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★ David Bowie – Sobre o luto por um estranho.

A Terra relutantemente abre mão de David Bowie. Mas quem diz que eu consigo me conformar com isso?

Em Uma Noite de Amor e Música, de 2008, Michael Cera e Kat Dennings se conhecem na rua, em Nova York, e passam as horas seguintes usando um método de teste e aproximação consagrado e mais ou menos infalível: diga-me qual a sua playlist e eu direi se você e eu damos rima ou não. Todos os namorados que eu tive na vida passaram nesse teste, porque não adiantaria passar em todos os outros e ser reprovado nele; e eu casei com um sujeito que tinha uma playlist maior e melhor do que a minha – se você vai passar a sua vida com alguém, é bom que seja com uma pessoa que tem não só muito em comum com você, como também novas portas a abrir (sem falar nas viagens de carro; horas na estrada com trilha sonora ruim não dá). A playlist em si é o objetivo? O teste é proposital e deliberado? Não e não, claro. O teste é espontâneo, mas inevitável, porque nada – nada – é mais importante na adolescência e na juventude do que a música que se ouve; e a música que se ouve diz quase tudo sobre quem se é. Na verdade, diz tanto que diz até demais; diz coisas que você nem sabe que ela está dizendo. Em uma certa fase da vida, pelo menos, você é a música, e a música é você.

Pois ontem, às 6 da manhã, um WhatsApp entrou no meu celular e arrasou uma parte enorme de quem eu fui, quem eu me tornei e quem eu venho sendo nas últimas décadas. Nunca me ocorreu que David Bowie poderia morrer, ou que eu um dia teria de lidar com a notícia da morte dele; o Sol nasce todos os dias, o Bowie existe. Sempre vou ouvir Bowie, e sempre vai haver mais Bowies para ouvir: o de Space Oddity, o de Ziggy Stardust, o de Young Americans, o Thin White Duke, o Bowie da trilogia de Berlim, o de Scary Monsters, o de Let’s Dance, o de Black Tie White Noise, o de Outside, o de Heathen, o de The Next Day, o de Blackstar. Todos existem ao mesmo tempo, nenhum deles fica velho jamais, todos são igualmente importantes. Não são pedaços de alguém; são o universo em expansão, e é isso que o universo faz, expandir-se. Mas então a ordem natural das coisas acabou, de uma hora para outra.

Imagine assim: aquilo que você é por dentro emite um som. Mas é como um apito de cachorro – um som em uma frequência que a audição humana não alcança; nem os outros e nem você conseguem ouvir esse som específico que o seu íntimo em particular emite. Daí alguém põe um LP no toca-discos e, pela primeira vez na vida, você descobre como é esse som; ele deixou de ser um apito de cachorro e passou a ser um disco absolutamente extraordinário que, da primeira faixa do lado A à última faixa do lado B, sabe mais sobre o que você sente a respeito do mundo e toda esse espécie de coisa do que você mesmo. Isso foi ouvir The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars pela primeira vez, em idade ignorada mas que chuto lá pelos 13 anos ou menos – um dos benefícios de ter irmãs mais velhas com amigos que lotam a mala de discos em Londres. O que é mais extraordinário é que, quando ouço Ziggy hoje em dia, ele continua entendendo tudo que vai pela minha cabeça do mesmo jeito. Eu mudei, e ele mudou junto comigo. Ele soa novo em folha, sempre. Se o Bowie tivesse lançado esse disco este ano, ele continuaria sendo inovador – e um arraso, como sempre foi, todos os dias desde 1972 até aqui.

Essa é uma das grandes diferenças entre Bowie e os os outros – quase todos os outros. Eu tive paixões musicais bem mais agudas do que Bowie, e muitas delas. Mas amor mesmo, de verdade, isso é outra coisa. Quando ouço outras paixões, elas têm data: lembro como foi aquele ano, ou lembro onde estava, ou o que aconteceu, ou com quem eu costumava ouvir aquela banda ou esta. Lembro de todos os meus “eus” passados, enfim. Mas Bowie é, primeiro, a grande constante: eu teria de lembrar de todos os meus “eus” simultaneamente. E, segundo, Bowie é sempre o “eu” que sou, não o que fui. É um som sem data e uma afinidade sem tempo. Talvez eu nunca tenha me dado conta de que Bowie poderia morrer um dia, também, porque ele nunca teve um declínio. Não fez turnê para pagar divórcio, não fez álbum tentando recapturar uma velha mágica que não existe mais, não pôs fantasia antiga e foi saracotear no palco para parecer que ainda é o mesmo de 1970, ou de 1980, ou de 1990. Gosto mais de algumas fases dele que de outras? Não há dúvida. Mas todas elas, as preferidas e as menos favoritas, são fases de plenitude criativa. Faziam sentido acima de tudo para ele. Um artista sem decadência não é só um grande artista – é uma força vital.

