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A Assassina

Não entendi muita coisa, mas achei deslumbrante

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O diretor taiwanês Hsiao-Hsien Hou estava havia oito anos, desde A Viagem do Balão Vermelho, sem lançar um filme. Consta que todo esse tempo foi consumido na preparação do hipnótico A Assassina: prepare-se para entender pouco (ou às vezes nada) do enredo além do básico, e também para não ligar a mínima para isso, já que provavelmente você vai estar ocupado demais embasbacando-se com a reconstituição algo fantástica, como que de sonho, da China do século IX. Hou é fascinado pelas lendas do período da dinastia Tang, e esta é uma releitura pessoal de uma delas: aos 10 anos, a aristocrata Yinniang (Shu Qi, trabalhando pela terceira vez com o diretor) é entregue a uma monja, que a treina nas artes marciais e faz dela uma exímia assassina, usada para aniquilar líderes regionais corruptos ou que ameacem o poder do império. Yinniang ultrapassou sua mestra em habilidades, mas não em frieza. Quando a monja ordena que ela elimine Tian (Chang Chen, outro ator habitual de Hou), o senhor da província de Weibo, que um dia fora prometido de Yinniang, ela hesita.

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O cinema chinês muito frequentemente se volta para o passado histórico, mas a fidelidade dos detalhes, aqui, é notável. A Assassina pode ser também descrito como um filme de wuxia – de artes marciais –, mas as lutas não se parecem em nada com as de O Tigre e o Dragão, por exemplo: são repentinas, curtas, brutais e dispensam os efeitos especiais costumeiros. São feitas na raça mesmo. Combine-se a tudo isso o apuro visual sem comparação de Hou (se você conhece algo das gravuras tradicionais chinesas, repare, como ele reproduz a linguagem delas em imagens de dar tontura de tão bonitas), e tem-se um híbrido difícil de decifrar, mas magnífico de ver.

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Mesmo quem tem bastante familiaridade com o cinema chinês feito a partir da chamada “Quinta Geração”, a de cineastas como Zhang Yimou e Chen Kaige, que estourou a partir da década de 80 (e da qual Hou é contemporâneo), vai boiar um bocado aqui. A Assassina é repleto de elipses de tempo e de sentido que, imagino, devem ser bem mais facilmente preenchidas por quem tem algum conhecimento das histórias tradicionais e da maneira como Hou talvez as relacione com o presente. A dinastia Tang, que foi do começo do século VII ao começo do século X, foi um período de grande refinamento cultural, expansão territorial e produção de riqueza na China, mas, na fase retratada aqui, estava declinando em razão de intensa disputa política e desagregação governamental. É possível, ou até provável, que Hou esteja fazendo uma parábola com a China de hoje. Outro aspecto intrigante (e não muito comum no cinema chinês) é que aqui são as personagens femininas que dão as cartas: a assassina, a monja e a mulher de Tian. Na dúvida, tente não se fixar demais na trama: olhe, sature-se com a beleza e você vai entender por que Hou saiu do Festival de Cannes com o prêmio de direção.


Trailer


A ASSASSINA
(The Assassin/Nie Yinniang)
Taiwan/Hong Kong/China/França, 2015
Direção: Hsiao-Hsien Hou
Com Shu Qi, Chang Chen, Sheu Fang-Yi, Zhou Yun, Tsumabuki Satoshi, Juan Ching-Tian, Hsieh Hsin-Ying
Distribuição: Imovision

2 comentários em “A Assassina”

  1. Bem, imagino que as elipses de tempo e de sentido aqui se encaixem naquela proposta tão cara ao cinema chinês (e também do japonês) de oferecer múltiplas interpretações de uma mesma estória, ou diversas perspectivas a partir de cada personagem. É essa faceta de sabedoria e narrativa surpreendente que torna o cinema oriental o mais fascinante e intrigante do mundo.

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  2. Hã, mestra Boscov, sei que as chances de você me atender nesse pedido são quase zero (ou zero mesmo) mas só por desencargo de consciência, eu lhe faço essa sugestão de Garimpo da Semana (ou mesmo de criação espontânea num texto inédito):

    ALEXANDRIA

    (Ágora, EUA / Espanha, 2009)

    https://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%81gora_(filme)#Recep.C3.A7.C3.A3o

    Eu já escrevi um artigo sobre tudo o que já se sabia sobre a personagem tema do filme (não é sobre o filme; esse meu texto ilustrado com imagens do filme não é uma crítica cinematográfica, e nem chega a ser um trabalho jornalístico) — portanto, sinta-se livre e fique á vontade para dar uma olhada nessa página e pegar tudo o que quiser como fonte de pesquisa:

    http://americanofilosim.blogspot.com.br/2015/12/hipacia-de-alexandria.html

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