30 anos sem Muro de Berlim, 6 ótimos filmes

Da estreia em cinema Ventos da Liberdade ao simpático Adeus, Lênin! e o trágico A Vida dos Outros, a Alemanha dividida é um tema inesgotável

É difícil pensar em circunstância histórica mais dramática que a de um país dividido – e se esse país é obrigado a espiar o lado que permaneceu livre por cima de um muro ultrapatrulhado, fazendo o possível para não chamar a atenção de uma das polícias secretas mais cruéis de que se tem notícia (nem a famigerada KGB conseguiu ser tão feroz quanto a Stasi da Alemanha Oriental), então o que se tem, além de uma tragédia, é um assunto e tanto para cineastas com um mínimo de competência. E isso é o que não falta aos autores destes seis filmes, que vão do alemão Ventos da Liberdade, um drama/suspense muito eficiente que acaba de entrar em cartaz no circuito brasileiro, até o docemente divertido Adeus, Lênin!, o sombrio A Vida dos Outros e o thriller Ponte dos Espiões, de Steven Spielberg. Comemore um dos grandes acontecimentos do século 20, então, com seis grandes histórias.


Ventos da Liberdade

Onde assistir: em cartaz nos cinemas

É 1979 e, com um filho na adolescência e outro rapidamente sendo doutrinado em fiel soldadinho do Partido, o casal Peter e Doris (Friedrich Mücke e Karoline Schuch) decide que não dá mais: eles têm que fugir da Alemanha Oriental e conseguir cruzar a fronteira para a Alemanha Ocidental do jeito que for. O jeito, no caso, é inusitado: Peter tem um amigo, Günter (David Kross), que também tem muitas habilidades práticas e científicas – e que, como ele, está doido para se mandar dali com a mulher e os filhos pequenos. Juntando o que eles têm, o que podem conseguir e o que sabem, Peter e Günter constroem um balão: eles não moram assim tão longe da ultrapoliciada fronteira entre as Alemanhas e, voando por cima das patrulhas, talvez tenham uma chance. As dificuldades e imprevistos, porém, vão se somando, ao mesmo tempo em que um nada besta oficial da Stasi (Thomas Kretschmann), a terrível polícia secreta da Alemanha Oriental, vai fechando o cerco ao redor deles. Única vantagem que eles levam: o oficial sabe que alguém vai tentar uma fuga, mas não conhece a identidade dos fugitivos. Lembrei um tanto de Argo enquanto assistia a esta muito simpática produção alemã, pela implausibilidade da história – que, no entanto, como a de Argo, é verídica, apesar dos toques dramáticos – e pela maneira como a coisa vai ficando sufocante e destinada a se resolver só no último minuto.

Balloon/Ballon, 2018

Adeus, Lênin!

Onde assistir: Apple Store, Claro Video

É o primeiro filme em que se pensa quando o assunto é a queda do Muro de Berlim, porque é incrivelmente esperto – além de divertido, doce e gracioso. Na comparação do diretor alemão Wolfgang Becker, até o colapso do bloco socialista, em 1989, Berlim era uma espécie de pólo Norte: assim como no pólo todas as direções levam ao Sul, Berlim era uma ilha cercada de Leste comunista por todos os lados. Essa ideia serve de ponto de partida para a engenhosa história de Alex (Daniel Brühl), um rapaz que vive em Berlim Oriental com a irmã e a mãe (a excelente Katrin Sass) – a qual, desde que foi abandonada pelo marido, se aferrou ainda mais à sua militância socialista. Por isso é até consolador que ela tenha entrado em coma na mesma noite em que o Muro caiu – e é motivo de pânico que ela recupere a consciência meses depois, quando a cidade já está em franco processo de acomodação ao mundo capitalista. Para poupar os sentimentos maternos, Alex monta uma farsa elaborada, que inclui vídeos feitos para imitar os noticiários estatais e caçadas a geleias e ervilhas em lata da velha Alemanha – tudo para que a convalescente continue na ilusão de que nada mudou durante sua doença. Aos poucos, porém, percebe-se que Alex é quem está sofrendo com a nova ordem e a iminência da vida adulta, e é ele quem realmente precisa desse conto de fadas. O diretor Becker diz ter desejado dar voz, com Adeus, Lênin!, à desorientação que a erradicação de seu passado causou entre os alemães-orientais. Conseguiu isso e mais um tanto – uma história de um amor verdadeiro entre mãe e filho.

 Good bye, Lenin!, 2003

Ponte dos Espiões

Onde assistir: Apple Store

Jim Donovan (Tom Hanks) foi sempre um deses sujeitos de que todo mundo gosta – e que de repente todo mundo passou a odiar. Em 1957, esse bem-sucedido advogado de seguradoras foi selecionado para defender nos tribunais Rudolf Ivanovich Abel, espião soviético capturado em Nova York. Com a Guerra Fria escalando, era preciso dar a Abel (Mark Rylance) um julgamento acima de qualquer suspeita – mas vá fazer a opinião pública entender isso de defender um inimigo da pátria. E eis que a simpatia entre os dois é mútua e imediata. “Você não parece estar preocupado”, diz Donovan, intrigado, a Abel, a quem acabou de informar que a pena de morte será o desfecho provável. “E se eu estivesse, ajudaria?”, retruca Abel. Pronto; as mais mínimas sugestões de sorrisos que uma lente é capaz de registrar, e está feita a mágica: Hanks e Rylance firmam aquele pacto imprescindível para que um drama atinja sua envergadura. Drama, mas também suspense, e com muitos toques de humor: é tão incrível a trajetória de Jim Donovan (1916-1970) que não há gênero em que ela possa caber – e Steven Spielberg usa todos aqui, com maestria. Donovan conseguiu evitar que Abel fosse condenado à morte. E por isso em 1962 os dois se envolveram novamente, de maneira ainda mais estrambólica – que envolveu a ida de Donovan para Berlim Oriental para negociar sozinho, como cidadão, arriscando a pele em conversas cifradas e enroladas com oficiais comunistas muito dissimulados. Não satisfeito, o advogado meteu na cabeça que, antes que o Muro terminasse de subir, tinha de libertar também um estudante americano que nunca espionara coisa nenhuma mas estava definhando numa prisão da Alemanha comunista. É Spielberg clássico: o protagonista em que o impulso da integridade é mais  forte até que o apego à família ou à própria vida.