Feitas todas essas tentativas de racionalização, o fato é que, desde ontem, estou com o coração partido. Fico triste com a perda de pessoas que eu admiro, e abalada quando essas perdas são trágicas ou prematuras. Mas é quase um sentimento teórico: até por dever de ofício, tenho sempre muito clara a distinção entre o que significa alguém verdadeiramente fazer parte da sua vida ou simplesmente tocá-la. Talvez pela primeira vez, porém, constato que alguém tornou essa distinção irrelevante. Já atravessei outros lutos sérios na vida, e este aqui, para minha surpresa, é the real deal. É luto mesmo. E quer saber? É um privilégio. O Simon Pegg está coberto de razão: o mundo tem 4 bilhões de anos e eu dei um jeito de existir nele ao mesmo tempo que David Bowie. Vá ter sorte assim lá longe. Muito obrigada, e safe travels and Godspeed para você, Dave.


13 comentários em “★ David Bowie – Sobre o luto por um estranho.”

  1. Parabéns: você escreveu a mais longa, intensa, profunda e eloquente homenagem á memória de David Bowie.

    Melhor do que qualquer resenha de jornal ou site publicada até agora.

    A segunda melhor reação foi a de Annie Lennox, dos Eurythmics, no Facebook dela.

    O SILÊNCIO mais ensurdecedor é o de Cherie Currie, vocalista das Runaways, “a filha perdida de Brigitte Bardot e David Bowie.”

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  2. Isabela, acompanho seu blog e seus artigos na revista Veja já há muitos anos. Independente de concordar ou não com as críticas sele leio. Leio para também saber se vou concordar ou não com você ou pelo simples fato de admirar o jeito claro que você escreve. Mas, confesso que ontem quando vi na linha do tempo do meu face seu comentário da morte do David Bowie, fiquei admirada. Pensei: Poxa ela também está sofrendo. E neste momento após ler seu post tive a certeza que mais pessoas estão sentindo o que sinto. Impressionante como, apesar de declarada fã, a morte dele me pegou assim tão desarmada que ainda estou em estado de choque aprendendo a conviver com isso. Talvez eu tenha que usar da mesma premissa do Simon Pegg para me sentir mais confortável e seguir. Enfim, primeiro dia sem ele.

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  3. Relembre a carreira do Camaleão do Rock nos cinemas

    http://www.adorocinema.com/slideshows/filmes/slideshow-118528/

    “Quando falamos que Bowie é uma espécie de “metamorfose ambulante”, uma boa maneira de exemplificar isso é se perguntando: Que outro ator poderia se sair tão bem interpretando tanto um duende nefasto quanto Pôncio Pilatos?

    No polêmico A Última Tentação de Cristo, de Martin Scorsese, Bowie encarna o prefeito da província romana da Judeia que condena Jesus à morte na cruz, mesmo sabendo que Cristo é inocente.

    O diálogo de Pilatos com o Messias (Willem Dafoe) é um dos pontos altos do filme. “Tudo que eu estou dizendo é que a mudança virá através do amor, não através de assassinatos”, diz Jesus.

    Intransigente, Pilatos responde: “De qualquer forma, isso é perigoso. Isso é contra Roma. Isso é contra a maneira que o mundo é. Matar, amar é a mesma coisa. Não importa como você quer mudar as coisas. Nós não queremos que elas mudem”.

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  4. Uma coisa que sempre admirei em toda a obra de David Bowie é o teor ADULTO: nada é realmente pop, nem fácil, nem há finais felizes maniqueístas, Bem vence o Mal.

