Divulgação

Relatos Selvagens – Se você ainda não viu, não perca tempo

O problema do argentino Relatos Selvagens: decidir qual dos seis episódios do filme é o melhor

Filmes em episódios quase sempre terminam em um balanço ruim – em geral, 70% dispensáveis, 20% razoáveis, 10% bons. Meus cumprimentos, então, ao diretor argentino Damián Szifrón por inverter completamente essa média estatística: da história curta e sensacional que abre Relatos Selvagens (na programação da TV a cabo) até o enredo apoteótico que o encerra, Szifrón consegue explorar de forma concisa, muito incisiva e sempre tremendamente original vários aspectos da raiva, da covardia, do descontrole e da violência que acometem as interações sociais cotidianas. O segredo dele: apesar dos personagens de cada trama e as situações que eles vivem serem tão diferentes entre si, o foco no tema central é fechadíssimo. Ou seja, Relatos Selvagens não é uma mera coletânea; é como um caleidoscópio que você vai girando.

Leia a seguir a resenha que publiquei na Veja quando o filme chegou aos cinemas, e também uma mini-entrevista com Ricardo Darín, o protagonista do episódio Bombita.


Temporada de caça

Em seis episódios imprevisíveis, perversamente divertidos e moralmente desafiadores, Relatos Selvagens é mais uma prova da exuberância criativa do cinema argentino

relatos_mat1

Mal o avião decola e o tigrão (Darío Grandinetti) já está dando em cima da moça (Maria Marull) ao seu lado. Papo vai, papo vem, descobrem que têm um conhecido em comum. Eis que a senhora da fileira de trás se levanta e diz: “Mas que coincidência, eu também o conheço” – e o rapaz sentado mais adiante diz: “Que coisa, fui colega de escola dele”. Parece inocente? Pois logo o espectador de Relatos Selvagens vai se dar conta de que o inacreditável está acontecendo. E isso é só o começo: nos cinco episódios que se seguem, o diretor argentino Damián Szifrón vai confrontá-lo com igual número de explosões – às vezes, implosões – de indignação, rancor, ódio, cansaço, todas narradas com infalíveis exuberância e coesão narrativas. E todas elas, também, deflagradas por eventos casuais.

Divulgação

Pela ordem: no segundo episódio, a garçonete (Julieta Zylberberg) de um restaurante de beira de estrada treme ao reconhecer o único freguês a cruzar as portas naquela noite de chuva – é o agiota que levou seu pai ao suicídio. “Ora, faça alguma coisa a esse respeito”, diz a cozinheira mal-encarada (Rita Cortese). No terceiro episódio, o homem bem-vestido (Leonardo Sbaraglia) vai feliz da vida dirigindo seu Audi pela estrada vazia quando topa com um carro caindo aos pedaços à sua frente, indo bem devagar. Dá sinal de luz, e nada. Tenta podá-lo pela direita, e o motorista (Walter Donado) o fecha. Vai para a esquerda, outra fechada. Quando consegue ultrapassá-lo, xinga-o de “caipira” e “ressentido”. No episódio seguinte, um engenheiro (Ricardo Darín) tem o carro guinchado enquanto, apressado, pega na confeitaria o bolo de aniversário da filha. No pátio da prefeitura, é tratado com aquela indiferença, prepotência e burrice típicas da burocracia. E, na mesma semana, tem o carro equivocadamente guinchado outra vez. Na próxima história, um rapaz rico acorda os pais aos prantos: atropelou uma grávida e fugiu. No desespero de pro­te­gê-lo das consequências, o pai (Oscar Martínez) olha pela janela e vê a luz: o caseiro humilde (Germán de Silva) que há quinze anos trabalha para ele. Finalmente, durante sua animadíssima festa de casamento, a noiva (Erica Rivas) percebe que é muito sugestiva a linguagem corporal que o noivo (Diego Gentile) adquire quando conversa com uma certa colega de trabalho. Com gana, sanha e humor negro como piche, Szifrón põe seus personagens em situações corriqueiras e então os conduz até paroxismos de fúria, violência, vingança e descontrole: já não se sabe mais quem é presa e quem é predador, se um dia alguém teve razão e como a perdeu. Melhor ainda: narrador voluptuoso e sem freios, Szifrón faz o raríssimo filme em episódios em que cada um deles é excelente, e alguns, se destoam, é porque são sensacionais.

