David Fincher & A Mente dos Psicopatas

Ver ou rever o soberbo “Zodíaco” é a melhor preparação para “Mindhunter”

Como produtor e às vezes diretor de House of Cards, David Fincher transformou a Netflix em potência quase que do dia para a noite. Agora, com House of Cards se esvaindo na sua quinta temporada (o criador e supervisor Beau Willimon foi embora, e o castelo de cartas desabou), Fincher já tem uma nova entrega a fazer: em 13 de outubro estreia a primeira temporada da sua nova série, Mindhunter, sobre dois agentes que, nos anos 70, enfurecem o FBI por insistir na criação de um novo método – o perfil psicológico de assassinos que se encaixam numa categoria que vem deixando as autoridades aturdidas, a dos serial killers. Hoje, o perfil psicológico é procedimento consagrado no FBI. Mas, à época, soava como bizarra e até pervertida a ideia de entrevistar psicopatas e conviver com eles para entender como pensam, e por quê. O trailer (veja no final deste post) é puro Fincher: aqueles cinzas e amarelados dos escritórios e celas, aquela clima angustiante (no melhor sentido da palavra).

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Mindhunter

A rigor, esse foi sempre o tema maior da carreira de David Fincher – por que as pessoas pensam como pensam, e a maneira como a obsessão molda a personalidade e a vida delas. Ele está em Seven, Clube da Luta, O Quarto do Pânico, A Rede Social, Millennium, Garota Exemplar, House of Cards. Está sobretudo em Zodíaco, uma obra-prima de 2007 que parece ter muito em comum com Mindhunter (é sobre um serial killer que aterrorizou a região de São Francisco, onde Fincher morava, quando ele era criança). Como Zodíaco não foi exatamente um sucesso nos cinemas – ou seja, muita gente deixou escapar –, e como está também disponível na Netflix, aí vai minha sugestão: não deixe de ver. Serão duas horas e meia muito bem empregadas.

Leia a seguir a resenha publicada quando Zodíaco entrou em circuito, e também uma entrevista com Bryan Hartnell, que sobreviveu a um ataque do assassino. E só uma curiosidade: o caso inspirou também o genial Perseguidor Implacável, de 1971, com Clint Eastwood.


Autópsia de um assassino

Zodíaco recria a caçada real a um serial killer e assume uma postura moral perante seus crimes: a de reduzir a covardia à sua devida dimensão

O diretor David Fincher tinha 7 anos quando a região da Baía de São Francisco, onde ele morava, entrou num estado prolongado de alarme em razão de um assassino serial autodenominado Zodíaco. Numa noite de julho de 1969, um rapaz e uma moça casada que estavam dentro de um carro, num lugar afastado, levaram um total de nove tiros, aparentemente sem razão nenhuma para que fossem escolhidos como alvo. A moça morreu; o rapaz, Michael Mageau, então com 19 anos, sobreviveu, embora com ferimentos gravíssimos. Imediatamente, o crime foi reivindicado pelo homem que chamava a si próprio de Zodíaco, em cartas e telefonemas a jornais, à polícia e até a familiares das vítimas. Neles, o Zodíaco alegava ainda que um outro duplo homicídio ocorrido meses antes, similar nas circunstâncias e na escolha das vítimas, fora também obra sua – e os detalhes que forneceu do caso convenceram os investigadores de que ele dizia a verdade. O Zodíaco viria a matar ainda um motorista de táxi, de noite, numa zona residencial, e um outro casal, numa tarde ensolarada à margem do Lago Berryessa, dessa vez a facadas. Novamente, a moça, Cecelia Shepherd, morreu, e o rapaz, Bryan Hartnell, resistiu. Com Cecelia, foi-se a esperança de uma identificação positiva. Ela o vira aproximando-se, antes que ele colocasse o capuz preto com que cobria a cabeça. Hartnell nunca chegou a ver as feições de seu agressor, e até sentir a faca entrando nas suas costas achou que perderia tão-somente a carteira e as chaves do carro. Na volumosa correspondência que continuou a enviar aos jornais, sempre acompanhada de criptogramas e charadas, o Zodíaco reclamou para si outros crimes (há sérias dúvidas de que ele tenha sido seu autor) e fez diversas ameaças. Dizia, por exemplo, que seguiria ônibus escolares e abateria as crianças a tiros no momento em que fossem deixadas em sua parada. A essa altura, todo o Norte da Califórnia estava em alerta e em pânico. O pai de David Fincher, contudo, decidiu que ele continuaria a tomar a condução de sempre para a escola – e essa impressão de algo vivido e vividamente lembrado está por toda parte em Zodíaco, o filme que o diretor fez sobre o caso.

