Só filmão: 9 novidades na Netflix e 4 na Amazon

De um dos grandes filmes da última década a uma delicada animação em massinha, não faltam opções para enfrentar um janeiro em casa

Ray

Onde: na Netflix

“Passei a noite toda de olho em você”, diz Ray à moça sentada no balcão do cabaré, que sorri, encantada com a piada irreverente, enquanto o músico cego discretamente apalpa seu pulso – sua tática para avaliar a conformação física das mulheres em quem está, como diz, de olho. O astro do soul Ray Charles, no desempenho arrebatador de Jamie Foxx, é o tipo mais obstinado de sobrevivente: aquele que faz de suas fraquezas uma força. Filho de uma lavadeira e “mais pobre do que os pobres”, como se descreveu, Ray viu o irmão menor se afogar em uma tina de roupa sem que conseguisse esboçar reação (tinha 6 anos) – e essa é uma das últimas imagens que viu; logo depois, perdeu a visão por causa de um glaucoma. Foi ensinado pela mãe (Sharon Warren, uma potência como atriz) a ser cego sem ser coitado, galgou os degraus da carreira com um poder de cálculo desconcertante, viciou-se em heroína, traiu, tapeou – e fez música como um deus. Vibrante, sensual e generoso nas cores, o filme faz de Ray uma lenda que tem o tamanho e o feitio de um homem.

 Ray, 2004

Mary & Max

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Mary, uma solitária garotinha australiana, filha de mãe alcoólatra e pai infeliz, começa por acaso a se corresponder com Max, um quarentão nova-iorquino ainda mais solitário do que ela, vitimado pela obesidade e por um leve caso de autismo – e a amizade improvável que nasce dessa troca de cartas atravessa as décadas e as mais profundas crises pessoais. A animação em massinha é, sem dúvida, um trabalho para pessoas especiais: gente infinitamente paciente, que vê o mundo em detalhes e sabe tornar poética a imperfeição. Mas o diretor australiano Adam Elliot se excede nessas qualidades até pelos padrões da categoria. Mary & Max é um feito de artesania e de originalidade, mas sua verdadeira audácia está no casamento da linguagem espirituosa com dramas tão cortantes: em vez de dissonar ou banalizar, a combinação, ao contrário, ilumina nesses personagens a doçura que os outros não se interessam em ver.

Mary and Max, 2008

Invencível

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No papel de Louis Zamperini, um rapaz encrenqueiro que tomou jeito quando começou a praticar atletismo, quebrou recordes juvenis e fez bonito nos 5 000 metros na Olimpíada de Berlim, em 1936, o inglês Jack O’Connell irradia carisma e energia. Já como o tenente que em 1943 caiu com seu B-24 no Pacífico, passou 47 dias à deriva junto com dois colegas e foi resgatado apenas para ter diante de si dois anos de inferno como prisioneiro de guerra dos japoneses, O’Connell alcança um feito bem mais complexo: ele nuança o desespero, torna modesto o heroísmo e modula a perseverança, sem no entanto perder nada de sua instintividade. A direção de Angelina Jolie é convencional e dada a santificar o protagonista – mas não há nada que possa turvar a honestidade do desempenho de O’Connell.

Unbroken, 2014

O Último Exorcismo

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O título é de assustar, em um sentido ou em outro, mas a premissa é inteligente: um pastor do “Cinturão da Bíblia” americano conta a uma equipe de documentário (fictício, frise-se) como, por ter sido treinado desde menino para evangelizar, só na idade adulta percebeu que não acredita em Deus nem menos ainda no demônio, embora tenha realizado dezenas de exorcismos. O ritual, diz ele, tem certo valor psicológico quando leva o exorcizado a superar seus tormentos; mas não passa de teatro. A fim de demonstrar seus truques, ele leva a equipe consigo a uma casa no interior da Louisiana onde uma menina diz estar possuída. O caso parece ser o de costume: adolescente órfã de mãe e reprimida pelo pai está manifestando a sexualidade na forma de possessão demoníaca. Mas daí surge uma complicação, e depois outra, e então outra maior ainda. E o pastor, enfim, parece estar diante de um episódio genuíno – ou não? Patrick Fabian, que já teve um sem-número de participações em seriados, ganha aqui sua primeira oportunidade como protagonista. E faz um excelente trabalho.

