“Han” voa baixo em aventura “Solo”

Faltam carisma, arrojo e entusiasmo à história de origem do mais querido (e carismático) de todos os personagens de “Star Wars”

Não se sabe que cara Han Solo – Uma História Star Wars teria se os diretores Phil Lord e Christopher Miller, do delicioso Uma Aventura Lego, tivessem continuado no comando nele. Também não se sabe de que natureza foram as “diferenças criativas” que levaram a Lucasfilm a demiti-los. Ignora-se quanto do material que a dupla rodou durante seus quatro meses de trabalho foi preservado, e quanto foi refeito por Ron Howard, que substituiu Lord e Miller no posto. Não se conhecem também as instruções que Howard recebeu da Lucasfilm: embora nem sempre ele seja um cineasta audacioso, é inegavelmente competente, fluente e um mestre em cativar e empolgar (como atestam Willow, Apollo 13, Um Sonho Distante, Uma Mente Brilhante, Rush etc.). Eu diria, aliás, que há poucos diretores tão habilitados quanto ele a imprimir a um filme sobre Han Solo aquela alegria de matinê com que o personagem foi concebido – e que, por isso mesmo, se ajustou tão bem à personalidade de Harrison Ford, capaz como ninguém de parecer ao mesmo tempo cínico e coração-mole, oportunista e bom-caráter, ranzinza e bem-humorado, e invariavelmente adorável e irresistível. Em resumo: é impossível saber por que, exatamente, Han Solo chega agora à tela tão pálido e tímido, inseguro como um adolescente que quer causar boa impressão mas não sabe como. Minha intuição diz para desculpar Alden Ehrenreich, que faz o jovem Solo: fenomenal em Ave, César!, dos irmãos Coen, ele parece aqui estar brigando com uma rédea apertada demais. Desconfio que também Ron Howard não é o principal responsável: se já é difícil cumprir todas as expectativas de um filme como este tendo controle total, que dirá quando se pega o bonde andando. Tendo a achar que quem marcou gol contra, desta vez, foi a própria Lucasfilm. Quando interferência e desconfiança são a regra do trabalho, o resultado tende a ser aquele tipo de profecia que se cumpre sozinha.

Leia a seguir a resenha completa:


Aventureiro Cauteloso

Bonito no visual e respeitoso para com suas origens, Han Solo – Uma História Star Wars carece da qualidade mais marcante de seu protagonista: a disposição para correr riscos

Por sua garota, Han Solo (Alden Ehrenreich) topa qualquer coisa: arriscar a vida no roubo de um hipercombustível precioso, alistar-se nas forças do Império e lutar em trincheiras lamacentas, juntar-se a um bando de contrabandistas de índole duvidosa. Durante mais de três anos, o jovem Solo virou-se como pôde, sempre com o intuito de retornar a um planeta do qual gente ajuizada só quer distância – um favelão sideral dominado por uma facção criminosa –, a fim de resgatar a namorada, Qi’ra (Emilia Clarke). Solo e Qi’ra são órfãos; cresceram sendo explorados pela marginalidade, e estão habituados a adaptar-se a novos e inesperados expedientes para sobreviver. Mas, mesmo em meio a essa vida desencantada, Solo preservou intacto seu encanto por Qi’ra, e também pelo sonho de ser piloto – não qualquer piloto, mas o maior de todos da sua galáxia distante. Ele poderia se considerar afortunado, já que, em Han Solo – Uma História Star Wars, seus sonhos se realizam – de certa forma. Não é sem motivo que esse rapaz tão cheio de confiança e entusiasmo vai, um dia, se transformar no homem arredio (e imensamente carismático) que Harrison Ford interpretou na trilogia Star Wars lançada entre 1977 e 1983: o destino gosta de entregar a Solo o que ele quer, mas de um jeito que ele não desejaria.

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Em certa medida, é isso que também o fã de Star Wars pode sentir durante uma sessão de Han Solo – que ganhou o que pedira, mas não como havia pedido. A produção começou de maneira auspiciosa, com a escalação da dupla de diretores Phil Lord e Christopher Miller (do sucesso Uma Aventura Lego) e de Ehrenreich, agora com 28 anos, com base em sua participação fabulosa em Ave, César!, dos irmãos Joel e Ethan Coen. Mas o projeto entrou então em um percurso atormentado: com quatro meses de trabalho já realizados, Lord e Miller foram demitidos pela Lucasfilm e substituídos pelo veterano Ron Howard, de Apollo 13 e Uma Mente Brilhante. Na prática, isso significa que o desagrado da produtora Kathleen Kennedy com o material filmado foi de tal ordem que ela preferiu quase dobrar (estima-se) o orçamento inicial para que Howard pudesse refazer cerca de 80% dele (de novo, estima-se) desde o início. Mais até do que a escala do investimento, pesa numa decisão como essa o trauma do elenco e da equipe: por mais que se procure poupá-los de responsabilidade, é inevitável, para eles, a sensação de que seus esforços fracassaram.

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Para o bem e para o mal, filmes são criaturas sensíveis aos acontecimentos do parto, e Han Solo trai a insegurança que se produziu nos bastidores. Ehrenreich brilhou em Ave, César! porque levou para o seu papel – um caipira que vira astro de filmes de caubói – uma criatividade, uma autoconfiança e uma comicidade intensas. Aqui, onde esses atributos seriam inestimáveis, ele entrega um desempenho cauteloso, quase tímido. Emilia Clarke, Woody Harrelson, Paul Bettany e até Donald Glover (que acaba de abalar o debate racial americano com o clipe do rap This Is America), que faz o finório Lando Calrissian, o acompanham no mesmo passo. Toda a condução de Han Solo, na verdade, parece tateante, mais comprometida com a ideia de extrair de Ehrenreich e Glover réplicas das atuações originais de Harrison Ford e Billy Dee Williams do que de encorajá-los a reinventar os personagens em seus próprios termos.

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Bonito no visual – não se esperaria outra coisa – e reverente para com suas origens, Han Solo carece, no entanto, da qualidade mais atraente de seu protagonista: o senso de aventura.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista Veja em 23/05/2018
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2018

Trailer


HAN SOLO – UMA HISTÓRIA STAR WARS
(Solo: A Star Wars Story)
Estados Unidos, 2018
Direção: Ron Howard
Com Alden Ehrenreich, Emilia Clarke, Woody Harrelson, Donald Glover, Paul Bettany, Joonas Suotamo, Thandie Newton, Phoebe Waller-Bridge
Distribuição: Disney

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