perspectiva, já que os jovens têm dificuldade em encontrar trabalho que corresponda à sua qualificação. Não por acaso, o desalento é um pivô de Round 6.

Populações instruídas costumam ser também críticas — e tensões e contradições são ótimos fermentos para a criatividade e o arrojo. A tigela em que se bateu essa massa, entretanto, foi construída a partir dos anos 90, quando a Coreia do Sul identificou a cultura e o entretenimento como um setor estratégico. O marco oficial foi a colonização do circuito exibidor por Jurassic Park, em 1993. Mas o quadro é mais complexo: o que isso fez subir à tona foi a necessidade de preservar a identidade cultural coreana e de resistir nessa área à influência americana, que é grande em assuntos militares e geopolíticos e da qual os coreanos em geral se ressentem.

O cinema e a TV passaram a ser alvo de investimento em múltiplos flancos, desde formação universitária e festivais até cotas de tela e estímulos financeiros (corporações como Samsung e Hyundai foram convocadas a fazer sua parte). Round 6 custou à Netflix 21,4 milhões de dólares, mas rendeu a ela um valor de impacto estimado em 890 milhões — além de 4,4 milhões de novos assinantes. Para a Coreia do Sul, o negócio também não foi nada mau. Pelo direito de instalar e operar seus estúdios no país, a Netflix tem, em troca, de financiar projetos locais e firmar colaborações com produtoras coreanas. Sem trabalho, elas não ficariam mesmo: está a pleno vapor a caçada das plataformas de streaming pelo novo (ou novos) Round 6.

Publicado em VEJA de 27 de outubro de 2021, edição nº 2761

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