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O Zodíaco mandou sua última carta aos jornais em 1974, e nunca foi capturado. Nem sequer foi identificado. Um dos suspeitos mais prováveis morreu de infarto antes que pudesse ser reinterrogado, em 1992. Até hoje, uma multidão de detetives amadores se debruça sobre o caso sem chegar a um consenso sobre quem ele teria sido e por que agia como agiu. Não é esse enigma, porém, o que de fato preocupa Fincher. O que o fisgou foi a sedução da caçada, e a intensidade com que um punhado de homens respondeu a ela. Conhecido pela sensibilidade hiperbólica e pelo virtuosismo técnico demonstrados em filmes como Se7en e Clube da Luta, o diretor parte aqui numa direção radicalmente diferente: seu Zodíaco é todo sobre o trabalho meticuloso e cansativo de levantar fragmentos de informação, de conferir e repisar provas, de imaginar e reimaginar um mesmo cenário. É, enfim, um filme fascinado por um tema que até aqui parecia ausente da agenda de Fincher – o dia-a-dia das pessoas que batem cartão, e quanto essa rotina pode conter de drama.

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Zodíaco é também um filme sobre onde ficaria a linha que separa o perfeccionismo da obsessão. De um lado dela estão os dois principais investigadores do caso, os policiais David Toschi e William Armstrong (respectivamente, Mark Ruffalo e Anthony Edwards). Ambos devotam anos de sua carreira ao caso, mas, ao fim e ao cabo, têm o preparo necessário para desligar-se dele e não o levar para dentro de casa. Do outro lado dessa linha ficam o repórter policial Paul Avery (Robert Downey Jr.) e o cartunista Robert Graysmith (Jake Gyllenhaal), ambos do jornal San Francisco Chronicle, que não souberam como separar a busca de sua vida pessoal e foram bater no fundo do poço por causa dela – Avery, mais precisamente, no fundo da garrafa, e Graysmith, num divórcio provocado por sua total e completa absorção nesse quebra-cabeça. É nos dois livros que ele escreveu sobre sua investigação particular, aliás, que o filme em boa parte se baseia. Na ocasião, o cartunista, que se envolveu na busca porque adorava charadas, passou meses trancado com suas notas, quase sem ver a mulher e os filhos pequenos – que hoje estão crescidos, mas com os quais ele faz questão de falar todos os dias. “Não sei desistir de nada”, brincou ele em entrevista a VEJA, para a qual cedeu ainda um dos desenhos em que recriou a aparência provável do Zodíaco.

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Para melhor servir a essa história de minúcias, Fincher adota uma narrativa límpida e direta. Em vez de ostentar sua excelência técnica, como é seu hábito, ele a submete aqui aos detalhes. Seu perfeccionismo está nos diálogos escritos como conversas realistas, nos figurinos que parecem roupa de gente de verdade, na edição de som soberba, que recria a atmosfera dos ambientes com o máximo de naturalismo, e nas interpretações eficientes e contidas (Mark Ruffalo, em especial, está excelente). Nenhum desses aspectos técnicos, porém, chama a atenção para si. Para quem espera um trabalho com a assinatura de Fincher, pode ser um banho de água fria. Para quem aprecia a idéia de ver um cineasta crescer e amadurecer, é um espetáculo. Em vez do grand guignol de Se7en e Clube da Luta, o que destaca Zodíaco é exatamente a maneira como ele rejeita qualquer tipo de exploração sensacionalista ou de valorização de seu personagem-título. “A última coisa que eu queria era que o filme gratificasse a ânsia por notoriedade de um assassino serial ou que servisse de inspiração masturbatória a psicopatas”, diz Fincher. O raciocínio que ele expõe na construção do filme é, nesse sentido, impecável. Matar para existir aos olhos alheios é uma confissão de insignificância, e é na insignificância que Zodíaco firmemente mantém a personalidade do assassino. A única esfera em que ele existe, nos 158 minutos de projeção, é a das pessoas que ele anulou, e a das pessoas que buscam anulá-lo. Trata-se, de certa forma, de uma postura moral diante da covardia – a de tirar do covarde a dimensão épica ou heróica que ele pretende para si.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 30/05/2007
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2007