    No cinema, ele só faz filmes cult. O Homem Que Caiu na Terra é um atormentado alien confundido com espião da KGB e que ao final se torna alcoólatra — depois de gravar um disco (!!!) O Rei dos Duendes era ao mesmo tempo o vilão, amante e educador de Jennifer Connely, ensinando-a a amar o irmãozinho.

    No teatro, só biscoitos finos de dramaturgos intelectuais: interpretou o Baal de Bertold Brecht, e por aí vai.

    Na música, seus personagens têm destinos igualmente trágicos. Major Tom enlouquece e se perde no vácuo sideral. O Homem que Vendeu o Mundo morre solitário ao encontrar a si mesmo numa estrada. Ziggy Stardust se mata ao se deixar ser despedaçado pelos fãs que queriam um pedaço dele.

    Misture Scott Walker, Jean Genet, T.S. Elliot, Andy Warhol, Bob Dylan, Lou Reed, Iggy Pop, teatro de sombras indonésio, teatro Kabuki japonês, a mímica de Lindsay Kemp, a filosofia do “Übermensch” de Friedrich Nietszche e o que nós temos?

    O primeiro pop star erudito a realizar o milagre da fusão de TODAS as mídias num show: isso é David Bowie.

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  5. “Nunca fiz coisas boas / Nunca fiz coisas más / Nunca fiz nada ao acaso / Não me diga que as verdades doem / Porque isso dói como o inferno / Abra caminho para o Homo Superior / Todos os pesadelos chegam esta noite / E parece que eles estão aqui para ficar / Vire-se e encare o estranho / Você está face a face / Com o Homem Que Vendeu o Mundo / Eu pensei que você tivesse morrido sozinho / Há muito, muito tempo atrás…”

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  6. A ficha ainda não caiu!!!
    Sempre esperava pelo álbum do Bowie, era sempre um acontecimento na minha vida… obrigado Bowie, por deixar esse último presente!!!

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  7. I know when to go out
    And when to stay in
    Get things done

    I catch a paper boy
    But things don’t really change
    I’m standing in the wind
    But I never wave bye-bye
    But I try, I try

    There’s no sign of life
    It’s just the power to charm
    I’m lying in the rain
    But I never wave bye-bye
    But I try, I try

    Never gonna fall for
    Modern love walks beside me
    Modern love walks on by
    Modern love gets me to the church on time

    Church on time terrifies me
    Church on time makes me party
    Church on time puts my trust in god and man
    God and man no confessions
    God and man no religion
    God and man don’t believe in modern love

    It’s not really work
    It’s just the power to charm
    I’m still standing in the wind
    But I never wave bye bye
    But I try, I try

    Never gonna fall for
    Modern love walks beside me
    Modern love walks on by
    Modern love gets me to the church on time

    Church on time terrifies me
    Church on time makes me party
    Church on time puts my trust in god and man
    God and man no confessions
    God and man no religion
    God and man don’t believe in modern love

    Modern love – Modern love
    Modern love – Modern love, walks beside me
    Modern love – Modern love, walks on by

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  8. I know when to go out
    And when to stay in
    Get things done

    I catch a paper boy
    But things don’t really change
    I’m standing in the wind
    But I never wave bye-bye
    But I try, I try

    There’s no sign of life
    It’s just the power to charm
    I’m lying in the rain
    But I never wave bye-bye
    But I try, I try

    Never gonna fall for
    Modern love walks beside me
    Modern love walks on by
    Modern love gets me to the church on time

    Church on time terrifies me
    Church on time makes me party
    Church on time puts my trust in god and man
    God and man no confessions
    God and man no religion
    God and man don’t believe in modern love

    It’s not really work
    It’s just the power to charm
    I’m still standing in the wind
    But I never wave bye bye
    But I try, I try

    Never gonna fall for
    Modern love walks beside me
    Modern love walks on by
    Modern love gets me to the church on time

    Church on time terrifies me
    Church on time makes me party
    Church on time puts my trust in god and man
    God and man no confessions
    God and man no religion
    God and man don’t believe in modern love

    Modern love – Modern love
    Modern love – Modern love, walks beside me
    Modern love – Modern love, walks on by

    Link: http://www.vagalume.com.br/david-bowie/modern-love.html#ixzz3wy84D9hh

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