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Drive

Corra, Ryan, corra

No sensacional Drive, Ryan Gosling, um dos atores que mais brilharam em 2011, mostra por que ainda vai muito longe. E muito rápido

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Em Drive, um sujeito tão quieto que nem o nome dele se sabe trabalha como motorista de cenas de ação no cinema – e, nas horas vagas, dirige carros de fuga em assaltos. Ou seria o contrário? Mastigando um palito com a ponderação com que Clint Eastwood mascava uma cigarrilha em seus faroestes, o Garoto (é como os outros personagens o chamam, quando o chamam) é um virtuose do volante e um mestre intuitivo dos espaços em que os veículos se movem. Na sequência de abertura, a polícia identifica seu carro como parte de um crime – e a presciência com que o Garoto para numa vaga, ou apaga os faróis, para iludir as patrulhas faz desta perseguição sem ação um ato de bravura cinematográfica. Tão impassível é o Garoto que não só sua primeira explosão de violência mas também todas as seguintes são um choque. Mais ainda porque, mesmo quando perde o controle, ele não se descontrola: pisoteando a cabeça de um perseguidor até despedaçá-la ou ameaçando um outro com um martelo e uma bala encostada à sua testa, ele ainda assim fala baixo e não faz um único gesto desnecessário (uma das piadas subentendidas do filme adaptado do livro homônimo de James Sallis é como ele nem liga para a jaqueta de cetim cada vez mais ensanguentada: por que trocá-la, afinal?). Cálculo e precisão são as suas marcas; e as duas terão de ser reequacionadas diante do grande imponderável – uma mulher, e com um filho pequeno, ambos apelando ao seu instinto protetor.

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Muito tempo atrás, antes de virar um chato, Jean-Luc Godard disse que uma garota e uma arma é tudo de que se precisa para fazer um filme. Troque-se a garota por Ryan Gosling (que dividiu com Michael Fassbender o posto de o ator de 2011), a arma por um motor V-8 e entregue-se ambos ao dinamarquês Nicolas Winding Refn, um diretor em momento tão inspirado quanto o Godard de Acossado: tem-se um filme magistral, cujo sentido está nos elementos essenciais do cinema – a luz, o enquadramento, o close e o movimento (mais a trilha atmosférica de Cliff Martinez).

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Ultra-cool e estiloso, Drive é um filme para ver duas vezes. Na primeira, pela excitação: na sua paixão silenciosa e intensa pela vizinha Irene (Carey Mulligan), o Garoto tentará ajudar o marido ex-presidiário dela envolvendo-se em um golpe que irá degringolar espetacularmente. Na segunda vez, pela contemplação: Refn, antes conhecido pelo semiexperimentalismo da trilogia Pusher, faz de Drive um sonho noir, em que a luz, sempre rebatida, vem ora do sol baixo de Los Angeles, ora de neons em cores saturadas. Seus atores são um espetáculo. Oscar Isaac, uma presença tão desagradável em Sucker Punch, é aqui trágico como o ex-presidiário. Albert Brooks, no papel de um gângster que quer levar o Garoto para as pistas, foi criminosamente ignorado nas indicações do Oscar. Como, de resto, o foram o próprio filme, Refn (que ganhou a Palma de direção em Cannes) e Gosling. De todos os aspectos de Drive que convidam à contemplação, é ele o principal. Desde que apareceu como o judeu neonazista de Tolerância Zero, há mais de dez anos, esse ex-integrante do Clube do Mickey suscitou as mais arrebatadas expectativas. Demorou a encontrar os roteiros adequados a cumpri-las mas, do fim de 2010 para cá, disparou com, além de Drive, Namorados para Sempre, Amor a Toda Prova e Tudo pelo Poder. Ao contrário dos títulos com que as distribuidoras nacionais rebatizaram seus filmes, a atuação de Gosling neles nada tem de genérica: é, a cada trabalho, uma construção específica, destilada até o mínimo indispensável e a máxima potência. Cálculo e precisão são as marcas também de Gosling. Que vai muito longe, e rápido.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 07/03/2012
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2012

DRIVE
Estados Unidos, 2011
Direção: Nicolas Winding Refn
Com Ryan Gosling, Albert Brooks, Carey Mulligan, Bryan Cranston, Oscar Isaac, Christina Hendricks, Ron Perlman

Uma consideração sobre “Drive”

  1. Triste é ler este artigo quatro anos depois e ver que Ryan Gosling se afastou um pouco de cena, começou a escolher poucos projetos e disse (me corrijam se estiver errado, não acompanho muito essas notícias) que iria “dar um tempo” à atuação.

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