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O verão do pânico

Em 20 de junho de 1975, às vésperas das férias de verão, 400 salas de cinema em território americano sofreram um ataque sem precedentes: foram invadidas por uma criatura mecânica, recoberta com pele de borracha, que fotografada dos ângulos certos era idêntica a um grande tubarão-branco.

A criatura demorava uma hora de filme para fazer sua primeira aparição por inteiro, com a bocarra escancarada; até ali, só se viam sua barbatana dorsal cortando a água e o rastro de sangue e morte que ela deixava atrás de si. De forma que, quando ela finalmente surgia em cena, a plateia estava já tomada pelo pânico e nem era mais capaz de notar que o tubarão assassino do diretor Steven Spielberg era um bocado falso e inerte (na verdade, na primeira vez em que foi lançado à água, foi direto para o fundo).

Tubarão inaugurou o cinema arrasa-quarteirão e causou comoção popular. Nas cidades praianas americanas, a frequência de turistas despencou. Para se ter uma ideia: 67 milhões de pagantes foram ver o filme só nos Estados Unidos. Sua renda mundial, ajustada para a inflação, seria hoje equivalente a mais de 2 bilhões de dólares, o que o colocaria atrás apenas de Titanic e Avatar. Naquele verão de 1975 (e o lançamento brasileiro, em 25 de dezembro, também pegou em cheio a temporada de calor), ninguém nadou tranquilo. Nem em piscina: bastava haver água e alguém já saía imitando o “tan, tan, tan, tan” da trilha de John Williams, levando a garotada à histeria. Nas praias americanas, houve episódios de linchamento de golfinhos e filhotes de baleias confundidos com tubarões. Spielberg, um quase estreante de 28 anos, tocara em uma veia profunda: o pavor primal da presa diante do predador, que ganhava força redobrada por causa daquela hora de suspense em que nada se via e tudo se imaginava. Os tubarões passaram a ser mais do que temidos. Tornaram-se vilões na imaginação popular, caçados e demonizados – ao ponto de Peter Benchley, autor do best-seller em que o filme se baseia, declarar seu arrependimento.

O vídeo capturado na semana passada, de Mick Fanning debatendo-se na água enquanto uma imensa barbatana dorsal o rodeia, é de gelar o sangue: o perigo é, sim, real. Mas, para quem viu Tubarão no cinema em 1975, no auge do alvoroço, as imagens do desespero de Fanning provocam o choque extra de uma constatação: não foi só o pavor que Spielberg evocou – foi o fascínio do predador, e a rendição que a presa sente diante do poder dele. Isso não é coisa de bom diretor. É coisa de mestre.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 05/08/2015
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2015

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