Em “Madam C.J. Walker”, da Netflix, a primeira milionária negra

Minissérie tem simpatia e Octavia Spencer, mas cai nas armadilhas da ficção feita para “inspirar”

A Vida e a História de Madam C.J. Walker, minissérie em quatro episódios que entrou hoje na Netflix, trata de uma personagem formidável: Sarah Breedlove, filha de escravos, seminalfabeta, lavadeira de profissão, viúva e mãe paupérrima de uma filha, Lelia, a quem conseguiu dar instrução – e que, na base da inteligência e da garra (e de alguma trapaça), tornou-se não apenas a mulher negra mais rica dos Estados Unidos no comecinho do século 20, como também a primeira milionária self-made do país (mulheres milionárias já havia várias, mas em geral eram herdeiras). Aos 30 e poucos anos, numa deprê horrorosa por ter perdido o cabelo por exaustão, stress e cuidados inadequados, Sarah (na série, Octavia Spencer) conheceu Annie Malone, também ela filha de escravos e criadora de um tratamento para recuperar o couro cabeludo. Ao que parece, o produto era bom mesmo: com a cabeleira refeita, Sarah tornou-se vendedora da companhia de Annie, até se desentender com ela e criar sua própria empresa, deflagrando uma rivalidade que se estenderia por décadas. Tanto Annie como Sarah ficaram ricas com suas respectivas linhas de produtos para cabelos crespos, e ambas também viraram grandes filantropistas, patrocinando ações destinadas a profissionalizar mulheres negras. Epa, mas não falei que esta era a história de uma personagem formidável? Se há duas delas neste parágrafo, onde então foi parar Annie na minissérie?

A resposta é um bocado decepcionante: ela virou a fictícia Addie Munroe (Carmen Ejogo), que na minissérie é uma filha de mãe escrava e pai branco, muito bonita, esbelta, de pele bem mais clara que a de Sarah e cabelos cacheados. Virou também uma mulher presunçosa e atraiçoadora, que se recusa a empregar Sarah como vendedora porque ela não é o ideal de beleza das mulheres negras (leia-se, tem a pele escura e os cabelos crespos demais) – e é ainda invejosa e mesquinha a ponto de se interessar muito mais pelo fracasso da rival do que por seu próprio êxito. Mesmo no mundo estreito do início do século 20, houve espaço para duas grandes empreendedoras negras. Mas na minissérie, não. Madam C.J. Walkerescolhe uma em detrimento da outra em nome de propósitos que, suponho, sejam “inspiracionais”, em um processo que inclui fazer de Sarah um modelo de identificação e uma criatura irrepreensível. Quando o marido, Charles Joseph Walker (Blair Underwood) a trai, ela o põe da porta para fora imediatamente, embora seja louca por ele. Quando constata que a filha é homossexual, ela esbraveja um pouquinho, mas logo conclui que toda forma de amor vale a pena etc. (lá por 1910? Duvidoso). Quando suas vendedoras se indignam com o acordo ultralucrativo que ela firmou com uma rede de farmácias, ela volta atrás; a satisfação das funcionárias vem antes de tudo. Essa Sarah da ficção se sai também o tempo todo com frases de auto-ajuda, como “meu sucesso é o sucesso de todas as mulheres negras” e “é isso que as empresas fazem: crescer”. O resultado é que vê-se Sarah fazer e acontecer, mas termina-se sem nenhuma ideia clara de quem ela era realmente. Nem sequer se percebe nela algum senso de humor característico – um desperdício, considerando que Octavia Spencer é uma craque. Mas, pensando bem, não deixa de estar de acordo com o roteiro e a direção não mais do que funcionais e com a produção não mais do que correta (que, aliás, de início promete celebrar a beleza do cabelo negro e a sua importância cultural, e então meio que se esquece desse aspecto).

Madam C.J. Walker se baseia numa biografia escrita por A’Lelia Bundles, tataraneta de Sarah Breedlove, e é escrita e dirigida por um time de mulheres negras, que comparecem em peso também no time de produção. Mas, como tantas outras peças de ficção que almejam inspirar este ou outro segmento da população, arrendonda de tal forma as arestas mais cortantes de sua protagonista que ela deixa de parecer gente de verdade; é um ideal como qualquer outro. Kasi Lemmons, que dirige dois dos quatro episódios, recentemente empregou essa tática também em Harriet, transformando a escrava foragida, abolicionista e comandante militar Harriet Tubman numa verdadeira santa – como se ela precisasse de algum retoque para parecer mais corajosa ou formidável do que foi.

É lógico que a ficção faz isso também com homens, mas faz mais frequentemente com mulheres. Lá no fundo, até um time feminino como o de Madam C.J. Walker cai na armadilha de que, para servir de exemplo, uma mulher tem de estar além de qualquer censura moral. Prefiro mil vezes um filme como Garotas Perdidas, que acaba de entrar na Netflix também e é o primeiro longa de ficção da documentarista Liz Garbus. Na direção de Liz e na interpretação da maravilhosa Amy Ryan, a mãe que procura desesperadamente pela filha desaparecida, uma jovem prostituta, é uma protagonista com todos os defeitos das pessoas reais – o que só torna suas qualidades ainda mais impressionantes. Isso, sim, é inspirador.

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