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Perdido em Marte

Matt Damon, Ridley Scott, espaço: que delícia.

Todas as vezes que entrevistei Ridley Scott saí da sala me perguntando por que ele quase nunca deixa que o senso de humor dele transpareça nos filmes que faz – porque ele é, sim, capaz de ter um ótimo senso de humor. Às vezes, pelo menos.

Lembro de uma mesa-redonda de Robin Hood, particularmente, que avançou quase o dobro do tempo previsto porque niguém conseguia parar de rir (Scott tinha acabado de operar o joelho, e é possível que toda aquela medicação tarja preta para a dor tenha deixado ele especialmente borbulhante, mas ainda assim). Pois é isso que faz toda a diferença em Perdido em Marte: ver quão à vontade ele está com o humor brincalhão do livro homônimo de Andy Weir, e como tira partido do material original para explorar outras possibilidades de se divertir com o filme – por exemplo, fazendo miséria com a trilha sonora de sucessos disco dos anos 70. Até o tradutor brasileiro entra na dança, e aproveita o clima geral para fazer o melhor trocadilho da última década em uma legenda nacional. A competência visual de Scott é comprovada, e nunca esse aspecto de Perdido em Marte esteve em dúvida. Já esse jeito airoso dele é, sim, uma surpresa. E, depois daquelas explicações sem pé nem cabeça de Prometheus, é uma ótima surpresa também a habilidade com que Perdido em Marte dosa as bordoadas de ciência do livro (que eu adoro), sem tirar em excesso nem se alongar demais.

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Conta muito a favor de Perdido em Marte, lógico, que seja Matt Damon a fazer o papel do astronauta Mark Watney, dado como morto (equivocadamente, óbvio) e deixado em Marte pelos colegas de tripulação quando uma tempestade os obriga a abortar a missão antes de completá-la: Mark é um excelente cientista, é de uma engenhosidade e criatividade inesgotáveis (vai precisar delas para esticar um mês de alimentos, oxigênio e água por possíveis quatro anos, prazo previsto para a chegada da missão seguinte a Marte) e é de um equilíbrio de dar inveja. Mas é, acima de tudo, um sujeito encantador, que, apesar de estar num azar danado, não perde uma piada à própria custa, e até quando está sendo exibido é uma simpatia (“Sou o melhor botânico deste planeta”, graceja ele, o único botânico a jamais pôr os pés em Marte, quando despontam as primeiras folhas das batatas que ele plantou usando como adubo as fezes da tripulação – empacotadas e etiquetadas, mas fedidas do mesmo jeito).

Andy Weir, um ex-programador que, esse sim, tirou a sorte grande (foi do self-publishing para a lista de best-sellers e dela para o blockbuster quase sem escalas) é ele próprio tão nerd (digo isso com o maior respeito) e tão simpático quanto seu protagonista: imaginou Perdido em Marte porque era tão apaixonado pela sequência de Apollo 13 em que os cientistas, em Terra, bolam soluções para Tom Hanks, Kevin Bacon e Gary Sinise usarem na sua missão condenada que decidiu se propor um exercício – escrever um livro que fosse todo ele isso, uma resolução encadeada de problemas. É claro que a dívida de Weir para com Robinson Crusoé, Náufrago e outros clássicos da sobrevivência solitária é imensa, mas essa sacada dele, de que a ciência é que deveria ditar os desdobramentos da trama, é que é a espinha dorsal do livro e o que dá a ele tanta originalidade.

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E aí está o único reparo que eu faria ao filme – isso se ele não tivesse me deixado tão bem-humorada que nem tenho vontade de fazer reparos. Ao contrário de Robert Zemeckis, que não hesitou em colocar o destino de Náufrago sob responsabilidade quase absoluta de Tom Hanks, Ridley Scott não teve a mesma confiança em Matt Damon (ou, o mais provável, duvidou da capacidade de concentração da plateia para acompanhar um só personagem durante a maior parte do filme), e aumentou consideravelmente o peso do pessoal de Terra no roteiro. Jeff Daniels, Chiwetel Ejiofor, Michael Peña, Jessica Chastain, Benedict Wong etc. são ótimos atores (o mesmo vale para Kristen Wiig, embora a personagem dela, coitada, não tenha nada para fazer), mas muito da graça de Perdido em Marte, o livro, está em ser aquilo que seu título original – The Martian, ou O Marciano – indica: por acaso, Mark Watney foi vida em Marte durante alguns meses, e durante esse tempo colonizou um planeta estéril com ciência, criatividade, paciência, humor e fortitude. Levou para 225 milhões de quilômetros da Terra, enfim, o que de melhor pode haver na humanidade. O que poderia ser mais lindo do que isso?