 Bridge of Spies, 2015

A Vida dos Outros

Onde assistir: Looke

Sentado à frente da máquina de escrever, com fones de ouvido que filtram a conversa vinda do andar de baixo, Gerd Wiesler, cinqüentão, espião zeloso da Stasi, a horrenda polícia secreta da Alemanha Oriental, é o rosto de um Estado que se transformou inteiro numa máquina de vigiar e corromper. Um rosto cinzento, sem expressão nem inflexão, de um homem cuja existência ninguém registra, mas que vive de registrar a existência alheia. Pelo menos uma vez na vida, porém, Wiesler (o soberbo Ulrich Mühe) reage por instinto: na plateia de um teatro, ele olha a figura de Georg (Sebastian Koch), bonito, autoconfiante e o único dramaturgo leal ao Partido que também é lido no Ocidente, e se convence de que ninguém pode ser tão perfeito assim. Mo dia seguinte, Georg terá deixado de ser o único artista do país livre da vigilância estatal. Do andar de cima, Wiesler se transformará no vírus que vai infectar a intimidade de Georg e de sua mulher, a bela Christa-Maria (Martina Gedeck). Mas algo acontece: nas pequenas interações do casal, o espião escuta algo que não conhece, porém reconhece de imediato como precioso – amor, alegria, atração, beleza, calor. Para sua surpresa e também para seu imenso risco pessoal, ele se reconfigura então de delator em protetor. Oscar estrangeiro em 2007, A Vida dos Outros se passa em 1984, cinco anos antes da queda do Muro de Berlim, quando a Stasi tinha algo como 100.000 agentes a seu serviço. Mais paranoica ainda que a KGB russa, ela mantinha registros de cada uma das máquinas de escrever do país e preservava até amostras do cheiro de seus suspeitos. Estreando na direção com um roteiro primoroso, o alemão Florian Henckel von Donnersmarck combinou os fatos da vida na Alemanha comunista à trajetória de seus personagens de forma indivisível. Se A Vida dos Outros é verdadeiramente superlativo, porém, a razão está em Ulrich Mühe, que morreu logo depois. Mühe foi um dos grandes nomes do teatro alemão-oriental, esteve ele próprio sob vigilância da Stasi e submeteu o diretor a duas sabatinas antes de se confiar a ele. Mais do que encarnar o personagem e sua metamorfose, ele os irradia para a plateia. 

 The Lives of Others/Das Leben der Anderen, 2006

Asas do Desejo

Onde assistir: Looke

E, por falar em atores soberbos, Bruno Ganz é o centro, o coração e a alma deste poema do diretor Wim Wenders sobre a Berlim dividida. Ganz é Damiel, um dos anjos que, mais do que zelar pela humanidade, têm a missão de testemunhar seus feitos e desfeitos; em meio ao concreto, ele e o anjo Cassiel (Otto Sander) se lembram ainda de quando Alexanderplatz era uma campina, ou de quando o Rio Spree, que corta a cidade, primeiro achou seu leito. E, claro, Damiel não tem como não lamentar o triste cenário a seus pés, e as vidas complicadas que às vezes ele toca – e das quais começa a querer fazer parte quando se apaixona por uma trapezista de circo. É possivelmente o melhor filme de Wenders, mas requer alguma afinidade e paciência: etéreo e filmado em um branco e preto nebuloso, é mais a paisagem mental de um alemão na Alemanha do pós-guerra do que propriamente uma história.


Atômica

Onde assistir: Apple Store, Looke, Telecine

Na Berlim da década de 80, às vésperas da queda do Muro, Charlize Theron usa roupas de matar de inveja, persegue outros espiões e é perseguida por eles, bate duro em todo mundo e apanha muito também – e, levando ao pé da letra a caracterização de loira gelada, cura os hematomas num banho de banheira on the rocks antes de sair para mais uma rodada de pancadaria. Em resumo, é disso que consiste Atômica, uma adaptação de uma graphic novel que se apóia no carisma de Charlize e aproveita a magnífica aptidão física da atriz em cenas de ação feitas com grande perícia e impacto. Antes de dirigir Deadpool 2 e Velozes & Furiosos: Hobbs & Shaw, David Leitch aplicou à perfeição a fórmula que ele e o sócio Chad Stahelski desenvolveram em De Volta ao Jogo e John Wick – Um Novo Dia para Matar: ação agilíssima tanto na coreografia quanto na câmera, estruturada com grande complexidade mas filmada de forma quase seca. A Berlim dividida é só pano de fundo, é verdade – mas está lá, junto com James McAvoy, Eddie Marsan, Sofia Boutella, John Goodman e Toby Jones, que entram e saem da história.

Atomic Blonde, 2017

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