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Coriolano

Barril de pólvora.

Em estreia na direção, Ralph Fiennes faz uma adaptação feroz, e excelente, do Coriolano de Shakespeare.

Um dos menos encenados dramas de Shakespeare, Coriolano trata de uma traição estarrecedora que, por sua vez, engendra outra traição de igual monta. No século V a.C., o general Caio Marcio é o grande defensor da recém-fundada República de Roma. Por derrotar uma tribo vizinha, os volscos, na batalha de Corioli, ganha o sobrenome Coriolano e é alçado a cônsul. Mas Roma atravessa um período de fome, e a plebe está inquieta. Coriolano já reprimiu vários levantes. É temido e detestado pelo populacho; e, ao apresentar-se a ele para cortejá-lo, como manda o protocolo consular, profere um discurso que é tão franco quanto ofensivo. Em resumo: Coriolano despreza a plebe e sua fraqueza, e recusa-se a travestir tal desprezo com palavras pacificadoras. Dá assim aos tribunos o pretexto de que eles necessitavam para livrar-se do incômodo poder do general: eles insuflam a massa, e Coriolano é banido. Queimando de ódio, ele se junta ao líder dos volscos para atacar Roma – que, sem ele, está desprotegida. Em Coriolano, uma adaptação feroz dirigida e estrelada por Ralph Fiennes, o enredo e a maior parte dos diálogos são preservados. Mas a ambientação é contemporânea: as falas às vezes são ditas por âncoras de telejornais, ou são passadas de personagens masculinos para os femininos, como a mãe de Coriolano, numa interpretação monumental de Vanessa Redgrave (o elenco inclui também Gerard Butler, a onipresente Jessica Chastain e o shakespeariano congênito Brian Cox). Por ter sido rodado na Sérvia, o filme evoca ainda a convulsão tribal que, nos anos 90, fez da ex-Iugoslávia teatro de uma guerra em que qualquer pretensão à civilização foi abandonada.

Coriolano é uma peça meio maldita, por terem os nazistas a encampado na década de 30. Seu último ato, além disso, é um raro exemplo de falha arquitetural por parte de Shakespeare. Daí ter se tornado algo obscura. Mas é um texto agressivo, febril e direto. No tempo do autor, sobressaía o tema das armadilhas do poderio que aumenta rapidamente mas não está ainda consolidado (assim como a Roma de Coriolano, a Inglaterra de Elizabeth I era então um império nascente). Hoje, no recorte de Fiennes, ecoa com ainda mais força, por tratar da complicada relação que as democracias têm com seus militares – em particular quando o trabalho destes está feito e eles retornam como corpos estranhos ao organismo político. Não só o conflito entre sérvios e bósnios palpita nesta versão: aqueles entre israelenses e palestinos, ou entre Estados Unidos e Iraque, também vêm à mente em assomos perturbadores. Não que Fiennes os frise. Não é preciso: este grande ator chega, aqui, ao âmago do texto de Shakespeare e ao do próprio personagem. E revela que, dentro de qualquer homem de qualquer tempo e qualquer afiliação, se pode descobrir sempre um bárbaro.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 23/05/2012
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2012

Trailer


CORIOLANO

(Coriolanus)
Inglaterra, 2011
Direção: Ralph Fiennes
Com Ralph Fiennes, Gerard Butler, Brian Cox, Vanessa Redgrave, Jessica Chastain, James Nesbitt, Paul Jesson, John Kani

Uma consideração sobre “Coriolano”

  1. Assisti por causa desta resenha. Incrível: uma adaptação infinitamente MELHOR que o original. (Um caso único, junto com o “Ricardo III” estrelado por Ian McKellen em 1991). E olha que “Este é o texto mais visceral de Shakespeare” como lembrou o pau-pra-toda-obra Ralph Fiennes nos extras do DVD. (Que são um show á parte, ainda mais fascinantes.) Por isso o filme é tão bom. Genial a idéia de usar os grupos paramilitares do Bálcãs como reencarnações dos volscos, e Washington como a nova Roma. Deviam fazer mais petardos assim.

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