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P.S.: Está assim de gente enxergando teorias conspiratórias no fato de a Nasa ter divulgado evidências de água salgada correndo em Marte na mesma semana em que estreia o filme de Ridley Scott. O teor geral dessas teses: Perdido em Marte é um filme feito com endosso da Nasa (“uma propaganda da agência espacial americana”, dizem alguns), e a Nasa teria aproveitado o embalo do lançamento para divulgar sua notícia e reforçar o golpe positivo de relações-públicas. Não é impossível. Mas: 1) a pesquisa sobre Marte é intensa e continuamente gera novidades de grande impacto; 2) a Nasa colabora regularmente com produções cinematográficas, da mesma forma que várias outras agências americanas. É melhor para ela, para o programa espacial e para a ciência que utilize-se sua consultoria em vez do “chute” mais ou menos informado; 3) a Nasa é uma agência não-militar cujo orçamento é votado todos os anos pelo Congresso, e ela realisticamente depende de uma imagem positiva para alcançar a dotação necessária para a continuidade de seus projetos; 4) há sempre um contingente que vai questionar a necessidade de um programa espacial, mas é assombrosa a quantidade (e a qualidade) de ciência básica e aplicada produzida por ele nas últimas seis décadas; 5) quem foi criança nos anos 60 e 70 pode dizer quanto a Nasa encheu sua infância de imaginação e aventura. Valeu, Apollo 11!


 Leia aqui a minha resenha para o livro “Perdido em Marte” de Andy Weir


 Trailer


PERDIDO EM MARTE
(The Martian)
Estados Unidos, 2015
Direção: Ridley Scott
Com Matt Damon, Jeff Daniels, Chiwetel Ejiofor, Michael Peña, Jessica Chastain, Sean Bean, Benedict Wong, Mackenzie Davies, Kristen Wiig, Kate Mara, Aksel Hennie, Sebastian Stan, Donald Glover
Distribuição: Fox

10 comentários em “Perdido em Marte”

  1. Finalmente te achei Isabela!!!! Minha vida de cinéfilo já estava sem graça sem você kkk!!! Verdade verdadeira!!! Seus comentários são minha bússola, leio a crítica de outros mas não é a mesma coisa…acho que temos gosto parecido hehe!! Ou talvez apenas olhemos para as mesmas coisas quando vemos um filme..d qq forma estou mto contente e já seguindo seu blog, sei que logo terá um grande número de seguidores aqui. Grande abraço! (e olha, quase cancelei a Veja de raiva kkk!! A Vilma Grazinski saiu tb foi? (grrr!!)

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  2. O filme é tudo isso mesmo que vc falou…. tanto que faço um reparo: o personagem do Matt devia ter aparecido mais…. ele é tão legal que qualquer um gostaria de tê-lo como amigo.

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  3. Isabela, eu até poderia fácil rever o filme (pois gostei muito) para reencontrar “o melhor trocadilho da última década em uma legenda nacional”, mas, por favor, pode dizer por aqui qual foi?

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  4. Isabela, que bom ter você de volta !

    Pelo menos para mim, de volta. Pois depois de mais de 20 anos assinando a Veja, chegou uma hora que o editorial e certos articulistas acabaram por me afastar da publicação.

    Confesso que estava sentindo falta de suas resenhas…

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  5. Olá, Isabela! Primeiramente quero dizer que estava com saudades de seus comentários. Sempre te acompanhei pelas mídias da Veja. Confesso que, nem sempre, compreendia totalmente suas resenha da revista. Claro que não por “culpa” sua, mas sim da minha cultura não tão vasta. Mesmo assim, adorava…. Era só sair um filme novo e, eu e uma grande amiga, ficávamos aguardando o que a Isabela iria falar….rsrsr…. Às vezes eu lia a crítica antes dela e comentava “até onde entendi, ela (não) gostou….”… Então esta amiga (mais culta que eu) lia e me explicava as passagens não entendidas…rsrs… Já havia notado sua ausência nos últimos tempos, o que me intrigava… O que teria acontecido?
    Até que saiu o artigo sobre Perdido em Marte na revista e não vimos sua assinatura… Então comentei com ela que iria perguntar ao Google o que havia acontecido com você… até cantei a pedra: “esta crise fez a Veja dispensar vários de seus colunistas….” Ela: se ela não está mais na revista, ficarei muito brava.
    Feita a descoberta, passaremos a acessar seu blog para nos mantermos informados. Você ganhou mais dois fiéis leitores. Boa sorte nesta nova etapa. PS. Como não é um comentário sobre o filme, se quiser, não precisa publicar. Você decide. Um abraço e até uma próxima oportunidade.

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    1. Luis, fico muita grata a você e à sua amiga! Mas vou discordar de uma coisa: se eu às vezes não me fiz entender, a “culpa” é minha sim, não sua… Eu é que tenho obrigação de ser clara, certo? Mas fico feliz que ainda assim você goste de ler o que eu escrevo. E espero sinceramente que você continue gostando! Um grande abraço.

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