Por que ninguém para de elogiar “Fleabag” (e por que ainda é pouco)

Fechada em duas temporadas curtas, série da inglesa Phoebe Waller-Bridge é o tipo mais genial de comédia: aquele em que não se sabe se rir ou chorar

Cheguei atrasada na festa, mas ela continua animada: demorei bastante para começar a ver Fleabag porque tinha lá alguma dúvida se poderia ser tudo isso que todo mundo fala (e, de fato, todo mundo já comentou e escreveu a respeito; devo ser a última da fila). Pois sim: é tudo isso, e mais um tanto ainda. Um bom tanto; acho que os elogios foram até discretos diante de tanto talento. Em duas temporadas de seis episódios cada uma, a inimitável, excelente e extraordinária Phoebe Waller-Bridge ao mesmo tempo conversou com toda a longa tradição de mordacidade e escracho do humor inglês, elevou-a a um novo patamar e, em muitos sentidos, mudou o jogo da comédia de uma câmera só (que outro inglês ilustre, Ricky Gervais, instituiu como regra, dos dois lados do Atlântico, com The Office e Extras). São 300 dos melhores minutos já exibidos na TV, e Phoebe não vai fazer uma nova temporada de Fleabag – o que torna o que foi feito ainda mais memorável. Resumindo ao mínimo: Phoebe faz Fleabag (em tradução livre, “bagaceira”), a moça cujo nome nunca descobrimos. Fleabag é promíscua, irresponsável, inconsequente, egoísta, bebe e apronta demais, fala o que não deve e em geral fala na hora errada, e perde a amiga, a irmã, o pai, o que for – mas não perde a piada. Fleabag também perdeu a melhor amiga de maneira trágica (e se culpa por uma certa colaboração no acontecimento), ainda está de luto pela mãe, sofre com a reprovação da eficientíssima irmã mais velha – a maravilhosa Sian Clifford – que ela atormenta mas adora (e que a adora de volta, do seu jeito), e sente o afastamento do pai, que começou a namorar sua madrinha, uma bisca que é mestre da agressão passiva e que Olivia Colman interpreta com brilho. Mais: na segunda temporada, Fleabag pela primeira vez se apaixona para valer, e sua escolha não poderia ser melhor – nem pior.

Fleabag deveria ser uma pessoa insuportável, porque tem o dom de provocar discórdia mesmo quando não o faz propositalmente (o que é raro). Mas ela é tão inteligente, e olha a si mesma de maneira tão desassombrada, que me parece impossível não admirá-la – ou partes dela, pelo menos. Phoebe Waller-Bridge, que antes desta série fez a bem mais convencional e decididamente inferior Crashing, é também a criadora e roteirista de Killing Eve, para a qual achou outra atriz tão capaz quanto ela própria de ser simultaneamente intolerável e irresistível – a genial Jodie Comer. Muito do que distingue Fleabag, porém, é o timing das olhadas e comentários cúmplices que Phoebe lança para o espectador. É o que se chama de “quebrar a quarta parede”, e não é um recurso incomum. Exceto pela maneira como Phoebe o usa: nunca comunicando-se diretamente com quem está do outro lado da tela, mas sempre de esguelha. Ao mesmo tempo que alicia o espectador e exige a tomada de posição dele, Phoebe vai deixando claro que não é com você ou comigo que está falando; é consigo mesma que ela comenta, desmente, confirma ou questiona o que está dizendo ou fazendo naquele momento. A certa altura, na segunda temporada, um outro personagem pergunta para ela aonde ela vai quando “some” assim no meio da conversa. É o único a notar o diálogo interior dela – e não por acaso ele se torna tão importante para Fleabag.

Fleabag saiu do último Emmy com seis prêmios na mão, de um total de onze indicações. É pouca indicação e pouco prêmio. Só para começar, Olivia Colman não ganhou, nem Fiona Shaw, como uma terapeuta que vale o dinheiro da sessão (Fiona é um arraso também em Killing Eve). A verdadeira calamidade, entretanto, é não terem sequer indicado Andrew Scott, um dos atores mais fantásticos da TV e do cinema ingleses, que nunca faz menos do que resplandecer em qualquer papel, do vilão Moriarty de Sherlock ao C de 007 Contra Spectre e o padre encantador e apaixonante que interpreta em Fleabag. Juntos em cena, Phoebe Waller-Bridge e Andrew Scott soltam faísca – e não só me fizeram gargalhar, como partiram meu coração. Isso é o mais lindo em Fleabag: não saber se é para rir ou para chorar.

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