“Missão no Mar Vermelho”: uma incrível história vira thriller genérico na Netflix

Filme que conta o êxodo dos judeus etíopes para Israel tem Chris Evans e diretor premiado, mas fica aquém da realidade

São misteriosas as circunstâncias pelas quais, 1.700 anos atrás ou mais, teria surgido uma comunidade de judeus na Etiópia – mas o fato é que ela existe, é reconhecida pela tradição judaica e, a certa altura, foi muito aclamada: entre 1979 e 1991, o governo israelense organizou e patrocinou algumas levas de operações altamente arriscadas para tirar da Etiópia assolada por guerra civil, seca e uma das piores crises humanitárias do século 20 algo como 90 mil judeus negros e levá-los para Israel. A primeira dessas operações, e a mais curiosa delas, é o tema de Missão no Mar Vermelho, que acaba de estrear na Netflix e tem Chris Evans no papel de Ari Levinson, um agente do Mossad que bola um plano doido para criar uma rota de fuga para os etíopes.

Ari Levinson é um personagem inventado, mas em linhas gerais a história contada no filme é real. Como a Etiópia praticamente não tem litoral e pousar no território dela era impossível, os etíopes atravessavam o deserto a pé até um campo de refugiados no Sudão (um quinto dos que tentaram morreu no trajeto) e, da costa sudanesa, eram levados de navio pelo Mar Vermelho até Israel. Problemas: o Sudão é muçulmano, é Estado inimigo de Israel e estava sob uma ditadura feroz, o que tornava meio complicado botar agentes israelenses para agir lá. Solução: usando passaportes falsos de nacionalidades variadas, agentes do Mossad alugaram do governo sudanês um hotel de praia para servir de fachada para a operação. Os refugiados eram levados até o resort na surdina e embarcados à noite, nas barbas das milícias sudanesas. Só que, para a fachada resistir, o hotel tinha que funcionar como hotel de verdade e receber turistas interessados em mergulhar nas águas convidativas do Mar Vermelho. A “Operação Irmãos” durou de 1979 a 1984 e, até onde se sabe, é o único caso de envolvimento do Mossad no ramo da hospitalidade e hotelaria. Na prática, é uma história até mais bizarra que a de Argo, já que no caso do resgate dos americanos em Teerã o agente da CIA apenas fingiu ser produtor de cinema.

Gideon Raff, o diretor e roteirista de Mar Vermelho, é o autor de uma série excelente chamada Prisioneiros de Guerra (no original, Hatufim), que trata de três soldados israelenses libertos depois de 17 anos em poder dos árabes e serviu de base à americana Homeland. As qualidades que Raff demonstrou em Prisioneiros de Guerra estão presentes em Mar Vermelho – o bom olho para temas, a direção vigorosa. Mas o tratamento é genérico e, se Chris Evans mira em um desempenho discreto e criterioso, o roteiro não lhe faz grande favores ao tratá-lo como uma espécie de Capitão Israel (além disso, é perfeitamente gratuita a insistência com que ele é mostrado correndo sem camisa ou fazendo flexões). Há algo aqui, também, de que não havia nem sinal em Prisioneiros: a pieguice com que é tratado o personagem de Michael Kenneth Williams (o maravilhoso Omar de The Wire), inspirado no etíope que foi o braço da Operação Irmãos nas suas etapas mais complicadas – aquelas até a chegada ao campo de refugiados. Farede Yazazao Aklum foi um sujeito danado de engenhoso e valente; depois de fugir de seu vilarejo na Etiópia e andar centenas de quilômetros até Kartum, a capital do Sudão, pôs-se a escrever cartas para deus e o mundo, incluindo o primeiro-ministro israelense Menachem Begin, até conseguir que seu plano fosse aceito, quando passou a articulá-lo. Pena que Kabede, o personagem inspirado nele, ficou com mais cara de santo de épico bíblico dos anos 50 do que de gente de verdade.

E é pena também que as coisas tenham todo tomado outro rumo depois dos acontecimentos incríveis mostrados em Mar Vermelho: Israel não teve o mesmo empenho em criar espaço para os judeus etíopes que em tirá-los da África. Hoje eles são 150 mil no país, e formam a comunidade mais desprivilegiada entre os israelenses – a mais sujeita a instrução inadequada, desemprego, marginalidade e violência policial. Para uma espiada nesse outro lado da história, procure Um Herói do Nosso Tempo (Live and Become), com a fabulosa Yaël Abecassis (que, aliás, está também em Prisioneiros de Guerra).


Trailer


MISSÃO NO MAR VERMELHO
(The Red Sea Diving Resort)
Estados Unidos, 2019
Direção: Gideon Raff
Com Chris Evans, Alessandro Nivola, Ben Kingsley, Michael Kenneth Williams, Haley Bennett, Michiel Huisman, Chris Chalk, Mark Ivanir, Greg Kinnear
Onde: na Netflix

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