ZODÍACO
(Zodiac)
Estados Unidos, 2007
Direção: David Fincher
Com Jake Gyllenhaal, Mark Ruffalo, Robert Downey Jr., Anthony Edwards
Onde assistir: Na Netflix


Entrevista com Bryan Hartnell

“Sobrevivi a um serial killer”

Em 27 de setembro de 1969, o estudante Bryan Hartnell e uma amiga, Cecelia Shepherd, passavam uma tarde de sol à beira do Lago Berryessa, na Califórnia, quando um homem encapuzado se aproximou deles. Foi o início de um ataque sangrento. Hartnell sobreviveu às repetidas facadas desferidas em suas costas pelo assassino serial que se auto-intitulava Zodíaco. Cecelia e outras quatro vítimas atacadas por ele em ocasiões distintas de 1968 e 1969 não tiveram a mesma sorte. Até hoje, não se sabe a identidade do serial killer que apavorou a região de São Francisco com suas cartas repletas de charadas e ameaças, nem se está vivo ou morto. Hartnell, porém, diz se dar por satisfeito com o fato de ele não ter voltado a matar. Hoje um advogado de 57 anos, casado e pai de dois filhos, ele é um opositor convicto da pena de morte. “O que o Zodíaco fez comigo não definiu minha vida nem mudou minhas convicções”, disse Hartnell a VEJA, numa das raríssimas entrevistas que aceitou conceder nas últimas décadas.

O que o senhor sente quando revive os momentos de 1969 em que foi atacado, junto com sua amiga Cecelia Shepherd, pelo assassino em série Zodíaco?
Adquiri alguma distância deles. Sem isso, não se sobrevive. Não quero acordar todas as manhãs pensando naquele dia, ou ser assaltado por esses pensamentos enquanto estou no trabalho ou com a minha família. Esse episódio faz parte de mim e não fujo dele, mas tive de achar um lugar à parte para ele na minha mente.

Como foi ver a reconstituição do seu ataque no cinema?
Muito perturbador. Tive de cerrar os dentes para assistir a essa cena.

Em que instante, naquela tarde, o senhor se deu conta de que algo horrível estava por acontecer?
Só quando o Zodíaco enfiou a faca nas minhas costas pela primeira vez. Até esse segundo, achei que se tratava de um assalto corriqueiro. Imaginei que talvez ele fosse me bater, mas não que seria esfaqueado, ou que Cecelia seria assassinada.

O senhor se culpou por não ter conseguido protegê-la?
Tentei agir com calma e controlar a situação. Mas, repito, achei que estava lidando com um assaltante comum. O Zodíaco me esfaqueou primeiro, o que provavelmente, por ironia, contribuiu para que os ferimentos de Cecelia fossem fatais: ela viu o que ele estava fazendo comigo e começou a se contorcer, de maneira que ele a atingiu por todo o corpo. O pai de Cecelia, porém, achava que fui de alguma forma responsável pela morte dela, o que foi muito duro.

O senhor achou que também morreria?
Tive certeza de que morreria. Senti que meu corpo estava falhando, como um motor sem combustível, e que eu estava caindo numa espécie de escuridão.

