Em minissérie, criador de “Downton Abbey” leva luta de classes ao futebol

A envolvente atração da Netflix “The English Game” foi concebida e escrita por Julian Fellowes

Diz o ditado que o rúgbi é um jogo selvagem jogado por cavalheiros, e o futebol, um jogo de cavalheiros jogado por selvagens. Pois na minissérie The English Game (Inglaterra, 2020), criada pelo mestre noveleiro Julian Fellowes, de Downton Abbey, e produzida e disponibilizada pela Netflix, o futebol está na sua infância — corre o ano de 1879 — e as classes ociosas são ainda as donas da bola. Mas times diletantes como o Old Etonians, de ex-alunos da escola de Eton (desde 1440 formando a elite da elite), desconhecem novidades como o passe, o drible e os esquemas táticos triangulares; numa derivação do rúgbi, jogam correndo todos atrás da bola. Astros do esporte como os aristocratas Arthur Kinnaird (Edward Holcroft) e Francis Marindin (Daniel Ings), portanto, estão prestes a perder sua primazia para a nova e turbulenta classe trabalhadora das regiões industriais do norte inglês.

Nos moinhos de algodão e nas tecelagens, nas minas de carvão e nas fundições, times se organizam e fazem do futebol questão de orgulho e de lealdade: nos enfrentamentos desta cidadezinha contra aquela, as paixões ficam em brasa, e ganhar não é só tudo — é a única coisa. Esses times proletários estão ao mesmo tempo inovando o jogo e tornando-o mais agressivo, em um processo que se acelera com a chegada de criativos jogadores escoceses como Fergus Suter (Kevin Guthrie) e Jimmy Love (James Harkness). As equipes operárias não só oferecem pagamento a quem joga melhor (para horror dos cavalheiros, que, claro, não fazem a menor ideia do que é precisar de dinheiro), como os industriais mais ricos começam a comprar estrelas. O futebol como o conhecemos hoje, enfim, está nascendo — e com ele estão surgindo as faltas brutais, as lesões gravíssimas e a pancadaria nas arquibancadas. Está nascendo, também, o ingrediente verdadeiramente indispensável ao jogo: a torcida.

Poucos escritores são tão craques em dosar melodrama e contexto histórico quanto Fellowes — que, aliás, bate um bolão também quando se trata de escalar atores e dar brilho à produção. Costurando os dramas da aristocracia aos da plebe, como em Downton Abbey, ele sofistica o retrato da luta de classes ao encená-la como o confronto físico nos campos e como um embate de visões a princípio opostas, mas que acabam por convergir na admiração mútua entre Kinnaird e Suter. Aqui, ele romantiza detalhes da trajetória dos personagens (quase todos são verídicos) para manter a fidelidade da essência: a celebração de como o esporte ajudou uma nova classe a driblar a velha ordem social.

Publicado em VEJA de 1 de abril de 2020, edição nº 2680

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