“Desobediência”: numa comunidade ortodoxa, três personagens e dois amores

Ganhador do Oscar deste ano por “Uma Mulher Fantástica”, o chileno Sebastián Lelio dirige seus atores como um instrumentista virtuose

Se o chileno Sebastián Lelio fosse instrumentista, eu diria que ele tem ouvido absoluto: em filmes como Gloria (2013), Uma Mulher Fantástica (2017, premiado com o Oscar de produção estrangeira) e agora Desobediência, um quesito no qual Lelio é sempre magistral é a afinação – ele nunca erra uma nota sequer e nunca sai de registro. Cada filme dele é uma peça perfeitamente executada. E o instrumento de Lelio, que ele toca como virtuose, são seus atores: embora as mulheres de seus filmes em geral saiam carregando todas as honras, não deixe de prestar atenção às irretocáveis atuações masculinas. Paulina García brilha em Gloria como a mulher de 58 anos que cai de cabeça numa paixão – mas Sergio Hernández é uma maravilha como o oficial naval aposentado e complicado que é o objeto do seu amor. A atriz transgênero Daniela Vega é uma força da natureza em Uma Mulher Fantástica, no qual não a deixam viver o luto pelo namorado que morreu de repente – mas observe Francisco Reyes e Luis Gnecco nos pequenos porém meticulosos papeis do namorado e do irmão dele. E Rachel Weisz e Rachel McAdams – ela em particular – estão um estrondo em Desobediência, mas o que estabelece o diapasão do filme, e faz o coração do espectador se partir de vez, é o desempenho quase sublime de Alessandro Nivola, tão matizado que piscar o olho é perder alguma nuance importante dele. Dovid, o discípulo de rabino que se casou com Esti (Rachel McAdams) mesmo sabendo que Ronit (Rachel Weisz) era o amor da vida dela, era um personagem de fundo no romance da escritora Naomi Alderman do qual Desobediência foi adaptado. Sebastián Lelio o trouxe para a frente, colocando seu dilema em pé de igualdade com o das duas mulheres que se reencontram depois de anos sem se ver – e é incalculável a ressonância que o filme ganha com essa nova notação. Além de grande instrumentista, então, Lelio é um compositor de primeira.

Leia a seguir a resenha completa:


Balé de Desencontros

O belo Desobediência retrata um triângulo amoroso na comunidade judaica ortodoxa de Londres para falar do duro dilema entre regras de conduta e aspirações pessoais

Desorientada com a notícia da morte de seu pai, um rabino venerado, a fotógrafa Ronit (Rachel Weisz) deixa Nova York rumo a Londres para o funeral, sem calcular a frieza e desaprovação com que será recebida. Na comunidade ortodoxa da zona norte londrina, todos pisam em ovos em torno de Ronit: com seus longos cabelos soltos, sua jaqueta de couro e seus cigarros, ela é um lembrete malquisto de que até os círculos mais fechados podem produzir renegados. O constrangimento é particularmente agudo no reencontro com Dovid (Alessandro Nivola) e Esti (Rachel McAdams). Amigos antes inseparáveis que algum acontecimento separou por completo, os três dançam um balé vacilante ao redor uns dos outros: Ronit fica boquiaberta ao constatar que Dovid, discípulo do velho rabino, casou-se com Esti. E, na surpresa dela e no estoicismo com que o casal enfrenta essa surpresa, pressentem-se graves objeções de parte a parte – que se alargam quando os integrantes da comunidade veem que Dovid e Esti ofereceram hospedagem a Ronit.

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Recém-premiado com o Oscar de produção estrangeira pelo surpreendente Uma Mulher Fantástica, sobre uma jovem transgênero impedida de cumprir o luto pelo namorado morto, o diretor chileno Sebastián Lelio renova, em Desobediência, as razões para o prestígio que o acompanha no circuito internacional. Haveria um sem-número de caminhos já mapeados pelos quais conduzir a história adaptada do romance da inglesa Naomi Alderman – por exemplo, o esperado (e cômodo) indiciamento da ortodoxia religiosa como obstáculo à realização pessoal. Nenhum dos rumos previsíveis, entretanto, interessa a Lelio. Se anota a repressão férrea que um grupo fundamentalista pode exercer sobre seus membros – e que no passado arruinou a paixão de Ronit e Esti –, por outro lado o diretor mostra também o arcabouço de amparo que esse grupo propicia, e a ocasional alegria com que Dovid e Esti vivem sua fé. E, se frisa o temor de Dovid de que as duas mulheres possam reiniciar seu relacionamento, Lelio faz questão de indicar que a censura moral não é o único motivo dele: Dovid ama Esti como mulher, ainda ama Ronit como amiga, e tem o desejo ardente de seduzir uma como esposa e preservar a amizade da outra.

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Essa talvez seja a maior contribuição do diretor – que não tinha nenhuma familiaridade com o meio retratado aqui até Rachel Weisz convidá-lo para o projeto – ao enredo trazido do livro: o contraponto tocante que ele cria ao se apoiar na presença intensamente masculina de Nivola e na sensibilidade com que este desenvolve o personagem antes secundário de Dovid. O dilema de Ronit e Esti, que mais se agrava do que se resolve no afogueado encontro sexual das duas, não é o único que importa: também os sentimentos de Dovid e o seu dilema – abrir mão de Esti ou não – pesam para os protagonistas e para o espectador. Ancorando todas as cenas, sem exceção, no rosto de pelo menos um dos seus três excelentes atores, e acercando-se deles com uma curiosidade vívida moderada pelo respeito, Lelio faz uma radiografia de quaisquer três pessoas divididas entre suas aspirações e seu código de conduta – seja ele qual for.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na edição 2588 da revista Veja
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2018

Trailer


DESOBEDIÊNCIA
(Disobedience)
Inglaterra/Irlanda/Estados Unidos, 2018
Direção: Sebastián Lelio
Com Rachel Weisz, Rachel McAdams, Alessandro Nivola, Anton Lesser, Bernice Stegers, Allan Corduner
Distribuição: Sony Pictures

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