Guerra Santa

Em atuação impressionante, Ethan Hawke encarna um pastor que se converte à pregação escatológica dos dias de hoje em “Fé Corrompida”, do diretor Paul Schrader

Com o cabelo aparado rente, o rosto escanhoado e a magreza ascética, Ethan Hawke é um homem reduzido ao indispensável – física e também espiritualmente: o reverendo Toller, que ele interpreta em Fé Corrompida, quase não tem rebanho que pastorear nem esperança que o preencha. Depois de uma terrível crise íntima, ele foi alocado numa igrejinha puritana histórica, frequentada por meia dúzia de fiéis – entre os quais a jovem Mary (Amanda Seyfried), que está grávida e temerosa da depressão do marido, um ambientalista que acha cruel trazer novas vidas a um mundo tão deteriorado. Toller e o rapaz debatem, e é o ativista que deixa a marca mais funda: “O senhor acha que Deus vai nos perdoar pelo que estamos fazendo?”, ele indaga. Quando Mary descobre que seu marido estava pronto a virar um jihadista ecológico, o desejo de sacrifício de Toller – ele não come, só bebe, e recusa-se a se tratar da má saúde – começa a ganhar contornos concretos.

A atuação profundamente comprometida de Hawke merecia uma indicação ao Oscar, assim como o roteiro do diretor Paul Schrader, que faz um exame intenso da torpeza de quem destrói e do ardor de quem quer salvar. Criado no calvinismo e um dos cineastas mais transgressivos que despontaram nos anos 70, Schrader retrata o ambientalista como um profeta do fim dos dias, na tradição de Jesus, ou da condenação ao inferno, na tradição da Reforma. À esperançosa Mary, cabe guerrear contra essa visão apocalíptica pela alma do reverendo.


Trailer


FÉ CORROMPIDA
(First Reformed)
Estados Unidos/Inglaterra/Austrália, 2017
Direção: Paul Schrader
Com Ethan Hawke, Amanda Seyfried, Philip Ettinger
Onde: na Netflix

2 comentários em “Guerra Santa”

  1. Ameeeei, como sempre, sua crítica. E também amo no filme a capacidade do Paul Schrader, assim como você citou, de fazer um exame intenso do processo da troca de uma fé espiritual por uma fé secular. Um tanto cético que sou, sempre desconfio de um mundo melhor, seja ele engendrado pela religião ou pela ciência.

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