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O Décimo Homem

Primeiro a contragosto, e depois com prazer, um filho segue os passos do pai

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Estou atrasada com esta resenha do novo filme do diretor argentino Daniel Burman, mas não queria deixar de publicá-la – até porque sempre achei Burman um pouco pernóstico e nenhum dos filmes anteriores dele, mesmo os mais elogiados, como O Abraço Partido, me conquistou. O Décimo Homem, porém, aos poucos foi me ganhando, e no final me deixou comovida. Entre as muitas razões pelas quais me rendi a Burman desta vez, aqui vai uma meio desconcertante, meio encantadora: quando a gente é jovem e alguém vaticina que em um ponto qualquer da vida vamos começar a ficar parecidos com nossos pais, a gente costuma reagir com pavor e indignação, e quer tapar os ouvidos e sair correndo na direção oposta. Mas, umas tantas décadas depois, mais escolados para compreender as qualidades dos pais (quando eles as têm; infelizmente, não se trata de uma regra), percebemos que descender deles também em caráter ou atitude pode ser um bocado lisonjeiro, desejável e correto. Mais: pode-se sentir que certos aspectos dessa continuidade são decididamente necessários.

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Essa, em linhas gerais, é a jornada de Ariel (Alan Sabbagh), que passou a infância e a adolescência roendo-se de ciúme do envolvimento ferrenho de seu pai, Usher (Usher Barilka) com as atividades de um centro comunitário do bairro judeu do Once, em Buenos Aires. Ariel sempre se sentiu um coadjuvante nos afetos do pai: a qualquer chamado do centro ou da sinagoga, lá se ia Usher de pronto, deixando o filho para trás. De mal com o pai e com a comunidade, Ariel se mandou para Nova York ainda jovem. Agora, quarentão ou quase, ele retorna ao Once para uma visita. Está noivo, e quer apresentar a noiva para Usher. A noiva não vai: enroscou-se com o trabalho. E, antes mesmo de Ariel entrar no avião, Usher já deu um jeito de lhe arrumar tarefas no centro.

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Durante vários dias, Ariel não conseguirá encontrar-se com Usher pessoalmente: por celular, o pai despeja mais e mais incumbências sobre ele, obrigando-o a frequentar a agitação do centro comunitário e a rodar o Once para lá e para cá, resolvendo problemas. Quase sempre, Ariel tem a companhia de Eva (Julieta Zylberberg, a garçonete do segundo episódio de Relatos Selvagens), uma jovem que por algum motivo pessoal adotou um regime de silêncio absoluto. Eva não diz uma palavra; Ariel fala com ela o tempo todo, em uma espécie de psicanálise informal que vai render excelentes frutos para ambos. E, à medida que os dias vão passando, sente-se que Ariel está cada vez mais confortável no papel de sucessor de Usher como “rei do Once” – o título original do filme.

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Desta vez, porém, prefiro o título internacional, que se refere ao minyam, ou o quórum de dez homens exigido no judaísmo para certos rituais religiosos. O minyam é simbólico; seus dez integrantes representam a presença da totalidade da comunidade de Israel em um momento importante da vida – um funeral, um casamento, uma oração coletiva. Mas, no filme de Daniel Burman, ele ganha um sentido que vai muito além do litúrgico. Quando finalmente se propõe a ser o décimo homem em um minyam que está desfalcado, Ariel aceita a ideia de que nenhum círculo está completo enquanto houver, à margem dele, alguém que deseje ou necessite ser acolhido. É um filme leve, divertido – e bem bonito.


Trailer


O DÉCIMO HOMEM
(El Rey del Once)
Argentina, 2016
Direção: Daniel Burman
Com Alan Sabbagh, Julieta Zylbererg, Usher Barilka, Uriel Rubin, Elvira Onetto, Adrián Stoppelman
Distribuição: Paris Filmes

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