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Deadpool

Ryan Reynolds é o sujeito certo no filme certo

Quando rolou o primeiro trailer de Deadpool, uns meses atrás, eu achava que nem conhecia o personagem: esqueci que ele tinha andado por X-Men Origens: Wolverine. Não sou leitora de quadrinhos e não sou fangirl, mas consta que os leitores e fanboys preferem esquecer essa primeira e pífia aparição de Deadpool. Consta, também, que ela é uma das várias coisas que Ryan Reynolds gostaria de esquecer na vida. Mas das quais, felizmente, continua a lembrar: se Deadpool é tão bom – e é muito melhor do que bom –, é porque Reynolds leva para dentro do filme todas as decisões insensatas que já tomou e todos os equívocos que cometeu (começando por, mas sem limitar-se a, Lanterna Verde). Imagine um filme de super-herói escrito por Dercy Gonçalves, revisado pelo Monty Python e dirigido pelo Matthew Vaughn de Kick-Ass e Kingsman depois de um porre bem bagaceira: isso, em termos aproximados, é Deadpool. No roteiro da dupla Rhett Reese e Paul Wernick (de Zumbilândia), que o estreante Tim Miller dirige com uma finesse toda especial para a ação anárquica (além de baratinha: o filme custou só 60 milhões de dólares), Deadpool perde tudo, menos a piada – especialmente se ela for bem vulgar. Deadpool é impertinente, é boca-suja, é teimoso, cínico, e comenta a ação com a plateia o tempo todo – particularmente se for para detonar com alguém enquanto matraqueia. E não há ninguém com que ele detone mais do que a si próprio.

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Reynolds não é um desses atores capazes de fazer qualquer coisa (veja A Dama Dourada e você vai entender o que quero dizer), mas aquilo que ele faz bem ele faz muito bem. E uma das coisas nas quais ele é mestre é o escracho; Reynolds sabe escrachar com o ar mais inocente deste mundo, de forma que o escrachado nem sempre sabe direito o que está acontecendo. Outra modalidade em que ele tem nível olímpico é a autodepreciação. É quase tão bom nela quanto o recordista da categoria, Hugh Grant. Eu pessoalmente tenho um fraco por pessoas que sempre começam a piada por elas mesmas, mas esse é um esporte de risco: se houver sequer um cheirinho de que o objetivo do auto-bota-abaixo é na verdade promover o próprio senso de humor e louvar a própria autocrítica (como fazem James Franco e Seth Rogen), o negócio imediatamente fica pedante e antipático. Reynolds não sabe só se equilibrar no fio dessa navalha; ele é capaz de fazer coreografias graciosas em cima dele.

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E, a propósito de coreografias, Reynolds é também um ator mais técnico do que eu supunha. Deadpool vive escondido em sua roupa colante vermelha e a máscara que oculta até seus olhos porque seu corpo e seu rosto são coberto de cicatrizes: quando ainda era o mercenário Wade Winston, ele se submeteu às terapias mutagênicas do vilão Ajax (Ed Skrein) na tentativa de curar um câncer terminal. Livrou-se da doença e ganhou a habilidade de regenerar-se de qualquer ferimento, mas ficou deformado. E, sendo no fundo um grande romântico, acha que é melhor que seu grande amor, a prostituta Vanessa (a brasileira Morena Baccarin, ótima no papel), acredite que Wade está morto. Atuar só na base da expressão corporal, por baixo de uma máscara, não é fácil; mas o trabalho de Reynolds é exímio – melhor ainda que, digamos, o de Michael Fassbender em Frank, e consideravelmente mais divertido.

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Há muito tempo eu esperava que algo assim acontecesse para Reynolds: o filme certo. Que só veio porque ele finalmente ligou o “dane-se” (este é um blog sem palavrões, pessoal) e resolveu fazer a coisa do jeito que achava certo. Reynolds inclusive se valeu do que a rigor seria um golpe baixo: na ComicCon de 2014, “alguém” (“não, juro, não fui eu; ou pode ter sido, mas não sei”) vazou para a plateia algumas cenas que ele e Tim Miller já haviam filmado, de modo a torcer o braço da Fox e, por aclamação, obrigá-la a aprovar a produção. Outros atores não teriam se safado tão fácil, nem com o estúdio nem com o público, de uma artimanha dessas. Mas é por isso que Reynolds é tão perfeito para Deadpool: porque mesmo quando está aprontando, é naturalmente adorável.

PS: FIQUE ATÉ O FINAL DOS CRÉDITOS!


Trailer


DEADPOOL
Estados Unidos/Canadá, 2016
Direção: Tim Miller
Com Ryan Reynolds, Morena Baccarin, Ed Skrein, T. J. Miller, Brianna Hildebrand, Karan Soni, Gina Carano, Stefan Kapicic, Greg LaSalle, Leslie Uggams
Distribuição: Fox

4 comentários em “Deadpool”

  1. Afinal, qual é o papel do crítico e das premiações? Dizer e reconhecer se um filme é bom ou ruim, certo? Que o filme agrada ou não? Ou melhor, que o filme agrada ou não aquele público para o qual foi produzido? O crítico consegue dizer que o filme é tecnicamente bom, bem produzido, que cumpriu satisfatoriamente todos os requisitos que são avaliados, mesmo não tendo gostado da ideia, da proposta, da história, do tema? Pensando na tal “fronteira entre o que o filme mostra e o que o filme é”, mencionada no comentário sobre Spotlight… como mero espectador, posso dizer que Deadpool é muito bem produzido, embora não seja possível aplaudir um filme (dentre muitos outros) que banaliza a violência a ponto de arrancar risadas?

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  2. “Imagine um filme de super-herói escrito por Dercy Gonçalves, revisado pelo Monty Python e dirigido pelo Matthew Vaughn de Kick-Ass e Kingsman depois de um porre bem bagaceira”, essa sentença vai entrar para o hall das “frases icônicas de Isabela Boscov”. Muito boa

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  3. sei que o foco da tua crítica foi no Reynolds, mas outros dois elementos (além do humor, é claro) me encantaram: a trilha e a edição. Acho que foi uma das melhores trilhas, considerando filmes do gênero “heroi” e a edição ajudou e muito a narrativa (até a minimizar os probleminhas de roteiro).
    E como eu disse na página do Facebook, você deu a melhor definição sobre o filme que eu já vi:
    “Imagine um filme de super-herói escrito por Dercy Gonçalves, revisado pelo Monty Python e dirigido pelo Matthew Vaughn de Kick-Ass e Kingsman depois de um porre bem bagaceira: isso, em termos aproximados, é Deadpool”

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    1. Achei mesmo que o filme tem uma ar “boca suja”, meio Tarantino até e o Ryyan Reynolds realmente leva o personagem com competência.Mas faltou citar o personagem digital, muito, muito mal feito, que lembra o “Hulk”. Só não compromete definitivamente o filme por ser secundário e o filme , afinal, não se levar muito a sério.

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