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A Ovelha Negra e O Lobo do Deserto

Outros mundos, a uma sessão de cinema de distância

Outro dia eu estava vendo um policial islandês – Jar City, do Baltasar Kormakur (de Sobrevivente e Everest), que achei na seção de descontos do NOW – e, a certa altura, o protagonista passa no drive-thru de uma lanchonete. “O de sempre?”, pergunta a moça do caixa. “Sim”, diz o sujeito, e pega… uma cabeça de ovelha cozida. Inteira, com uma mandíbula sorridente e de um cinza-escuro repelente, a qual ele ataca, em casa, com apetite notável. Seria algo simbólico? Não, não era: em outra cena, passada em um bufê de almoço, lá estavam as cabeças de ovelha, todas bem cinzas, enfileiradas no balcão. De onde depreendi que os islandeses amam tanto as suas ovelhas que gostam até de olhar nos olhos delas enquanto as almoçam.

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Adoro, no cinema, esse lado antropológico, essa chance de espiar outras vidas. Por exemplo: dias depois de assistir a Jar City, quando fui ver o fabuloso filme islandês A Ovelha Negra, que está em cartaz agora, o amor do personagem principal pelo seu rebanho tomou outro sentido para mim. Gummi (Sigurdur Sigurjonsson), um solteirão dos seus 60 anos, vive num vale quase despovoado da Islândia; as poucas pessoas que moram ali vivem de criar carneiros. Gummi sabe o nome de cada uma das suas ovelhas, conversa com elas, faz carinhos nelas como se fossem suas filhas. Na fazenda contígua à de Gummi mora Kiddi (Theodor Juliusson), irmão dele, também sessentão e solteirão, também apaixonado por seu rebanho.

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Gummi e Kiddi não se falam há quarenta anos, por razões que nunca serão muito bem explicadas. Quanto têm de se comunicar, botam um bilhete na boca do cão pastor e o mandam entregar ao outro. No momento em que a história se passa (os reflexos da crise financeira que quase arrasou a Islândia em 2008 estão no ar), surge mais um motivo para a inimizade entre eles: um carneiro de Kiddi ganha o concurso em que Gummi tradicionalmente é vitorioso. Gummi, inconformado, vai examinar em segredo o animal premiado – e faz uma denúncia: o carneiro está com scrapie (que é como se chama a forma ovina da “doença da vaca louca”, a encefalopatia espongiforme). Se for verdade, todos os rebanhos da região terão de ser sacrificados, e linhagens únicas de carneiros serão extintas. Gummi e Kiddi entram numa espiral de antagonismo que os levará em rumos completamente inesperados para a plateia. A direção de Grimur Hakonarson é maravilhosa – e o final do filme, uma das mais lindas reinvenções do mito de Caim e Abel que seria possível imaginar. Do começo ao fim, porém, uma das qualidade determinantes do filme é essa, a de estar tão enraizado no lugar em que se passa.


O mesmo se pode dizer do jordaniano O Lobo do Deserto, que concorre ao Oscar de produção estrangeira e também já está em cartaz. O protagonista é o garoto Theeb (“lobo”, em árabe), o filho raspa-de-tacho do sheik de uma tribo de beduínos na época da I Guerra Mundial. O pai de Theeb morreu, e ele é ligadíssimo no seu irmão do meio, Hussein, que tem lá pelos seus 20 anos. A tribo existe da mesma maneira que há centenas de anos; é quase que uma vida sem tempo. Mas, repentinamente, Theeb vai descobrir onde e quando está – e quem é.

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Um oficial inglês e seu guia, um beduíno de outro clã, pedem ajuda para chegar a um poço que fica a alguns dias de trilha dali. Hussein vai levá-los. Mas, como Theeb não desgruda nunca de Hussein, ele foge para se juntar ao trio. A trilha é perigosa, frequentada por bandidos. E, embora o caminho deles nunca cruze com o de mais ninguém, há movimentações importantes ocorrendo por ali – a Revolta Árabe de 1916-1918, em que várias tribos se uniram para combater os turcos e pôr fim ao domínio do Império Otomano na região (aliás, a história que é contada em Lawrence da Arábia).

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É evidente que, a certa altura, Theeb terá de se confrontar com desafios imensos. Não vou estragar a surpresa e dizer quais são – mas eles incluem uma convivência estreita com um inimigo imperdoável. As paisagens da Jordânia são estupendas (deve ser um dos lugares mais bonitos do planeta, sem brincadeira), e não há elemento delas de que o diretor anglo-jordaniano Naji Abu Nowar não se aproveite e que não faça contribuir para o desenvolvimento da história. O menino Jacir Eid Al-Hwietat, além disso, é um achado: está todo mundo falando de Jacob Tremblay em O Quarto de Jack, mas, para mim, ele não fica atrás.


Trailers


A OVELHA NEGRA
(Hrútar)
Islândia, 2015
Direção: Grimur Hakonarson
Com Sigurdur Sigurjonsson, Theodor Juliusson, Charlotte Boving, Gunnar Jonsson
Distribuição: Imovision
O LOBO DO DESERTO
(Theeb)
Emirados Árabes Unidos/Qatar/Jordânia/Inglaterra, 2014
Direção: Naji Abu Nowar
Com Jacir Eid Al-Hwietat, Hussein Salameh Al-Sweilhiyeen, Hassan Mutlag Al-Marayeh
Distribuição: Paris Filmes

Uma consideração sobre “A Ovelha Negra e O Lobo do Deserto”

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