Planeta dos Macacos – A Guerra

Feito com garra, terceiro episódio é de longe o melhor da série, e o único que não passa vergonha diante do filme de 1968

É difícil dar uma ideia da comoção que foi ter uns 11 anos e ver pela primeira vez O Planeta dos Macacos, na televisão – numa muito aguardada exibição (em cores!) que rendeu assunto entre a garotada durante semanas a fio. Prova de que o filme dirigido por Franklin J. Schaffner em 1968 merece a reputação que tem é que, revendo-o hoje, ele continua tão novo, excitante e perturbador quanto décadas atrás: até a maquiagem, que hoje parece rudimentar (na época, era revolucionária), passa despercebida depois dos primeiros minutos, tão tensas e envolventes são a direção e as interpretações. (A trilha de Jerry Goldsmith é outro ponto alto, e ainda inigualado.) Sem falar que, talvez, o original tenha o melhor desfecho da história do cinema. Ou um dos melhores, com certeza. De forma que, até aqui, a nova série Planeta dos Macacos, inaugurada em 2011, vinha assombrando no quesito técnico, mas deixando muito a dever no impacto. Planeta dos Macacos – A Guerra corrige a rota com uma garra inesperada. O mundo e a indústria do entretenimento mudaram muito, e não existe a possibilidade de a série vir a se tornar um fenômeno cultural comparável ao do filme de 1968 – mas o diretor e corroteirista Matt Reeves dá a Guerra os músculos e tendões de que Planeta dos Macacos carecia, e testa os nervos da plateia do primeiro ao último minuto. Pela primeira vez, não se faz feio diante do original. E só isso já é uma façanha.

Leia a seguir a resenha completa:


Um Terrível Mundo Novo

Com referências contundentes aos genocídios dos dois últimos séculos e ao terror, Planeta dos Macacos – A Guerra é um filme feroz e imensamente benfeito, que ombreia com o original de 1968

O gorila vem por trás e toca sorrateiramente o ombro do soldado – e, por um momento, tem-se a impressão de que o pelotão que avança pela selva foi cercado pelas forças do chimpanzé Cesar. Engano; com a palavra “burro” pintada às costas, o gorila é um dos macacos que os seres humanos empregam como rastreadores, feitores e bestas de carga. Mal Planeta dos Macacos – A Guerra começou e, com essa referência explícita aos nativos que os americanos cooptavam para empregar nas guerras contra as tribos indígenas, o filme já adentrou o território tenebroso do genocídio. O Coronel (Woody Harrelson) quer a aniquilação total dos macacos; Cesar propõe que eles permaneçam restritos à área que ocupam na mata, sem contato com os humanos. Mas, como tantas vezes na história, a concentração em reservas é só uma etapa anterior à guerra e à carnificina. O massacre que se segue nesse primeiro embate é terrível – mas é só o começo do martírio dos macacos, o qual vai incluir muitas outras formas chocantes de desmoralizar, enfraquecer e torturar um inimigo.

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Terceiro episódio da série iniciada em 2011, o novo A Guerra é o primeiro a ombrear com o filme antológico estrelado por Charlton Heston em 1968 – e, surpresa, oferece eletricidade redobrada a quem conhece a história original. Robusto, vigoroso, de uma intensidade que não dá trégua, Guerra redime de ponta a ponta uma franquia que, até aqui, vinha se destacando mais pela excelência técnica que pela regularidade no roteiro ou na direção. Tecnicamente, o filme atinge um patamar espantoso. A performance capture – a captura das expressões corporais e faciais de um ator por meio de sensores, à qual se acrescenta então a camada digital que o transforma em uma criatura diversa – vem avançando a passos largos. Mas aqui seu uso é não apenas impecavelmente preciso, como muito inspirado (tão importante quanto a contribuição do ator é o trabalho realizado sobre ele pelos artistas gráficos).

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É, também, crucial ao roteiro, já que ao primeiro contato com os macacos dissipa-se assim qualquer barreira psicológica que possa separar o espectador deles. Sofridos, desesperados, desejosos só de uma chance de viver em paz e perplexos com o ódio que os homens lhes dedicam, Cesar e seus companheiros aliciam de imediato a empatia da plateia – e, desta vez, causa assombro não apenas o trabalho do inglês Andy Serkis como Cesar, mas também o de Steve Zahn no papel de Bad Ape, um macaquinho que escapou de um zoológico e há anos vive sozinho, escondendo-se.

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Em seu isolamento, Bad Ape nunca adquiriu uma compreensão geral da hecatombe que se seguiu ao experimento que transformou Cesar e outros macacos em primatas tão (ou mais) avançados quanto o Homo sapiens. Disseminado em forma de vírus – a “gripe símia” –, o agente da transformação matou seres humanos às centenas de milhões. Agora, sofreu uma mutação: está roubando a fala, e muito da capacidade de raciocínio associada a ela, dos humanos que resistiram ao primeiro contágio. Em fuga do Coronel, que lhe infligiu perdas pessoais terríveis, Cesar se vê obrigado a juntar à sua caravana, primeiro, uma menina infectada (Amiah Miller) e, depois, Bad Ape. Ambos lhe parecem excesso de bagagem; Cesar se ressente da garota por ser humana, e do macaquinho por sua tendência a se acovardar. Mas os dois terão papel essencial no momento em que Cesar descobrir o que foi feito de sua gente: numa instalação militar abandonada sob o frio inclemente da costa oeste do Pacífico, o Coronel instituiu um campo de concentração. Apinhados dentro de jaulas imensas durante a noite, ao relento, sem comida nem água, durante o dia os macacos realizam trabalhos forçados sob os chicotes do “burros” (que, nesse contexto, lembram os Sonderkommando, os judeus obrigados a trabalhar nas câmaras de gás dos campos de extermínio).

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Com seu estado de sobressalto constante e a intransigência com que retrata um cenário em que as diferenças de identidade étnica não mais podem ser acomodadas, Guerra é um triunfo para o diretor Matt Reeves. Embora tenha comandado também o episódio anterior de Planeta dos Macacos (e criado a meiga série Felicity), só aqui ele adquiriu confiança suficiente – por parte do estúdio, e em si próprio – para realizar por completo a sua visão de um mundo presa do medo e em retrocesso civilizatório veloz. Em seu pessimismo inflexível, Planeta dos Macacos – A Guerra sugere que este é um caminho sem volta, e nada, jamais, será como antes.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 02/08/2017
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2017

Trailer


Entrevista com Andy Serkis


PLANETA DOS MACACOS – A GUERRA
(War for the Planet of the Apes)
Estados Unidos, 2017
Direção: Matt Reeves
Com Andy Serkis, Woody Harrelson, Steve Zahn, Karin Konoval, Amiah Miller, Devyn Dalton, Terry Notary, Ty Olsson, Toby Kebbel
Distribuição: Fox

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