The Last Exorcism, 2010

Os Indomáveis

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Refilmagem de um bangue-bangue de segunda linha (e ainda assim muito bom) de 1957, esta beleza de faroeste traz Russell Crowe como Ben Wade, líder de uma gangue que assalta trens e diligências, e Christian Bale como Dan Evans, o fazendeiro perneta e paupérrimo que, para salvar sua propriedade do confisco, pede 200 dólares para levar o ardiloso Wade até o trem que o conduzirá à prisão. O bandido não tem a menor dúvida de que seu bando irá resgatá-lo. Caprichoso como ele só, então, consente em dar uma mãozinha ao fazendeiro e se deixar escoltar por ele: Evans o enfrentou três vezes num único dia, e um sujeito assim merece algum respeito. Nas mãos de James Mangold, a trama se desenrola em detalhes que revelam conhecimento do gênero e também paixão por ele: a maneira distinta como cada personagem desmonta de seu cavalo, a trilha que cita a tradição mas também a renova, os planos vastos em que a poeira levantada pela gangue traz o medo bem antes que os próprios bandidos cheguem. Bonito, empolgante e muitíssimo bem-feito.

3:10 to Yuma, 2007

Negação

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Em 1996, as cortes inglesas acolheram uma ação sui generis: David Irving (Timothy Spall), historiador autodidata que fez fama negando o Holocausto, abriu um processo por difamação contra a historiadora americana Deborah Lipstadt (Rachel Weisz), que o havia citado em um de seus livros. Como nesses casos a lei inglesa determina que o acusado é que deve provar que não mentiu, os advogados de Lipstadt (Tom Wilkinson e Andrew Scott, ambos brilhantes) tiveram de montar uma interessantíssima forma de defesa, baseada em provas forenses – ao mesmo tempo em que excluíram do julgamento os depoimentos de Lipstadt e de sobreviventes de Auschwitz, para negar a Irving novas oportunidades de distorção. No papel da protagonista, Rachel está algo fora de tom. Mas o restante do elenco, junto com o poder de choque do filme, valem tudo.

 Denial, 2016

Moonrise Kingdom

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A casa dos Bishop na ilha de New Penzance é tão grande que a mãe (Frances McDormand) toma de um megafone quando tem de chamar o marido (Bill Murray) ou os filhos – e é tão cheia de detalhes vívidos que o espectador se sente como se também ele fosse agora uma peça de mais esta casa de bonecas criada pelo diretor Wes Anderson. A menina Suzy, de 12 anos, é o detalhe que destoa: com binóculos colados aos olhos, ela aparece nas portas, nas janelas, no telhado, sempre olhando para o mundo. Suzy se sente incompreendida pela família, e é infeliz – assim como Sam, escoteiro fugido do acampamento do comandante Ward (Edward Norton). Sam tem também ele 12 anos, é órfão e os colegas o hostilizam. Um ano antes, Suzy e Sam se conheceram, reconheceram-se como almas gêmeas e planejaram escapar. Ele comparece com sacos de dormir, víveres e seu conhecimento da vida selvagem. Ela traz a vitrolinha, um gato numa cesta e vários livros. A fuga dos dois só pode ser breve e simbólica, porque eles estão numa ilha. Mas sua determinação de constituir-se em uma família que faça jus à promessa dessa palavra é genuína e absoluta. Durante todo o filme, a emoção transborda, reverbera e ressoa, até virar enxurrada no clímax marcado por uma tempestade. Arrebatador.

Moonrise Kingdom, 2012

Matar ou Morrer

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Os malfeitores, sedentos de vingança, estão no trem que vai chegar ao meio-dia. Todos na cidade se acovardam, e ninguém na cidade quer enfrentá-los – só o xerife interpretado por Gary Cooper, que está de casamento marcado para o mesmo horário com Grace Kelly, mas mesmo assim, e sabendo que são grandes as chances de não chegar vivo ao final do dia, dispõe-se a proteger os cidadãos sob seus cuidados. Durante uma hora e meia, em tempo real, o diretor Fred Zinnemann faz a tensão escalar sem pausa neste clássico fabuloso, muito imitado e nunca igualado.

High Noon, 1952

Vivos

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Em 1972, a caminho do Chile, um avião da Força Aérea Uruguaia despencou nos Andes com 45 pessoas a bordo, incluindo o jovem time de rúgbi do país. As buscas não revelaram nem sinal da aeronave, e os passageiros e tripulantes foram dados como mortos – exceto pelo fato de que não, não estavam mortos: haviam quase todos resistido à queda. Mas agora enfrentavam a perspectiva de uma morte lenta e sofridíssima, por frio e por fome. Trata-se de um acontecimento verídico que, no início da década de 70, abalou o mundo em sucessivas ondas de choque (assista para saber por quê.). Com Ethan Hawke, novinho de tudo, à frente do elenco, o diretor Frank Marshall (do excelente filme de cachorrinhos Resgate Abaixo de Zero) conta com competência e discrição essa história ao mesmo tempo terrível e eletrizante.

