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Chocolate

Para um palhaço negro, a França não tem muita graça

Apresentando-se como Kananga, o Canibal em um circo mambembe que roda pelo norte da França, Rafael Padilla (Omar Sy) não vê do que reclamar: tem teto e tem comida e, de noite, a filha dos donos do circo vem em segredo esquentar sua cama. Está bem melhor do que no começo da sua vida – nascido escravo, em Cuba, nos anos 1860 –, diz ele ao palhaço George Footit (James Thierrée). Mas Footit, que está desesperadamente tentando reanimar sua carreira em declínio, insiste: eles formariam uma dupla revolucionária. Ele estava certo – rebatizados Footit e Chocolat, eles se tornaram uma das atrações mais célebres da França da virada para o século XX. Footit era o pierrô, o palhaço ágil e inteligente, e Chocolat era o “auguste”, sua contraparte tola e bronca.

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Durante quase duas décadas, Footit bateu e Chocolat apanhou – e ganhou fama e dinheiro (ambas as coisas controladas, sempre, por Footit). Em algum momento, Chocolat começou a se ressentir do papel que desempenhava no picadeiro e também na vida: visto sempre como uma criatura mais do que um homem, manipulado por Footit, maltratado sem nenhuma cerimônia pela polícia, representado por estereótipos ofensivos e ignorantes (não era incomum que o desenhassem, em cartazes, com feições de macaco) e alvo de hostilidade aberta sempre que se desviava do clichê de inferioridade. Chocolat não conseguia sequer dar nome a todas essas coisas; não havia sido inventado, ainda, um vocabulário que exprimisse a contento as atitudes raciais abusivas. E esse é um dos aspectos mais delicados e mais perspicazes do filme dirigido por Roschdy Zem: a maneira como ele evoca sentimentos para os quais Chocolat não tem palavras, mas que nem por isso lhe são menos devastadores.

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Chocolate, o filme, é o melhor tipo de recriação histórica: aquela que, sem sair das circunstâncias específicas dos seus personagens e do tempo em que se passa, serve justamente por isso como um comentário contundente sobre o presente. As atitudes abusivas hoje não são tão abertas, e quase sempre vêm disfarçadas ou veladas. Mas ainda estão firmemente enraizadas na mesma ignorância e no mesmo medo de que Chocolat foi vítima. Um negro fazendo papel de bobo alegre no palco era uma figura confortável. Mas esse mesmo homem, com roupas vistosas, esbanjando dinheiro, dirigindo um carrão com uma branca no banco do passageiro? Adivinhe se a polícia, em 1900 (ou em 2016), não iria implicar. Um outro exemplo: Omar Sy já era um comediante de muito sucesso na França quando estourou de vez em 2011 com Intocáveis. Mas, quando Sy tinha de alugar apartamento, era sua mulher, branca, quem se encarregava de conversar com os locadores – se ele fosse junto, a conversa era sempre a mesma, “sinto muito, mas já foi alugado”.

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Roschdy Zem dirige o filme com muita competência e com mão leve para esse tipo de paralelo – e, por ser o espectador quem liga os pontos, e não o diretor, a comparação só ganha mais força. Zem dirige, sobretudo, com conhecimento de causa: aos 50 anos, é diretor, roteirista e um ator respeitadíssimo e muito requisitado, com mais de setenta créditos no currículo (entre os quais O Pequeno Tenente, A Garota de Mônaco, Fora da Lei e Dias de Glória, pelo qual foi premiado em Cannes; se você olhar uma foto dele, vai reconhecê-lo no ato). Mas é também filho de marroquinos e, como descendente de imigrantes de uma ex-colônia, sabe muito bem onde ficam as infinitas barreiras que separam a Europa branca daquela de outras cores. Sabe principalmente que o sucesso não derruba essas barreiras: pode torná-las ainda mais fortes, como mostra Chocolate.

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Para terminar, só uma curiosidade: James Thierrée, que interpreta (muito bem, aliás) o palhaço Footit, é filho de Victoria, filha de Charles Chaplin e Oona O’Neill.


Trailer


CHOCOLATE
(Chocolat)
França, 2015
Direção: Roschdy Zem
Com Omar Sy, James Thierrée, Chlotilde Hesme, Frédéric Pierrot, Noémie Lvovsky, Olivier Gourmet
Distribuição: Califórnia

Uma consideração sobre “Chocolate”

  1. Sabe o que é pior?

    (ou semelhante, ou quase tão ruim?)

    No Brasil do anos 1970 a 1993, tivemos uma história de sucesso com um estereótipo mais ou menos assim.

    E NINGUÉM reclamava disso.

    Nosso grande astro, músico e comediante ganhou o apelido de Mussum, (que é um peixe preto e escorregadio), e o tempo todo fazia caretas, falava errado, gritava e arregalava os olhos.

    Os “is” foram uma criação de Chico Anysio: “Olha, crioulo, você tem três expressões para ganhar a vida: tranquilis, como di factis e não tem problemis. Esse vai ser o seu ganha pão”.

    Se lesse Nietzsche, o senhor Antônio Carlos Bernardes Gomes poderia ter dito a ele:
    “O que não me mata, me fortalece.”

    https://sites.google.com/site/sitedobg/Home/deu-na-midia/a-escrava-que-falava-frances

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