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Kubo e as Cordas Mágicas

Uma animação linda de morrer, que enche os olhos e parte o coração

Por mais fofos e inteligentes que sejam desenhos como Divertida Mente, Pets – A Vida Secreta dos Bichos, ou ainda o adorável Zootopia, eu andava sentindo falta de algo diferente na animação. Algo que fosse mais, e muito, e novo, que tivesse um rasgo de imaginação. Pois Kubo e as Cordas Mágicas atendeu todos os meus desejos: é escandalosamente lindo, virtuosístico, criativo e original. Mais importante ainda: sofri por Kubo, um menino muito corajoso de 11 anos, como se ele fosse meu. Ou, quem sabe, como se eu estivesse no lugar dele.

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Ainda bebê, e já cego de um olho, Kubo foi escondido pela mãe em uma caverna, no alto de uma pequena ilha. O salvamento foi o último gesto de que a magia de sua mãe foi capaz: desde então, ela vive como que perdida dentro de si mesma. Nas poucas vezes em que desperta de seu transe, ela alerta Kubo para nunca sair à noite, para que o avô dele e suas tias, feiticeiros do escuro, não o encontrem e venham roubar seu outro olho. Em outras ocasiões, conta a Kubo como o pai dele, um samurai, morreu para defendê-lo. Mas quase sempre ela sonha, apenas – e, com seus sonhos, faz pedaços de papel se dobrarem em origamis lindíssimos e ganharem vida.

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Essa é uma mágica que Kubo tem também, quando toca seu shamisen, aquele banjo japonês de três cordas. E é com ela que ele sustenta a si e à mãe: Kubo se levanta com o sol todas as manhãs e vai para a aldeia próxima se apresentar na praça. Narrando histórias fantásticas enquanto dedilha o shamisen, ele faz as dobraduras se transformarem em personagens que duelam, guerreiam, assombram e divertem a pequena plateia – que adora os espetáculos de Kubo, e o presenteia com moedas. Na noite em que os aldeões vão homenagear seus mortos, porém, Kubo não resiste, e desobedece à mãe: ele quer acender uma lanterna para seu pai, como todo mundo. É o que basta para as tias feiticeiras o encontrarem, e a saga começar.

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Kubo e as Cordas Mágicas não é uma produção japonesa. É uma criação da Laika Entertainment, um ateliê que fica no Oregon, a uma distância segura de Los Angeles e do Vale do Silício (onde está estabelecida a maior parte das produtoras de animação), e que segue diretrizes muito particulares. A Laika só trabalha com orçamentos médios, na casa dos 60 milhões de dólares, para garantir sua independência criativa – quanto mais dinheiro em jogo, maiores a interferência e a tentação de fazer concessões para chegar a um público mais amplo. Ela nunca teve um mega-sucesso de bilheteria, mas os três longas que já produziu – Coraline e o Mundo Secreto, ParaNorman e Os Boxtrolls – renderam bem e fecharam no azul.

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A Laika se dedica unicamente à stop-motion, a animação quadro a quadro com bonecos ou marionetes, e faz questão de mantê-la artesanal. Por exemplo: só um animador responde por cada cena, para não desvirtuar o processo. As pesquisas são minuciosas: os cerca de 400 artesãos, cientistas e animadores que trabalham na Laika passaram um ano e meio estudando cada detalhe dos personagens, dos objetos de cena e dos figurinos (além do folclore japonês) antes de Kubo entrar em produção. Desafios técnicos são mandatórios: faz parte da missão que a Laika se impôs avançar no aperfeiçoamento tecnológico da stop-motion. Isso pode incluir improvisar uma intrincada rede articulada com cordas de piano para sustentar as capas das feiticeiras, ou desenvolver softwares inéditos para mapear a relação entre musculatura e movimentação do tecido sobre o corpo. A Laika está à frente de todas as outras produtoras de stop-motion, ainda, no detalhe das expressões faciais: é pioneira no uso de impressoras 3D para elaborar uma quantidade muito superior e mais variada que a habitual de rostos para os personagens. Às vezes, o realismo é tal que se tem a impressão que a stop-motion foi simulada por meio de computação gráfica. A Laika não é avessa a usar recursos digitais nos retoques, e os têm empregado também em cenas de multidão. Mas seu primeiro mandamento é: tornar a stop-motion uma solução artística e tecnológica sem rival no mundo da animação.