Como foi a volta ao dia-a-dia?
Passei duas semanas no hospital, e no dia em que tive alta voltei à universidade. Meus professores demonstraram preocupação, mas não me deram moleza. Tive de correr atrás de anotações e recuperar as leituras atrasadas. Entre esse trabalho e o tempo que eu tinha de dedicar à polícia, não sobrou espaço para sentir pena de mim mesmo. Isso foi uma bênção.

O senhor frequenta a igreja. Já era uma pessoa religiosa naquele tempo?
Meu pai era pastor, e eu fui criado num ambiente espiritual. Se é que alguém pode definir o que “espiritual” significa. Se quer dizer achar que a vida tem de servir a um bem maior, então sim. Mas, se significa ter respostas, então não. Veja quanto esse terreno é escorregadio: se eu acreditar que Deus intercedeu para que eu sobrevivesse ao Zodíaco, eu teria de acreditar também que Ele intercedeu para que Cecelia e as outras vítimas morressem, o que não me traz nenhum conforto. O que eu acredito é que existem duas forças em jogo no mundo, o bem e o mal, e que coisas ruins, sim, acontecem.

É melhor ou pior saber que o senhor apenas calhou de estar no lugar errado, na hora errada?
A mim, ajuda saber que alguém não me odiava tanto, pessoalmente, a ponto de me matar. Mas veja o caso de Michael Mageau, o outro sobrevivente do Zodíaco. Ele estava com uma mulher casada – que morreu – quando foi atacado. Ele tinha 19 anos, e achou que tinha saído com ela naquela noite para comer um hambúrguer, não para ter um caso. Talvez por isso ele meteu na cabeça que o Zodíaco tentara puni-lo por estar com uma mulher casada.

O senhor e Michael Mageau se falam?
O Zodíaco arruinou a vida de Michael. Depois de passar quase um ano no hospital, ele foi posto para fora de casa pelo pai, sob alegação de ter desonrado a família. A perna dele, que fora destroçada por um dos tiros, continuava a doer horrivelmente, e a pressão da situação se tornou insuportável. Michael ficou à deriva. Quinze ou vinte anos atrás, ele se envolveu em problemas legais e precisou de um defensor público. Por coincidência, eu fui o advogado designado para o caso dele. Aproveitamos para passar muita coisa a limpo.

Qual sentimento prevalece para o senhor hoje em dia – gratidão por tantas pessoas terem devotado seu tempo a encontrar o Zodíaco, ou frustração por ele nunca ter sido capturado?
Não sou uma pessoa que anseia por ajustes de contas ou por vingança. Para mim, capturar o Zodíaco significava impedi-lo de matar novamente. Há quase quatro décadas ele não mata, se é que ainda está vivo. Então, num certo sentido, tenho de me dar por satisfeito com isso. O que eu sinto, em suma, é alívio.

Que impressão o senhor formou do assassino?
Um homem metódico. Cecelia o viu se aproximando e desde o início ficou apavorada – sem razão, achava eu. Assim que ele me abordou, já encapuzado, disse que não tivéssemos medo; tudo o que ele queria eram as chaves do carro e o dinheiro. Tentei puxar conversa com ele, porque, veja só, eu estava tendo aulas de sociologia e achei que a experiência poderia ser útil para o curso. Mas ele não pronunciou nada além de instruções – ajoelhe-se, deite-se. Durante todo o ataque, ele não deu sinal de emoção ou excitação. Ele desferia as facadas de forma mecânica, como se matar fosse uma tarefa.

Qual seria a punição adequada para o Zodíaco?
Sou contra a pena de morte e não servi no Exército, quando recrutado, por objeção de consciência. Eu era contra qualquer forma de violência antes de ser atacado pelo Zodíaco, e o que ele fez comigo e com as outras vítimas não mudou minha opinião. Acredito que isolar um indivíduo como esse da sociedade é o adequado e o suficiente. Acredito, inclusive, que é preciso discriminar melhor quais indivíduos devem ser isolados. Por causa da minha profissão, vejo que, para pessoas que ainda podem ou desejam ser recuperadas, uma prisão freqüentemente tem efeito oposto ao da reabilitação: é uma escola profissionalizante do crime.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 06/06/2007
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2006

Trailer de Mindhunter

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