Alive, 1993

A Chegada

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As naves são imensas, mas plácidas, e pairam sem esforço nem ruído a poucos metros do chão. Chegaram sem aviso nem estrondo; a impressão é que se materializaram, de um instante para o outro, em doze locais distintos da Terra. A que está no meio da paisagem silvestre de Montana, no interior americano, é que será a protagonista do filme do diretor Denis Villeneuve. É para ela que são chamados a linguista Louise Banks (Amy Adams) e o físico Ian Donnelly (Jeremy Renner): é urgente tentar compreender quem são os recém-chegados e qual o propósito deles, se a paz ou a guerra. Mas o que Villeneuve busca nesta sua formidável ficção científica – um dos grandes filmes da última década – é a potência da imagem. Ver as naves pairando, ou experimentar a vertigem que Louise e Ian sentem quando entram no túnel vertical que leva ao interior da nave, ou receber o impacto da aparência ao mesmo tempo estranhíssima e muito familiar dos alienígenas: em conjunto com a música soberba do islandês Jóhann Jóhannsson, essas são as matérias-primas sensoriais que Villeneuve molda de maneiras belíssimas, levando a história para trás e para a frente, em uma estrutura que que, a certa altura, vai se revelar como a razão de ser do filme.

Arrival, 2016

Dívida de Honra

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Em seu canto de Nebraska, em 1854, a fazendeira Mary Bee (Hilary Swank, excelente) é um modelo de autossuficiência, diligência, moral e higiene. Findo o trabalho duro na terra, todos os dias, ela toca notas que só pode ouvir em sua cabeça, usando uma tapeçaria bordada como um piano: Mary Bee vive propondo casamento aos homens das redondezas, mas ninguém quer se casar com uma mulher tão assustadoramente capaz – a única que se dispõe a fazer um dificílimo trajeto de semanas para reconduzir à civilização três mulheres que enlouqueceram com a pobreza, o isolamento e o inverno da pradaria. Mary Bee alista como seu ajudante o vagabundo George Briggs (Tommy Lee Jones, também diretor e roteirista), que ela salvou da forca mas que não lhe retribui com gratidão: George é, como todos ali, vítima de uma vida tão brutal que se divorciou de seus sentimentos. Ou quase; no percurso, ele e Mary Bee formarão uma conexão tênue e de desfecho terrível. Como em outro magistral trabalho seu na direção, Três Enterros (2005), Jones inverte os pontos de vista clássicos do western para desconstruir e rearranjar seus significados. O resultado é de uma beleza devastadora.

The Homesman, 2014

Manchester à Beira-Mar

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Sorte do ator que, um dia, topa com um papel como o de Lee Chandler, o trágico protagonista de Manchester à Beira-Mar: não é para todo mundo que uma oportunidade dessas surge – e em geral, quando ela surge, é uma vez na vida. Mas o que Casey Affleck faz desse personagem não tem nada a ver com sorte, e tudo a ver com trabalho: o seu é um desempenho cheio de movimento, em mil tons de cinza, para compor um homem que um luto terrível paralisou por fora e ossificou por dentro. Talento, também, não é o que basta para entregar uma atuação como esta. É preciso uma disposição extraordinária para visitar alguns cantos muito escuros da alma e compreender a natureza da perda e da culpa – e, ainda assim, achar momentos inesperados de humor no meio disso tudo. Manchester à Beira-Mar é tão trágico e repleto de sofrimento que seria fácil ao filme deslizar para o miserabilismo. Na direção circunspecta mas vívida de Kenneth Lonergan e na atuação de Affleck, porém, a tristeza é uma correnteza com inúmeras texturas e muitos afluentes.

Manchester by the Sea, 2016

Corra!

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Já de começo, os coros sinistros de vozes anunciam que coisas terríveis irão acontecer quando o fotógrafo negro Chris (Daniel Kaluuya) colocar os pés na propriedade dos Armitage, os pais de sua namorada, Rose (Allison Williams). Mas que coisas, exatamente? Os Armitage são os perfeitos americanos brancos e liberais, e nem piscam quando veem que o sujeito que saiu do carro é de outra cor. Servem chá gelado, conversam conversas inteligentes, mostram a casa imensa, no meio de um bosque. Assim como Rose avisou, seu pai (Bradley Whitford), um neurocirurgião, e sua mãe (Catherine Keener), uma psiquiatra com mania de hipnotizar as pessoas, não são racistas; são só meio sem noção – e, é verdade, rola um clima entre eles e os empregados negros e estranhíssimos. Corra!, do diretor e comediante negro Jordan Peele, é um duplo sucesso: funciona como terror, e continua funcionando quando parte para a sátira. Mas o que o torna diferente é que tanto o terror quanto a sátira estão a serviço de um dos comentários sobre racismo mais contundentes já feitos no cinema.

 Get Out!, 2017

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