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Raça

Jesse Owens, o homem que estragou a festa de Hitler, merecia mais

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É uma pena que Raça seja tão inapelavelmente quadrado e avesso à imaginação: Jesse Owens, o americano negro que cravou ouro em quatro eventos do atletismo – incluindo a estrela de todos os eventos, a corrida dos 100 metros – nas Olimpíadas de 1936, merecia bem mais. Owens não frustrou apenas a demonstração de superioridade ariana pretendida por Adolf Hitler nos Jogos de 1936, o que por si só é uma delícia que nunca perde o sabor. Até chegar lá, ele já frustrara a pretensa superioridade branca americana em inúmeras ocasiões – sem que nenhuma dessas ocasiões se provasse em qualquer coisa mais fácil do que as ocasiões anteriores.

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A ver: só dali a onze anos, em 1947, um negro – Jackie Robinson – disputaria pela primeira vez uma partida da liga principal de beisebol dos Estados Unidos. Contratado por um time da cosmopolita Nova York, o Brooklyn Dodgers, Robinson ainda assim foi alvo de escândalo, protestos e ameaças. Vinte e nove anos depois do feito de Jesse Owens, a violência correria solta na marcha liderada por Martin Luther King pela igualdade de direitos civis de Selma a Montgomery, no Alabama – o estado em que Owens, neto de escravos, nasceu, e onde aos 7 anos de idade já colhia 50 quilos de algodão por dia. Na Universidade Estadual de Ohio, pela qual ele quebrou vários recordes mundiais, Owens foi sempre tratado com desdém, e só ficou graças à teimosia do técnico Larry Snyder: não recebu bolsa de estudos, tinha de morar fora do campus, em alojamentos só para negros, e quando viajava com outros atletas da universidade não podia se hospedar nem comer em restaurantes com eles. Quando Owens retornou aos Estados Unidos com as quatro medalhas de ouro mais simbólicas da história, o presidente Franklin D. Roosevelt quebrou o protocolo: não o recebeu nem mandou congratulações – em uma atitude idêntica à do próprio Hitler, que também quebrara o protocolo, recusando-se a cumprimentar Owens depois de suas vitórias.

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A história de Owens, enfim, poderia render um filme quase expressionista na sua perversidade; fico imaginando o que um cineasta como, digamos, o holandês Paul Verhoeven faria com ela. Em vez disso, nas mãos de Stephen Hopkins (de A Sombra e a Escuridão e muitos episódios de 24 Horas e House of Lies), ela é uma repetição passo a passo da cartilha das biografias edificantes: rigorosamente linear e conciliadora, ela apresenta o rapaz talentoso (Stephan James) que é o orgulho da família, introduz o técnico (Jason Sudeikis) que o ensina a não dar bola para as manifestações toscas de ódio racial, dedica algumas passagens à namorada trabalhadora (Shanice Banton) e à sirigaita (Chantell Riley) que quer faturar o atleta de sucesso, vai para Berlim e recria com monotonia inexplicável as provas de que Owens participou e sua inesperada afinidade com a esperança do atletismo alemão, Luz Long  (David Kross, de O Leitor).

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Há uma história paralela de bastidores: como o chefe do comitê olímpico americano, William Hurt é o emblema de integridade; não quer que os Estados Unidos participem dos Jogos de Hitler. Faz-lhe oposição o milionário Avery Brundage, que tinha interesses legítimos e também escusos na participação americana e é interpretado por Jeremy Irons com a única fagulha de cinismo que se vê me cena – quase toda ela perdida na recriação amadorística de figuras como o ministro da Propaganda de Hitler, Joseph Goebbels (Barnaby Metschurat), e da cineasta Leni Riefenstahl, cujo documentário Triunfo da Vontade, de 1935, era uma peça visual sublime e de sinistra persuasão pró-nazista – façanha que ela repetiria em Olímpia, seu registro dos Jogos de 1936. Quem viu o fabuloso documentário A Maravilhosa, Horrível Vida de Leni Riefenstahl, de 1933, sabe que Leni (que foi absolvida no julgamento de crimes de guerra em Nurembergue e morreu em 2003, aos 101 anos) era um trator que em nada se parecia com a moça espontânea e às vezes até vacilante interpretada por Carice van Houten (que, ironicamente, foi a protagonista de um dos melhores filmes de Paul Verhoeven, A Espiã, sobre uma judia que se passa por ariana na II Guerra). No seu didatismo primário, Raça acaba derivando para o oposto daquilo que seu personagem representa: em vez da persistência com que Owens afrontou as possibilidades dispostas contra ele, o que se tem aqui é puro conformismo.


Trailer


RAÇA
(Race)
Canadá/Alemanha, 2016
Direção: Stephen Hopkins
Com Stephan James, Jason Sudeikis, Jeremy Irons, Eli Goree, William Hurt, Barnaby Metschurat, Carice van Houten, Shanice Banton, David Kross, Chantel Riley
Distribuição: Diamond

Uma consideração sobre “Raça”

  1. OK; hora de dar as mãos á palmatória — as mãos dos outros, é claro.

    Eu sempre achei que o único calcanhar-de-aquiles de “24 Horas” é mesmo a direção — tão frustrante que chega a ser revoltante, a ponto de dar a impressão que os FDP atrás das câmeras se recusam a filmar os terroristas sendo devidamente castigados por balas. Dá ódio do diretor. Dá vontade de matar.

    Eu sempre soube que aquele comuna safado do Franklin D. Roosevelt era tão podre quanto os colegas dele na foto, Hitler e Stalin. Essa nova revelação de mais uma podreira dele também demonstra que o pior presidente americano do século XX era tão racista quanto o palhaço de bigodinho e o anão georgiano de bigodão.

    Se eu acreditasse em justiça após a morte, diria que os 3 Patetas estão juntos no inferno como churrasquinho na laje do Al Pacino em “O Advogado do Diabo”.

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