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O garimpo da semana: Jovens Adultos

Charlize, a destemida

Não é que seja preciso ter pena de Charlize Theron, claro: essa bandida é linda (linda? bota linda nisso), é inteligente, é ótima atriz, tem senso de humor, estraçalha no tapete vermelho e, imagino, está rica da silva. Mas a justiça tem de servir também aos muito afortunados, e Charlize merecia ter sido indicada ao Oscar por Mad Max: Estrada da Fúria. Para compensar a falha, veja-a fazendo – com absoluta convicção, sem se poupar em nada – uma personagem egocêntrica, fútil e narcisista, mas fascinante, neste filme escrito por Diablo Cody e dirigido por Jason Reitman (a mesma dupla de Juno). Tem no Netflix e em DVD.

Leia a seguir a resenha que escrevi na revista Veja quando o filme foi lançado no Brasil.


Narciso contrariado

Em Jovens Adultos, o diretor Jason Reitman e a roteirista Diablo Cody indiciam a autofixação da sua geração

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Em 2008, o diretor Jason Reitman e a roteirista Diablo Cody criaram um dos raros fenômenos espontâneos do cinema recente com Juno, a história de uma adolescente que, descobrindo-se grávida, tem de crescer às pressas – em alguns aspectos de sua vida emocional, ao menos. Já em Jovens Adultos, eles renovam a parceria com uma inversão de prisma: o que se passa com esta geração (que é também a deles próprios) que, entrada nos 20, nos 30 ou até nos 40 anos, insiste em se manter infantil nas expectativas, julgamentos, comportamentos e relacionamentos?

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Mavis, a protagonista, é uma resposta concentrada a essa questão. Aos 30 e tantos, ela é ghost writer de uma série de livros para adolescentes que já foi um sucesso, mas não é mais tanto. Todas as aspirações de Mavis são assim, mais ou menos preenchidas. Ela tem uma carreira, o que é mais do que se pode dizer das pessoas que ela deixou para trás na pequena cidade de Mercury, em Minnesota. Mas não é aquela carreira, verdade. Tem um apartamento metido a besta na cidade grande – ainda que os acabamentos estejam começando a mostrar a má qualidade e a metrópole seja Minneapolis, não Nova York. Tem vínculos: com um cachorro no qual ela faz festinha sempre que não esquece de dar a ele água e comida. Continua lindíssima – é interpretada por Charlize Theron, com verve e destemor. Mas bebe demais, e passa o dia vendo reality shows vagabundos. Mavis é contrariada, egoísta, egocêntrica, narcisista, vã e vaidosa, porque se acha incrivelmente especial mas acha também que a vida não fez jus a tanta especialidade. Quando recebe um e-mail de um ex-namorado anunciando o nascimento de sua primeira filha, Mavis pira: enfia-se no carro e dispara de volta para Mercury, para recuperar o sujeito que, ela acabou de decidir, sempre foi o certo para ela. E às favas com a mulher e a filha dele: é impossível, julga Mavis, que ele esteja feliz com isso – ou seja, mulher e filha.

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Em Mercury, onde Mavis encontra o ex-namorado, Buddy (Patrick Wilson), a mulher dele, que ela acha insignificante por princípio, e Matt (o magnífico Patton Oswalt), o nerd meio balofo e com dificuldade de locomoção para o qual ela nunca olhou na escola, mas que dá bola para ela quando ela chega, o roteiro fornece a ela oportunidades infinitas, que ela nunca perde, de mostrar quanto pode ser cruel e superficial. Até o final, e incluindo-se o final na conta, Mavis será incapaz de entender que uma vida sem notoriedade, drama ou verniz, uma vida que se tenha de compartilhar com os outros e na qual não se seja sempre o centro da atenção, pode ser uma vida desejável. Reitman e Diablo são implacáveis com sua personagem, mas são também inteligentes, cheios de humor e exímios arquitetos de personagens. Ao contrário de Juno, porém, Jovens Adultos passou bem longe de ser um sucesso. Narciso, pelo jeito, não gostou do que viu no espelho.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 11/04/2012
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2012

JOVENS ADULTOS
(Young Adult)
Estados Unidos, 2011
Direção: Jason Reitman
Com Charlize Theron, Patton Oswalt, Patrick Wilson, Elisabeth Reaser, Mary Beth Hurt

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