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A Senhora da Van

Do limão, uma boa limonada

O dramaturgo Alan Bennett era uma dessas pessoas que, por mais que queiram, nunca conseguem dizer “não”, e que às vezes vão ainda mais longe na sua vontade de acomodar todo mundo e fazem o exato oposto do que gostariam de fazer. Segundo o próprio Bennett, foi assim, por causa do seu medo patológico de conflitos de qualquer natureza, que ele certo dia abriu a boca e, para sua surpresa, dela saiu um convite à geniosa srta. Shepherd – a sem-teto local de seu bairro na zona Norte de Londres – para que estacionasse sua van na entrada de garagem dele e ficasse por algumas semanas, até achar lugar mais conveniente. A srta. Shepherd ficou quinze anos. Saiu de lá para o além. E a van, essa teve de ser rebocada. Não houve dia em que Bennett não se arrependesse de ter feito o convite. Mas, da convivência composta de pequenas e frequentes torturas e de um bocado de autoconhecimento forçado, ele tirou uma peça de enorme sucesso. Que, em sua montagem original, de 1999, teve Maggie Smith como a impossível srta. Shepherd – e é Maggie quem de novo faz o papel nesta adaptação para o cinema roteirizada pelo próprio Bennett e dirigida por Nicholas Hytner, que dirigiu também a peça (o crédito mais famoso de Hytner no cinema é As Loucuras do Rei George, também roteirizado por Bennett a partir de uma peça de sua autoria). Ou seja, aqui todo mundo sabe o que está fazendo pelo direito e pelo avesso.

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A srta. Shepherd era uma figura – tão temperamental, imperiosa e cheia de tiradas cortantes quanto a Lady Violet que Maggie Smith fez em Downton Abbey, porém vestida em trapos, constantemente envolta em um cheirinho desagradável (morar numa van velha e imunda não é propício à higiene, claro) e com um pouquinho menos de senso de realidade (a srta. Shepherd acreditava conversar regularmente com a Virgem Maria, sobre os assuntos mais importantes e também os mais triviais). Maggie tira o personagem de letra; mas a ótima surpresa do filme é o ator Alex Jennings, não muito conhecido fora da Inglaterra, que interpreta Alan Bennett com um misto soberbamente bem dosado de covardia involuntária, empatia genuína e humor sequíssimo. O dramaturgo tem a mania de conversar consigo mesmo – ou, melhor dizendo, com um duplo seu, bem mais arrojado, que expõe e ridiculariza todos os seus defeitos de caráter. Com um ator menos meticuloso e matizado, o recurso poderia ficar um bocado cansativo. Mas Alex Jennings, ao contrário, transforma essas cenas em uma das delícias do filme. E faz render muito também um tema secundário: como figura materna, a srta. Shepherd foi libertadora para Bennett – brigar com sua mãe certinha, limpinha e gentil (mas dominadora) era uma impossibilidade para ele; mas brigar com a irascível srta. Shepherd, e reduzi-la à sua verdadeira estatura, com o tempo se tornou bem mais fácil.

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Mas talvez o aspecto mais interessante de A Senhora da Van seja a oportunidade de observar uma Inglaterra que desapareceu, embora pertença ao passado próximo (a história vai do início da década de 70 até meados dos anos 80): um país cheio de leis bizantinas de proteção social, no qual Alan Bennett, aturdido, é informado que por ter deixado a srta. Shepherd usar o banheiro algumas vezes ela pode alegar direitos de ocupação sobre sua casa. Não é à toa que a vizinhança toda suava frio quando via a van amarela chegando perto do seu meio-fio.


Trailer


A SENHORA DA VAN
(The Lady in the Van)
Inglaterra, 2015
Direção: Nicholas Hytner
Com Maggie Smith, Alex Jennings, Roger Allam, Jim Broadbent, Gwen Taylor, Frances de la Tour
Distribuição: Sony Pictures

2 comentários em “A Senhora da Van”

  1. Assistir o filme onde Maggie brilha sem esforço é como voltar no tempo e programar o evento de ir ao cinema que era na década de 70. O melhor é ver como assistir um filme inglês é o mesmo que saborear o doce que VC mais gosta. A senhora da van é irresistível .

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