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De Amor e Trevas

Natalie Portman retorna a Jerusalém em sua estreia na direção

Posso pensar em pelo menos uma meia dúzia de motivos pelos quais Natalie Portman decidiu fazer sua estreia na direção com uma proposta tão ambiciosa quanto a de adaptar o livro de memórias De Amor e Trevas, do israelense Amos Oz.

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Primeiro, justamente por isso, por ser uma proposta ambiciosa; Natalie é uma das estrelas mais estudiosas, engajadas, informadas e mais afeitas a desafios intelectuais que já surgiram no cinema americano, e seria improvável que ela se interessasse por uma provocação menor do que roteirizar, dirigir e protagonizar, em hebraico, uma obra do maior escritor vivo de Israel. Ainda mais esta obra, na qual ele entrelaça sua vida à de Israel. Amos Oz nasceu em Jerusalém, em 1939, quando o Estado de Israel ainda não havia sido criado (isso só aconteceria em 1948) e a Palestina era território sob mandato britânico. Seu pai, Arieh (no filme, interpretado por Gilad Kahana), vinha da Lituânia, e era professor e escritor frustrado. Sua mãe, Fania (a própria Natalie), vinha do que é hoje a Ucrânia, e era uma sonhadora, em vários sentidos – inclusive no de ter imaginado que estava chegando à terra do leite e mel, na qual um espaço se abriria para os judeus criarem uma pátria e onde todos, árabes e judeus, viveriam em paz. Nada no caminho da própria Fania e no de Israel foi como ela imaginou. E, à medida que seus sonhos pessoais e políticos se iam distorcendo, Fania foi definhando – mas não sem antes ter legado ao pequeno Amos (Amir Tessler) sua paixão por imaginar e contar histórias, e também sua convicção acerca da coexistência entre um Estado judeu e um Estado palestino, uma proposição que Amos Oz tem defendido aguerridamente durante toda a sua longa carreira.

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Há muito na história de Amos Oz que deve falar de perto a Natalie – que nasceu em Jerusalém, de pai israelense e mãe americana, e mudou-se com a família para os Estados Unidos aos três anos. Não se trata só da sensação de pertencer a dois mundos: há uma ligação bem mais específica no fato de um desses mundos ser um ideal que prossegue sempre, mas sem nunca se realizar como o imaginado, e que exige muito mais envolvimento, reflexão e tomada de posição do que é habitual na vida dos cidadãos. De Amor e Trevas não tem voos estilísticos, mas é extremamente afinado com esse sentimento que Amos Oz evoca, de um presente que só não se desfaz por estar tão ancorado no passado e em uma visão para o futuro.

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E é também um filme muito sólido na maneira como tece sua teia, fundindo o que de há mais íntimo na vida de um menino – o refúgio que ele e a mãe constituem um para o outro – com o destino que essa mãe sem saber está traçando para o filho, e com o destino do próprio país que ela quis ajudar a fundar. Como atriz, além disso, Natalie é mestre na melancolia, e a Fania do livro e do filme é toda ela um estudo da melancolia: atriz e personagem são soberbamente talhadas para dar forma a essa ideia tão persistente na cultura judaica, de que a história e a memória são a única pátria verdadeiramente indevassável.

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Suponho também que outra mudança recente de Natalie possa ter encorajado seu desejo de adaptar De Amor e Trevas, ou ao menos influído no tom que o filme adquiriu. Há dois ou três anos, ela foi viver em Paris com o marido, Benjamin Millepied, que virou diretor do Balé da Ópera da cidade, e é impossível que o clima de antagonismo que fermenta na França não lhe tenha afetado. Natalie cresceu em Nova York, que tem uma das comunidades judaicas mais vibrantes do mundo; em contraste, um grande número de judeus já vinha deixando a França mesmo antes do atentado à redação do Charlie Hebdo, em janeiro de 2015 (quando De Amor e Trevas estava sendo finalizado) e dos atentados de novembro passado, por se sentirem inseguros diante da radicalização de parte da população muçulmana do país. De certa forma, a equação que Fania quis solucionar só fica mais complicada, e é como se tudo aquilo de que ela fugiu ao deixar o Leste Europeu rumo à Palestina a estivesse perseguindo ainda hoje. O que, em si, já seria razão mais do que suficiente para enfrentar o desafio de De Amor e Trevas.


Trailer


DE AMOR E TREVAS
(A Tale of Love and Darkness)
Israel, 2015
Direção: Natalie Portman
Com Natalie Portman, Gilad Kahana, Ariel Tessler, Makram Khoury, Shira Haas
Distribuição: Fenix Filmes

Uma consideração sobre “De Amor e Trevas”

  1. Isabela Boscow é a mais persuasiva crítica cinematográfica do país. A cada artigo elogioso seu, a vontade do leitor é sair correndo e entrar no primeiro cinema para assistir ao filme indicado.

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