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The Walking Dead – A Sexta Temporada

Por que The Walking Dead sobrevive e fica cada vez mais forte (Porque é do balacobaco, e por várias outras razões também).

Virou senso comum dizer que TWD repete, em ciclos, uma estrutura básica: o grupo liderado por Rick Grimes encontra um lugar que pode ser um santuário, pouco a pouco a situação degringola, eles caem de novo no mundo. Superficialmente, até parece verdade. Mas olhe bem: não, não é verdade, porque em cada um desses ciclos TWD trata de um assunto completamente diferente.

No primeiro deles, estava-se falando de seres humanos x zumbis e da sobrevivência mais básica, nomádica, de um dia para o outro apenas. Então, chegando à fazenda de Hershel, o grupo consegue se estabelecer como um pequeno clã – um coletivo de laços familiares dedicado à proteção mútua, capaz de cultivar um pouco de alimento, mas ainda primordialmente dependente da caça e da coleta (não na floresta, mas em supermercados, farmácias etc.)

Como suas defesas são muito precárias, a fazenda sucumbe. Rick & cia são novamente lançados ao desabrigo, e compreendem que é preciso algo mais: é preciso um lugar onde vários clãs possam conviver – o presídio – como um bando, com um perímetro fortemente defendido, com liderança e com recursos próprios (a horta que eles cultivam). Um bando adversário, porém – o do Governador –, de novo põe por terra essa paz relativa. O Governador é derrotado, mas não sem antes tornar a estada no presídio inviável. Mais uma vez, estrada. Agora, com desagregação, enquanto os integrantes do bando seguem aos punhados, separadamente, para Terminus.

Se a comunidade autocrática e messiânica do Governador representava uma espécie de “lado B” da comunidade democrática e igualitária do presídio, Terminus era o lado B do lado B: um bando altamente organizado e hierarquizado cujo meio de vida era atrair presas para então canibalizá-las, literalmente – a selvageria instituída, e com método. Estávamos, aí, na fase de seres humanos x seres humanos.

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E então chegou-se, na quinta temporada, a Alexandria.

Agora, no primeiro episódio da sexta temporada, descobrimos por que o condomínio de luxo Alexandria escapou em comparativa paz do apocalipse: porque todos os zumbis que se aproximavam dali caíam numa pedreira abandonada. Livre de quase todo assédio, Alexandria prosperou como o matriarcado benigno de Deanna, cheio de conforto, civilização e compaixão e ignorante da brutalidade que existe além de seus muros. A contrapartida: os moradores de Alexandria são despreparados, vulneráveis – e sobretudo iludidos. Acham que se se agarrarem com bastante força à sua ideia de realidade, ela passará a ser verdadeira. Rick está empenhado em desfazer essa ilusão. No enfrentamento com o Governador e na passagem por Terminus, ele próprio modificou suas convicções: Rick agora acredita na autocracia, na força, na necessidade da violência punitiva, na militarização da sociedade civil que ele comanda. Estamos em outra fase: a do conflito entre duas concepções diversas de civilização.

Os paralelos que TWD está alivanhando agora são inúmeros. Três deles: a expansão americana rumo ao Oeste no século XIX. As visões conflitantes dos americanos sobre a guerra ao terrorismo. E Israel x mundo árabe.

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Mas, acima de tudo, desde a quinta temporada TWD está no ramo complicado, tortuoso e fascinante de mostrar por que não basta ser um bando e é necessário querer ser uma civilização – e mostrar, também, como é difícil decidir o que é força e o que é ordem, o que é lei e o que é justiça, o que é competência do “legislativo” e o que compete só ao “executivo”. Parabéns, Rick & Deanna: vocês chegaram ao que foi o momento fundador dos Estados Unidos como nação – a opção pela sociedade de contrato. Agora vem a parte difícil: escrever os termos do contrato. Boa sorte.


Atenção. Pare aqui se você ainda não assistiu aos primeiros episódios da sexta temporada.


Especificamente sobre os dois primeiros episódios da sexta temporada: por mais que eu eu tenha apreciado o suspense do episódio inaugural, na semana passada, fiquei com ele meio atravessado na garganta: não consigo imaginar nenhuma razão lógica (nem tampouco logística) para Rick ter decidido que a melhor solução para o problema das hordas de zumbis concentradas na pedreira seria tocar o rebanho para longe dali, em vez de exterminá-lo onde ele estava, antes que escapasse. Mas talvez eu esteja dando um passo maior que a perna: na verdade, nenhum de nós sabe se é apenas isso mesmo que Rick pretende fazer, tocar a boiada.

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E foi magistral a maneira como TWD parou em um dos maiores cliffhangers de todos os tempos e, no segundo episódio, cortou para o flashback de Enid e o ataque dos Lobos a Alexandria durante a ausência de Rick e os outros guerreiros. O ataque de certa forma colaborou com a nova visão darwinista de Rick, de que os que não sabem se defender devem morrer. Mas ainda haverá Alexandria se os zumbis chegarem até seus portões? Qual o verdadeiro papel de Enid lá? Por que os Lobos não usam armas de fogo, e por que eles falam em “libertação” enquanto esquartejam? Para me deixar assim com o coração na boca, só TWD mesmo.

6 comentários em “The Walking Dead – A Sexta Temporada”

  1. Olá,Isabela!
    Que maravilha ver seus vídeos novamente!
    Tbem sou louca por TWD. Tenho visto The Americans tbem… Algumas coisas sao forçadinhas no primeiro episódio, mas continuei vendo mesmo assim e estou amando!

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  2. Olá Isabela,
    Não importa qual veículo/meio você esteja produzindo suas críticas, vou sempre te acompanhar. Admiro a maneira como você manifesta sua visão/opinião sobre os filmes ( ácida e sensível, na medida certa ).

    Sua página tem espaço efetivo nos meus “Favoritos”.

    P.S – Eu gostei bastante do roteiro de “A Origem” rs rs

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  3. Olá Isabela, ainda bem que podemos continuar seguindo seu trabalho por aqui.
    Em relação ao seu comentário, eu não vejo nenhuma razão para os lobos não usarem arma – pois elas estão todas espalhadas por esse mundo abandonado – além da extrema ingenuidade em atacar uma comunidade com facões sabendo que você poderá ser recepcionado com balas. Acho que o roteirista deu uma forçada na narrativa 🙂

    Quanto à “libertação”, tenho pra mim que trata-se de uma visão apocalíptica desses malucos que acham que a terra já está pior que o inferno e acelerar a partida seria um ato de caridade.

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  4. Tudo bem Isabela? Fiquei muito feliz em saber que você continua sua jornada com o cinema aqui, seu trabalho é inspirador. Sou totalmente apaixonado por cinema e curto muito TWD, ainda não vi nenhum ep novo, mas estou ansioso. Parei de ler onde você indicou rsrs… parabéns pelo seu trabalho e competência, torço por você. Grande abraço.

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  5. Oi Isabela, fiquei feliz de encontrar esse site, gosto muito das suas críticas. Também adoro TWD, teve pouca coisa melhor na televisão e no cinema do que o Rick cavalgando para a Atlanta destruída, mas o que pode ser melhor do que horror ao estilo western, e cada vez que ele chega ao limite ou a Carol entra em ação eu sinto medo dos mocinhos. Também gosto da forma como a série reflete sobre um sofrimento comum a realidade de vários povos na atualidade, a angustiante questão que se coloca quando os órgãos de proteção legalmente instituídos falham, não são capazes de manter a ordem e garantir a segurança, ou são eles mesmos disseminadores da dor. Que resposta, que reação, que meio para se proteger e sobreviver senão a violência?

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