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Cidades de Papel

O escritor americano John Green, de 37 anos, é um caso raro: combina uma prosa de qualidade literária a uma memória excepcionalmente nítida do que é ser adolescente. A chave do imenso sucesso de Green, porém, está vários passos além da capacidade de identificação – está no fato de que embora ele desenvolva seus personagens e enredos dentro das fronteiras dessa memória, ele o faz de fora delas, com a perspectiva da experiência. Green não presume que seja possível, ou sequer desejável, falar de igual para igual; o que ele prova em seus livros (3,7 milhões deles vendidos apenas no Brasil) e em seus vídeos na internet é, sobretudo, que ouve e fala com respeito pela inteligência de seu público. No ano passado, a primeira adaptação de um romance de Green para o cinema, A Culpa É das Estrelas, conseguiu preservar essa sinceridade, assim como a rapidez e a graça dos diálogos do autor. Já Cidades de Papel é uma transposição paupérrima, roteirizada e dirigida com uma constrangedora ignorância do que torna Green tão especial para seus leitores.

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Na história, Quentin (o simpático Nat Wolff, que quando sorri lembra George Harrison) é desde pequeno fascinado por sua vizinha Margo Roth Spiegelman, o tipo de menina a quem cabe sempre referir-se assim, pelo nome completo: uma garota que sempre pedala a bicicleta em pé, que aos 9 anos observa de perto o cadáver de um suicida sem se assustar, que dos 15 em diante foge de casa para viver aventuras. Margo (a modelo Cara Delevingne, fraquinha e antipática) é um ícone na escola que ela e Quentin frequentam, num subúrbio da Flórida. Mas nem lembra mais que Quentin foi seu amigo. Hoje, aos 18 anos, no último ano do secundário, Margo o ignora com aquela indiferença hormonal da adolescência: ainda que olhe diretamente para o estudioso e comportado Quentin, ela não o enxerga. Até uma madrugada em que, por razões inexplicadas, Margo o elege para acompanhá-la numa saga de vingança contra um ex-namorado – para então, no dia seguinte, desaparecer. Enfeitiçado, Quentin acredita que Margo deixou pistas sobre seu paradeiro para ele, e que ele deve portanto segui-las pelo país afora. O destino da jornada de Quentin, porém, não é Margo em si: é o aprendizado de que a Margo que ele vê é uma criação – tem muito dos desejos que ele projeta nela, e mais ainda do que ela quer projetar para o mundo. Das minúcias com que o autor dá corpo ao dia a dia da escola, da família, dos amigos, à iniciação do protagonista nesse complicado fundamento econômico dos relacionamentos,Cidades de Papel, o livro, escande o significado de um verso do poeta Walt Whitman que fascina os personagens – “eu contenho multidões”. Já Cidades de Papel, o filme, trai por completo os princípios de Green: oferece a aparência da história em vez de sua riqueza e seu significado, e acha que a plateia não vai perceber a contrafação.

 
CIDADES DE PAPEL
(Paper Towns)
Estados Unidos, 2015
Direção: Jake Schreier
Com Nat Wolff, Cara Delevingne, Austin Abrams, Justice Smith, Halston Sage
Distribuição: Fox

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