“O Tigre Branco”: o “Parasita” deste ano é indiano, e está na Netflix

Na direção vertiginosa de Ramin Bahrani, de “99 Casas”, a história de um rapaz miserável com grandes planos

Assista aqui a resenha em vídeo:


Leia aqui a minha resenha da revista VEJA:

Visceral, filme “O Tigre Branco” tem tudo para ser “Parasita’ de 2021

No longa, o protagonista — um indiano miserável mas ambicioso — sorri até nas piores horas. Não se trata de alegria: é para esconder a fúria e sobreviver

Ao longo de quase todos os 125 minutos de O Tigre Branco (The White Tiger, Índia/Estados Unidos, 2021), já na Netflix, Balram (o estupendo Adarsh Gourav) mantém um sorriso carimbado no rosto. Nada a ver com alegria; é subserviência posta a serviço da sobrevivência. Rapaz paupérrimo de um vilarejo miserável no norte da Índia, Balram é explorado pela avó até o osso, como seu pai o foi antes dele. Para escapar dali, sua única chance é colar-se a Cegonha (Mahesh Manjrekar), o gângster/empresário da área. Balram premedita seu crime de traição familiar: dá um jeito de financiar as aulas da autoescola e a ida para a capital, Nova Délhi, onde, às portas da mansão de Cegonha, se oferece como motorista.

Ashok (Rajkummar Rao), o filho de Cegonha educado nos Estados Unidos, vai com a cara do rapaz humilde e solícito. Sentindo-se magnânimo (no estrangeiro, ele aprendeu a desprezar o sistema de castas), decide que o novato vai dirigir para ele e sua mulher, Pinky Madam (Priyanka Chopra), indiana criada em Nova Jersey que acredita estar por ali só de visita. Ashok e Pinky insistem que o empregado os trate de igual para igual — ele não cai nessa — e encorajam nele noções de igualdade. Certa noite, porém, uma catástrofe acontece, e ninguém pensa duas vezes: Balram é que há de pagar o pato. Enquanto se encaminha para o abate, ele faz o que sabe fazer: sorri, para defletir a ira dos poderosos, esconder o sangue nos olhos e a perplexidade por constatar o que já sabia — que não tem o menor valor para essas pessoas — e para ganhar tempo para virar o jogo, ao preço que for.

Se sorri por fora, por dentro Balram fervilha sempre de inteligência e mordacidade, e de amor e ódio — não são simples as relações de servitude. Sabe-se que de alguma forma ele mudou seu destino: a narração que acompanha sua trajetória é o texto de uma carta que ele está escrevendo a um ministro chinês que vai visitar a Índia. Adaptado do romance do indo-­australiano Aravind Adiga, ganhador do prestigiadíssimo prêmio Man Booker, e dirigido pelo americano de origem iraniana Ramin Bahrani, do igualmente febril 99 Casas (também disponível na Netflix), O Tigre Branco é verdadeiramente notável. Aos 45 anos, Bahrani tem uma carreira enxuta mas merecedora de distinção, pela agudeza com que disseca as facetas do desespero econômico e social e pela intensidade dos seus trabalhos. Não há muito exagero em dizer que seu O Tigre Branco é o Parasita deste ano — cinema virtuosístico, visceral e original em partes iguais. Como diz Balram na carta ao ministro, “chegou a vez dos amarelos e dos marrons”.

Publicado em VEJA de 27 de janeiro de 2021, edição nº 2722

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