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Marguerite

Seus ouvidos vão doer, mas vale a pena suportar o sofrimento

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Mesmo que você não tenha lá um ouvido muito musical, o contraste não vai deixar dúvida: duas sopranos cantam o muito manjado mas sempre belíssimo dueto da Lakmé de Delibes, e então a dona da festa, Marguerite Dumont, entra em cena – e, aos gritos, guinchos e gargolejos, espanca a ária da Rainha da Noite em A Flauta Mágica até ela se tornar irreconhecível. A plateia já está habituada a ter os ouvidos assim maltratados. Marguerite é mais do que a surda à própria estridência: ela crê que os sons que emite são pura beleza e harmonia. Mas Marguerite é riquíssima, seu marido é barão, eles patrocinam a sociedade Amadeus na Paris dos anos 1920 e promovem eventos beneficentes em que come-se e bebe-se muitíssimo bem. Suportar os delírios vocais da anfitriã é o preço que se paga – e até ele vem com uma compensação, a de ver a autora da tortura dar vexame sem imaginar que o faz. Maravilhosamente interpretada por Catherine Frot, contudo, Marguerite é poupada do escárnio tanto pela atriz quanto pelo diretor Xavier Giannoli: embora o filme seja, sim, muito divertido, o que interessa a eles é investigar como a protagonista mantém sua inocência, e perguntar-se se a felicidade dela é menos legítima por ser tão falsa.

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O dinheiro, claro, ajuda, e muito, a preservar a ilusão, e não só por comprar o fingimento da plateia. Marguerite vive a fantasia de ser uma magnífica soprano coloratura também quando não está dando saraus. Madelbos (Denis Mpunga), seu mordomo fidelíssimo, cuida de que seu quarto esteja repleto de flores na manhã seguinte às apresentações, e ela acredita ou finge acreditar que foram todas enviadas por admiradores do seu talento. E é Madelbos também quem recruta a criadagem para fazer figuração nos tableaux-vivants em que ele zelosamente fotografa Marguerite, e nos quais ela encarna personagens de óperas célebres – com cenários e figurinos autênticos, porque, de novo, dinheiro é o que não lhe falta. O marido de Marguerite (André Marcon) não aguenta mais; a uma amante, ele confidencia que, quando olha para a mulher, só consegue ver um monstro de autoindulgência.

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Num dos saraus, porém, dois novos convidados surpreendem-se. O jornalista Lucien (Sylvain Dieuaide) e o anarquista Kyrill (Aubert Fenoy) primeiro mal podem acreditar no que estão vendo e ouvindo; depois, concluem que Marguerite é um espírito involuntariamente talhado para uma década tão irreverente – “selvagemente e sublimemente desafinada”, nas palavras de Kyrill. E, quanto mais os dois a promovem e a introduzem nos círculos da intelligentsia (sempre de olho também na generosidade com que ela dispensa sua fortuna, claro), mais Marguerite crê no seu dom. Numa apoteose de negação, ela irá afinal alugar a Ópera de Paris para um recital só seu, ao qual toda a sociedade comparece, em mais uma humilhação intolerável para o marido barão que tanto despreza sua mulher.

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Até nos figurinos e nos tableaux-vivants a história de Marguerite reproduz a de Florence Foster Jenkins (1868-1944), uma socialite americana da Pensilvânia que foi prodígio infantil do piano e cismou ser também uma soprano de timbres irrepreensíveis. Florence, na verdade, cantava que era um horror (quem gosta de sofrer pode ouvir as gravações dela disponíveis no YouTube). Largou da família por causa de seus delírios, viveu durante anos em pobreza absoluta – e, assim que os pais morreram e ela herdou a fortuna deles, lá foi ela torrar tudo na sua “carreira”. Florence ficou célebre pela falta de noção, mas de fato tinha um público, que ia aos recitais dela em busca daquele prazer maldoso que é testemunhar um desastre acontecendo. Sua última apresentação, em 1944, no Carnegie Hall de Nova York (que ela alugou com dinheiro do próprio bolso), foi tão catastrófica que atribui-se a ela a morte de Florence, algumas semanas depois.

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Conto a história de Florence não só porque ela é curiosa, mas porque ajuda a frisar um ponto importante do filme de Xavier Giannoli : mesmo enquanto era miseravelmente pobre, a americana continuou firme na sua fantasia. Não é só a fortuna de Marguerite que permite a ela se iludir, portanto. É um desejo voraz de felicidade – tão voraz que a aliena do mundo e de si mesma. Marguerite é uma alma frágil; mas talvez sejamos todos almas frágeis quando confrontados com verdades insuportáveis, sugere o filme. É tão grande a delicadeza com que Xavier Giannoli e Catherine Frot equilibram o ridículo de Marguerite com sua candura que já vou desejando boa sorte a Meryl Streep e ao diretor Stephen Frears, cuja versão da história de Florence será lançada neste ano: quero ver alguém repetir esse feito, o de fazer a plateia rir dessa personagem ao mesmo tempo em que quer protegê-la.


Trailer


MARGUERITE
(França/Bélgica/República Checa, 2015)
Direção: Xavier Giannoli
Com Catherine Frot, Denis Mpunga, Sylvain Dieuaide, Aubert Fenoy, Christa Théret, André Marcon, Michel Fau
Distribuição: Mares Filmes

5 comentários em “Marguerite”

  1. Isabel Boscov sempre perfeita. Já houve uma época onde não perdoava as imperfeições de um filme, mas ficou mais flexível e tem demonstrado mais compaixão em sua críticas. Sempre analisando minuciosamente os personagens e suas mazelas, e sempre estudando o diretor e seus contextos. Uma maravilha de crítica de cinema está Isabela Boscov…

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    1. Segundo o Wikipedia, Tableau vivant (pintura viva) é uma expressão Francesa para definir a representação por um grupo de atores ou modelos de uma obra pictórica preexistente ou inédita. O plural é tableaux vivants.

      O tableau vivant foi uma forma de entretenimento que teve origem no século XIX com o advento da fotografia, onde figurantes trajados posavam como se tratasse de uma pintura. No cinema existem exemplos de representação do tableau vivant em obras como Nightwatching ou em autores como Peter Greenaway ou Luis Buñuel, onde na obra Viridiana um grupo de mendigos representa a pintura II Cenacolo de Leonardo da Vinci.

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