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Quando o ator é o filme

Marion Cotillard achou sua voz em Piaf – Um Hino ao Amor

Que graça: quando Piaf (que está no Netflix) foi lançado, há nove anos, falei que era de passar à história o desempenho da “quase desconhecida” Marion Cotillard. Antes disso, eu só havia visto Marion em um papel meio insignificante em Um Bom Ano, com Russell Crowe, e achei que ela era bonita mas não estonteante, e uma atriz decente mas não especial. Foi só a personalidade de Marion despontar, porém (e como ela tem personalidade) para que todo mundo começasse a vê-la com outros olhos: essa francesa de 40 anos é uma das mulheres mais naturalmente e irredutivelmente lindas do cinema, e uma atriz de força colossal. Vai, sem perder um passo e sempre com a mesma voracidade, de Inimigos Públicos a Meia-Noite em Paris, de A Origem a Ferrugem e Osso, de Contágio a Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge, de Era Uma Vez em Nova York a Tudo por um Furo, de Dois Dias, Uma Noite a Macbeth. Quando eu crescer, quero ser Marion.

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Leia a seguir a resenha que publiquei quando Piaf chegou aos cinemas:


Possessão artística

A pouco conhecida Marion Cotillard arrebata no papel de Édith Piaf

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É o tipo de elogio que pede parcimônia, mas, no caso da quase desconhecida Marion Cotillard, pode-se dispensar a cautela: no papel-título de Piaf – Um Hino ao Amor, essa francesa de 32 anos, vista antes como a bonita mas não particularmente expressiva namorada de Russell Crowe em Um Bom Ano, atinge um desses desempenhos de passar à história. Interpretando Édith Piaf, o ícone maior da canção francesa, Marion opera uma transformação física radical. Vai da moça faminta e desbocada à matrona cheia de vontades, e além – até a mulher enrugada e fragilíssima que, no final da carreira, mal conseguia se pôr de pé sozinha. (Piaf morreu em 1963, aos 47 anos, com a aparência de uma octogenária, em razão de câncer, reumatismo, muita morfina e doses ainda mais letais de infelicidade.) Mais impressionante ainda do que a maneira como a atriz submete seu corpo a esse declínio ruinoso, porém, é a total ausência de reservas com que ela submerge na personalidade da cantora. Não há, aqui, sinal da vaidade e do histrionismo que se percebem até nas melhores interpretações de figuras reais e célebres, do ator que saboreia sua competência. Marion está em cena em quase todos os 140 minutos do filme, e em todos eles está completamente dentro do momento.

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Piaf se propõe revisitar sua personagem não pelo prisma do mito, mas pelo da intimidade. Não foi só com a voz rouca e possante que “La Môme Piaf” (ou “O Pequeno Pardal”, como era chamada no início), transformou a chanson. Foi sobretudo com suas interpretações inimitáveis, alimentadas por desgraças e paixões pessoais. Filha de uma italiana que ainda nem saíra da adolescência, mas já entrara no alcoolismo, e de um artista circense francês, Édith foi criada em parte no bordel de sua avó paterna e em parte nas ruas; quase ficou cega quando criança; repetiu a história materna de gravidez precoce e de embriaguez, e perdeu a filha para uma meningite; foi uma jovem paupérrima e dissoluta; enfrentou a morte de sua grande paixão, o boxeador Marcel Cerdan, quando esta mal se iniciara; e, não fosse a entrada providencial em sua vida de algumas pessoas afetuosas e determinadas a suportar seus rompantes, é provável que nunca tivesse saído dos cabarés mais miseráveis de Paris. O diretor Olivier Dahan, contudo, partilha da visão de sua protagonista de que o talento extraordinário é, em si, uma espécie de destino. Pode não ser capaz de anular os outros destinos que a pessoa traçou para si, mas é forte o suficiente para guerrear com eles e, ocasionalmente, sobrepujá-los.

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Marion é a peça-chave para que essa abstração ganhe uma forma concreta. Impecável na expressão corporal e na dublagem de canções célebres como L’Hymne à l’Amour e La Vie en Rose, ela chega magistral à última cena, na qual Piaf concentra toda a energia que lhe resta na interpretação de Non, Je Ne Regrette Rien – ou “Não, Não Me Arrependo de Nada”, que não por força de expressão é a sua canção-testamento, e uma das últimas que ela gravou. A essa altura, há tempo o espectador deixou de divisar uma atriz sob a personagem, e ver tanta voz e inspiração saindo de uma figura tão destruída é verdadeiramente testemunhar um triunfo.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 17/10/2007
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2007

PIAF – UM HINO AO AMOR
(La Môme)
França/ Inglaterra/República Checa, 2007
Direção: Olivier Dahan
Com Marion Cotillard, Sylvie Testud, Gérard Depardieu, Emmanuelle Seigner, Jean-Paul Rouve, Pascal Greggory, Jean-Pierre Martins

Uma consideração sobre “Quando o ator é o filme”

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