“CONDUTA DE RISCO”: CINEMA (BEM) FALADO

Em sua estreia como diretor, o roteirista Tony Gilroy, da série Bourne, recupera uma arte quase esquecida e faz do diálogo uma forma de ação

Antes que a ação se tornasse a grande mina de ouro de Hollywood, o mecanismo que fazia um filme envolver a plateia ficava não na placa gráfica de um computador, mas no teclado de uma máquina de escrever. Sem diálogos cronometrados para seus fins específicos, com algum brilho e capazes de prender também os atores em sua rede, não havia filme que pudesse funcionar – norma seguida inclusive por diretores eminentemente visuais, como Alfred Hitchcock. É essa arte quase esquecida, e por isso mesmo ainda mais fascinante hoje, que o diretor estreante Tony Gilroy recupera no excelente Conduta de Risco (Michael Clayton, Estados Unidos, 2007). Roteirista da série Bourne (em que, até pela escassez de falas, cada uma delas conta), Gilroy dá a George Clooney, Tom Wilkinson, Tilda Swinton e alguns outros ótimos atores muito que falar – e falar na hora certa, com as palavras mais incisivas e no ritmo mais apurado.

Clooney, que desde Syriana descobriu a vocação para encarnar homens vitimados pelo cansaço moral, é Michael Clayton – pai divorciado, que deve dinheiro a sujeitos de paciência curta e trabalha como “faxineiro” de uma firma de advocacia: paga e cobra quantias tecnicamente inexistentes, faz sumir escândalos, aciona contatos. No primeiro dos quatro dias em que transcorre o enredo, Michael é incumbido de trazer à razão o mais brilhante advogado de litígio da companhia (Wilkinson), que parou de tomar sua medicação, surtou e passou a trabalhar em favor dos reclamantes em uma causa de 3 bilhões de dólares – uma ação coletiva contra um fabricante de pesticidas e fertilizantes cujos produtos envenenaram centenas de fazendeiros. A loucura do advogado, claro, advém de um acesso de lucidez. E o brilho do roteiro de Gilroy vem do fato de que o próprio Michael Clayton já ponderou sobre a imoralidade do que faz muito antes de receber essa missão; ele apenas não se pode dar ao luxo de agir em resposta a ela. Durante os três dias seguintes, entretanto, ele vai reconsiderar suas alternativas. Pela sua própria natureza, as conversas em que Michael vai mapeando o território não podem ser claras. É preciso, porém, que elas esclareçam. Gilroy domina também o vocabulário visual, mas essa é a linguagem em que ele se excede – a das pessoas tateando em busca de alguma visão, indício de perigo ou meio-termo. Esses diálogos estalam de tão tensos, e também de tão novos que parecem, sem aqueles vincos das coisas já muito usadas em outros filmes. Juntos, ator e diretor conseguem aqui algo que não se vê há tempos: fazer do funcionamento da engrenagem psicológica dos personagens uma forma de ação, tão cheia de impulso quanto a outra.

Publicado originalmente na revista Veja em 12/12/2007

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