“Tempestade – Planeta em Fúria” não faz nem brisa

Poucas e fracas cenas de destruição, muita enrolação: uma receita para acabar com a graça do cinema-catástrofe


Adoro um bom filme-catástrofe. Mesmo. Do fundo do coração. Mas está aí uma coisa que Tempestade – Planeta em Fúria não é: um bom filme. Nem competente em matéria de catástrofe, aliás, ele consegue ser, a não ser que o seu apetite pela destruição mundial (no cinema e só nele, bem entendido) se satisfaça com uma meia dúzia de cenas que lembram suspeitamente as de outros filmes muito mais impressionantes ou mais divertidos – como O Dia Depois de Amanhã, 2012 (ambos do campeão do gênero, Roland Emmerich) e Impacto Profundo. Quem dirige é Dean Devlin, que foi parceiro de produção de Emmerich durante muitos anos (desde os tempos de Independence Day), mas pelo jeito não entendeu qual a graça da coisa. Assim como o Godzilla de 2014, por exemplo, Tempestade tenta disfarçar o escapismo – ou, dependendo do caso, o fatalismo – do cinema-catástrofe conferindo a ele o que imagina ser a “dignidade” de uma trama. Mas enredo aos montes, primeiro, não equivale a um bom argumento (e o de Tempestade é muito ruim). Segundo, não conheço ninguém que vá ver filme-catástrofe para aturar briga de família, ou para acompanhar uma trama de conspiração que nem nos seus piores momentos 24 Horas teria a cara de pau de propor.

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Na trama cheia de voltas e reviravoltas que não levam a nada (a não ser a um desfecho de uma idiotia sem tamanho), várias nações colaboraram para deter os efeitos do aquecimento global e instalar uma intrincada rede de satélites que controla o clima em cada ponto do planeta. Não estou falando daquela proposição teórica de uma rede que sirva de anteparo contra a radiação solar. Os satélites criados pelo gênio interpretado por Gerard Butler (pois é; assim fica difícil mesmo) rebolam, vibram, bordam e chuleiam: evitam que chova demais em Manila, que neve além da conta em Moscou, que haja seca no Sudão. Uma beleza. Mas Jake Lawson (Butler) é um gênio rebelde, que confronta governos e toma decisões unilaterais. De forma que é demitido do programa “Dutch Boy” (em homenagem ao garoto holandês da lenda, que impediu que os diques se rompessem tapando um furo num deles com o dedo). E, que tapa na cara, é substituído no comando por Max (Jim Sturgess), seu irmão caçula e burocrata de Washington. Passados três anos, o Dutch Boy começa a dar defeito. Falha ou sabotagem? Jake, portanto, tem de voltar à Estação Espacial Internacional (ISS), sede de controle do programa, para descobrir o que está acontecendo e impedir que todos os climas extremos se juntem numa única e arrasadora tempestade.

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Até há uma boa sequência de desastre em Hong Kong, se descontarmos o fato de que o calor que faz o asfalto ficar em brasa não derrete os pneus do Smart em que um personagem foge. Mas, no geral, Tempestade troca as bolas: oferece as cenas de tsunami, congelamento súbito (a praia carioca dá aquela refrescada), incêndios e tornados como aperitivo, e serve a longa, chata e boba história da sabotagem como prato principal. Ed Harris e Andy Garcia saem no tapa para ver quem é mais canastra, mas não adianta; Gerard Butler e Jim Sturgess já dividiram o prêmio. Alexandra Maria Lara, que é alemã e novata nesse tipo de filme, sofre tentando equacionar o dinheiro que está ganhando com o trabalho ruim que está fazendo – um escrúpulo que Devlin e seu corroteirista, Paul Guyot, não têm, ou não se contentariam com a mediocridade estuporante dos seus diálogos. A dupla tenta se escorar numa boa intenção, a de se opor ao negacionismo obscurantista de Donald Trump e sua sanha de atrasar o relógio da energia limpa. Mas ainda bem que até a China já decidiu que é nela que está o futuro: a depender de filmes como este para persuadir alguém de que um painel solar é melhor que um forno de carvão, é o caso de correr para as colinas, porque o mar vai subir. Enquanto ele continua onde está, que alguém por favor produza um filme-catástrofe que cumpra o prometido no trailer e não seja ele próprio catastrófico.


Trailer


TEMPESTADE – PLANETA EM FÚRIA
(Geostorm)
Estados Unidos, 2017
Direção: Dean Devlin
Com Gerard Butler, Dean Devlin, Alexandra Maria Lara, Abbie Cornish, Amr Waked, Ed Harris, Andy Garcia, Eugenio Derbez
Distribuição: Warner

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