Para viciar: 3 grandes séries que merecem ser garimpadas

Está procurando uma série cheia de emoção e originalidade, que prenda e não largue, com atuações inesquecíveis, passada em algum cenário fascinante?


The Wire (2002-2008)

Cinco temporadas perfeitas – tão perfeitas que a maioria dos roteiristas de TV admite que, mais até do que em Família Sopranoou qualquer outra série, é aí que se encontram as lições definitivas para escrever um grande drama. Não é propriamente fácil de assistir, até porque é uma barra: David Simon, ex-repórter de jornal, e Ed Burns, ex-detetive de homicídios, criaram The Wire(na HBO às vezes aparece como “A Escuta”, mas a tradução ideal seria “O Grampo”) para dissecar até as vísceras os males de uma grande zona urbana – no caso, Baltimore, que eles conhecem do direito e do avesso. Uma temporada se concentra na corrupção no porto; outra, nos soldadinhos do tráfico; outra, na Câmara dos Vereadores – e assim vai. Mas o que arrebata mesmo são os personagens magníficos: os detetives de polícia que remam contra a maré (Dominic West, Lance Reddick, Wendell Pierce e Clarke Peters se destacam), o traficante que faz MBA à noite para ser melhor empresário das drogas (Idris Elba, metendo medo), o gângster gay com que ninguém se mete (Michael Kenneth Williams, inesquecível), a policial de patrulha que parte o seu coração (Amy Ryan, espetacular). Isso entre dezenas de outros, que entram e saem de cena a cada temporada numa costura virtuosística. No final, desapegar dessa gente toda é a coisa mais difícil do mundo. Para se ter uma ideia do nível,  George Pelecanos, Richard Price e Dennis Lehane, os autores policiais mais bem cotados da literatura americana, escreveram episódios (vários deles) para The Wire.

Se você gostar…Procure também preciosidades como Generation Kill(também de David Simon e Ed Burns, sobre a primeira leva de infantaria americana no Iraque), Show Me a HeroThe Night Of.


Halt and Catch Fire (2014-2017)

Começo dos anos 80, no Texas, e um quarteto perfeitamente incompatível de personagens se reúne para fazer o que todo mundo estava fazendo – ou seja, botar a engenharia reversa para funcionar e lançar o “seu” PC para concorrer com o da IBM, então toda-poderosa. Joe McMillan (Lee Pace), um ex-executivo de vendas da IBM que caiu em desgraça (ele apronta, isso é fato) mas vive com a cabeça cheia de ideias geniais, recruta Gordon Clark (Scoot McNairy), um engenheiro que entrou em depressão quando seu computador original, feito com seu dinheiro e na sua garagem, flopou. Cameron Howe (Mackenzie Davis), uma punkete rebelde e insolente que estuda ciência da computação, escreve código como um Shakespeare. E, a certa altura, também Donna (Kerry Bishé), mulher de Gordon e engenheira cujas oportunidades profissionais estão aquém do seu talento, também entra na jogada. Dê um tempo à primeira temporada: Halt and Catch Firecomeça meio afoita, tentando ser uma Mad Menem versão tech – ambas as séries dão da AMC –, mas, a partir do momento em que consegue “clicar”, sofre uma linda metamorfose: vira um thriller/tragédia da evolução tecnológica. Ou melhor dizendo, dos sonhos que nunca se concretizam porque no último instante a inovação – especialmente a inovação do concorrente – andou mais rápido do que eles. Aí os personagens ganham vida mesmo, e fazem você sofrer e se exasperar. Lee Pace, que começa com a tarefa de ser o novo Don Draper, é quem mais cresce. No desfecho da quarta e última temporada – já nos 90, já em San Francisco –, chorei feito criança com ele e com Scoot McNairy.

Se você gostar…É óbvio, mas assista a Silicon Valley, em que essa mesma rotina de angústia, de acordar como o novo gênio e ir dormir como o novo fracasso, vem no viés cômico e irônico (e nem por isso menos angustiante).


Hell on Wheels (2011-2016)

Cullen Bohannon, ex-latifundiário, ex-dono de escravos e ex-oficial do exército do Sul, chegou ao fim da Guerra Civil (1861-1865) com uma dose extra de ódio da União: enquanto ele lutava, soldados do Norte invadiram sua casa e mataram a sua família. Findo o conflito, ele sai no encalço dos assassinos até o meio das grandes pradarias do Oeste, onde a ferrovia Transcontinental está sendo construída. E por lá fica, contratado como capataz – Cullen é o tipo do sujeito que impõe respeito sem nenhum esforço – pelorobber baronencarregado daquele trecho (Colm Meaney, pingando vigarice). Anson Mount em geral não é um ator que se destaque muito, mas o fato é que nasceu para interpretar o protagonista desta série (também da AMC), um sujeito em que honra e desonra colidem de maneiras cataclísmicas – e que, veja-se que ironia, descobre que só os negros libertos empregados na ferrovia estão em situação tão periclitante e desesperada quanto a dele. Anson Mount faz um belíssimo trabalho, melhor a cada episódio e a cada temporada (são cinco), aprofundando os temas de violência e redenção deste western sujo e malvado, filmado em locações deslumbrantes (Alberta, no Canadá, finge-se de Oeste americano) e repleto de personagens envolventes. Por exemplo, a prostituta que foi raptada por índios na infância, cresceu com eles e tem uma tatuagem peculiaríssima no queixo – muito bem interpretada por Robin McLeavy, e baseada numa personagem verídica.

Se você gostar…Não deixe de conferir Godless, uma minissérie de sete episódios magistrais, na Netflix.

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