Divulgação

Tome-se Pasternak, o do avião, tão breve e perverso que mal dá tempo de assimilar o que se está vendo, ou O Mais Forte, o dos motoristas que se transformam nos ensandecidos Tom e Jerry da luta de classes: com menos ideias do que isso já se fizeram bons filmes de duas horas inteiras. Szifrón, porém, não economiza para o futuro. Ratazanas, o da garçonete e da cozinheira que discutem que destino dar ao agiota, renderia fácil uma série de TV. Bombita, o do engenheiro, e A Proposta, o do atropelamento, são contos morais tão complexos que é notável caberem em uma minutagem assim enxuta. E, com Até que a Morte Nos Separe, o cineasta retoma o registro delirante com que abriu o filme, convidando o espectador para uma festa de casamento dos infernos. Produzido por Pedro Almodóvar e seu irmão Agustín, dirigido com grande senso de estilo visual e eximiamente fotografado por Javier Julia, Relatos Selvagens se destaca, contudo, é por aquele outro fundamento que custa pouco dinheiro mas imenso esforço: os roteiros, destilados até o ponto da saturação máxima de humor, crueldade, cinismo e, por que não, pragmatismo. Não é preciso muito para o ser humano virar bicho, observa Szifrón. Ele próprio é uma fera.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 22/10/2014
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2014

RELATOS SELVAGENS
(Relatos Salvajes)
Argentina/Espanha, 2014
Direção: Damián Szifrón
Com Ricardo Darín, Leonardo Sbaraglia, Walter Donado, Rita Cortese, Julieta Zylberberg, Oscar Martínez, Germán de Silva, Erica Rivas, Diogo Gentile, Darío Grandinetti


Entrevista

darin
Ricardo Darín

Um excepcional homem comum

Não é acaso que Ricardo Darín, o mais popular e requisitado ator argentino, protagonize o episódio Bombita, que causa identificação imediata com a plateia – mas não com seu próprio intérprete.

De todos os personagens do filme, o seu, o homem torturado pela burocracia, é o que está mais claramente no lugar do espectador comum.

Sim, porque é olhar para ele e já nos vemos em mil situações semelhantes pelas quais passamos: enlouquecendo numa repartição pública, discutindo no banco, perdendo horas numa fila e tentando fazer valer nossos direitos. Simon tem uma empatia e uma representatividade com o público que talvez nem mereça.

Por que não? Ele tem razão mas ninguém o ouve. O senhor não se imagina perdendo as estribeiras, como ele?

É claro que me imagino mandando repartições pelos ares. Mas até na minha imaginação essa ideia me faz mal e me repugna. Eu perderia toda a razão: quem come um canibal não tem o direito de criticar a dieta dele, certo? E o fato é que ele pelo menos tem um guichê no qual reclamar. Já a população que vive na pobreza e no atraso não só não tem a quem se queixar, como é constantemente humilhada e atropelada.

Celebridades estão acostumadas a ser mimadas. Como não ser uma estrela nessas circunstâncias?

Não sendo, ora. Imagino que uma estrela olha no espelho e vê, sei lá, uma espécie de resplendor. Comigo não acontece nada disso.

4 comentários em “Relatos Selvagens – Se você ainda não viu, não perca tempo”

  1. Como é bom reler essa crítica sobre um dos meus filmes preferidos de todos os tempos. Isabela, caso possa, gostaria de reler a crítica de outro filme incrível: A vida dos outros.
    Você é uma danada moça.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s