divulgação

Fim dos Tempos

Vingança da natureza.

Com o apocalíptico Fim dos Tempos, Shyamalan reacerta o passo. Agora só falta maneirar na vaidade.

Em 1989, quando ganhou a Palma de Ouro em Cannes por seu primeiro filme, sexo, mentiras e videotape, o diretor Steven Soderbergh comentou: “Daqui para a frente, é ladeira abaixo para mim”. Tratava-se não de pessimismo, mas de uma profecia informada. Soderbergh viria, sim, a reverter a crescente decepção com que cada novo filme seu era recebido, mas demoraria mais de uma década até fazê-lo – com a vantagem, ao menos do ponto de vista pessoal, de que desde o início entendera que a expectativa é a inimiga natural da satisfação. Como aconteceu com Soderbergh, o indo-americano M. Night Shyamalan também vem convivendo com a frustração há quase uma década. Mas não dá mostras de que está perto de se conciliar com ela. Com Corpo Fechado, A Vila e A Dama na Água, o cineasta acumulou respostas negativas da crítica e na bilheteria. Shyamalan, porém, não acredita que o problema esteja em seus roteiros ou no dilema criado pelo sucesso de O Sexto Sentido, com que se lançou. Em quase todas as suas entrevistas, ele sugere ser vítima de inveja, de interferência e de incompreensão, nunca de sua própria arrogância (muito conhecida nos altos escalões de Hollywood) nem da fé exagerada no poder de venda de seu nome. Fim dos Tempos ilustra bem a polaridade entre as qualidades e os defeitos do diretor: é uma notável recuperação criativa. E, ao mesmo tempo, é menos do que poderia ser.

Em sua primeira hora, Fim dos Tempos põe em evidência tudo aquilo que fez de Shyamalan uma marca poderosa. Por volta das 8 da manhã de um dia qualquer, todos os freqüentadores do Central Park de Nova York param de correr, passear ou conversar e começam a se suicidar, usando qualquer coisa que tenham à mão. Em minutos, a onda já atingiu as imediações. Numa construção, os operários são surpreendidos pelo corpo de um companheiro batendo no chão, e depois por outro e mais outro, no que logo se torna uma tenebrosa chuva de suicidas. Chocar e horripilar são missões que o cinema de terror dificilmente consegue cumprir hoje em dia, e é um crédito ao diretor que em Fim dos Tempos ele o faça em tantas ocasiões, e pelo caminho mais virtuoso – não o do sangue e vísceras, mas o do inexplicável. À medida que acompanha um professor de ciências (Mark Wahlberg), sua mulher (Zooey Deschanel), seu amigo (John Leguizamo) e a filha pequena deste (Ashlyn Sanchez) na sua tentativa de fugir à febre de auto-imolação que vai se espalhando, Shyamalan tira o máximo do seu dom de explorar, em imagens simples e fortes, o mal-estar causado por aquilo que não é natural e que contraria a condição humana.

Na meia hora final, porém, essa sensação se dilui, por culpa daquele que é o grande fraco do cineasta: o desconhecimento de suas limitações. A idéia de que o agente que induz ao suicídio é um ato da natureza é boa; as razões dadas para tal ato são simplórias e pedestres, e só o diretor parece não se dar conta disso. O que falta a Shyamalan, enfim, é tanto estofo intelectual quanto a sabedoria para reconhecê-lo. Caso se abrisse a um processo mais colaborativo (ele também escreve e produz sozinho seus filmes), talvez deixasse de lado as explicações mal-ajambradas, ou as cenas desnecessárias como aquela em que o tratador de um zoológico se oferece aos leões – tão calculada para o choque que beira o ridículo. Aí, Fim dos Tempos poderia chegar até o desfecho como aquilo que seu início anuncia: uma experiência de gelar o sangue.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 18/06/2008
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2008

FIM DOS TEMPOS
(The Happening)
Estados Unidos/Índia, 2008
Direção: M. Night Shyamalan
Com Mark Wahlberg, Zooey Deschanel, John Leguizamo, Ashlyn Sanchez, Betty Buckley, Spencer Breslin, Alan Ruck

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s