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Kubo e as Cordas Mágicas é o quarto longa da Laika e, na minha opinião, o primeiro em que todas as ambições dela se realizam plenamente. Os três filmes anteriores tinham uma sensibilidade muito próxima à das animações de Tim Burton (como A Noiva Cadáver e Frankenweenie). Mas, agora, nessa viagem fantástica pelo Japão do século 17, a Laika conseguiu encontrar uma voz toda própria. Ela mantém a sua quedinha para os temas mais trágicos ou sombrios, mas pôs de lado as tiradas mais macabras e achou uma linguagem única, cheia de cor, volume e delicadeza, na qual exercitar suas inclinações. E uma linguagem, diga-se, sem “disneyficações”: o estranho e até o assustador são celebrados, e vistos pelo que têm de belo.

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O que leva à minha última consideração sobre Kubo e as Cordas Mágicas, mas nem de longe a menos importante: que trabalhos de voz magníficos! O menino Art Parkinson, que faz Kubo, é excelente. O besouro-samurai dublado por Matthew McConaughey é de dar vontade de pegar no colo: que coração de ouro ele tem. Gelei de medo de Ralph Fiennes, o avô feiticeiro. E estou tonta de amor por Macaca, a protetora de Kubo, que Charlize Theron consegue tornar franca, severa, ácida, espirituosa e terna – às vezes numa mesma fala. A versão original é tão boa, mas tão boa, que a distribuidora está lançando Kubo também em cópias legendadas, o que não anda muito comum por aqui. Prestigie. Vale a pena.

E, graças ao leitor Anderson Clayton Silva Ferreira, lembrei que faltou mencionar uma coisa: a lindíssima versão de Regina Spektor para While My Guitar Weeps, de George Harrison, que fecha o filme. Regina, para quem não lembra, é a autora e cantora da música de abertura de Orange Is the New Black.


Trailer


KUBO E AS CORDAS MÁGICAS
(Kubo and the Two Strings)
Estados Unidos, 2016
Direção: Travis Knight
Com as vozes de Art Parkinson, Charlize Theron, Matthew McConaughey, Rooney Mara, Ralph Fiennes, Brenda Vaccaro, George Takei
Distribuição: Universal

5 comentários em “Kubo e as Cordas Mágicas”

  1. Eu só tinha lido a chamada do blog, elogiando o filme, e fui ver. Achei tão bem feito que fiquei o tempo todo me. Perguntando se era stop motion ou não.
    Gostei muito! Foge bastante do que se tem lançado em filmes de animação. E a música no final, é um bônus a parte.

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  2. Já estava a fim de ver a animação e ao ler sua crítica corri em disparada para os sites dos cinemas do Recife porém, como era de se esperar, não há cópias legendadas.
    A última vez que vi uma animação por aqui legendada foi Inside Out!
    Acho que as empresas deveriam pensar que há um grande público adulto que dá preferencia a copias originais.

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  3. Bem, nem parece stop-motion. É portanto tão bem-feito e avançado que mais parece uma animação corriqueira como a dos grandes estúdios.

    Só acho que a língua inglesa estraga tudo na falas.

    Mesmo uma sul-africana como Charlize Theron fala com aquele inglês excessivamente descolado, arrogante e insolente que DESTOA completamente do espírito do próprio filme.

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  4. UAU! Me impressionou! Vou correndo assistir.

    (Nenhuma surpresa quanto ao Ralph Fiennes. Bem que estava achando que aquele avô feiticeiro está com cara de Voldemort…)

    Que bom saber que lá nos Steites, a casa dos 60 milhões de dólares são apenas os orçamentos médios! E isso para uma animação.

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