A Rainha

Salve a rainha

Ao expor a crise vivida por Elizabeth II com a morte de Diana, Helen Mirren leva a coroa da mais excelente das atrizes inglesas

É raro acontecer algo assim. Aconteceu com Laurence Olivier, nos anos 50, por causa de um Macbeth extraordinário, que eletrizou o teatro inglês. Aconteceu também com Marlon Brando, em Uma Rua Chamada Pecado, em que ele praticamente calcinou a tela com a sua presença, e em O Poderoso Chefão, quando o talento que já parecia se haver dissipado ressurgiu com sua potência única. Nesse ano que passou, aconteceu com Helen Mirren. Não uma, nem duas, mas três vezes. Primeiro, com sua versão galvanizante de um papel clássico – o de Elizabeth I, na minissérie de mesmo nome da HBO. Depois, com sua volta à pele da atormentada e inflexível chefe de polícia Jane Tennison, na derradeira temporada da série Prime Suspect. E, principalmente, com seu trabalho assombroso em A Rainha, no qual ela vive a outra Elizabeth – a II. Atores não são cavalos num páreo, e a questão não é decidir qual é melhor do que outro. Mas, graças a essa trifeta, Helen acaba de se juntar aos grandes da arte da interpretação: os atores que, em virtude de uma conjugação felicíssima de talento e oportunidade, viram marcos de excelência e medida pela qual seus colegas são comparados.

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A Rainha, que disputa seis Oscar (o de melhor atriz já é dado como vitória certa), trata de uma semana singular na vida da Inglaterra: os primeiros dias de setembro de 1997, em que o país perdeu completamente a fleuma para chorar a morte da princesa Diana, ao mesmo tempo em que a família real, entrincheirada em seu castelo de verão de Balmoral, na Escócia, se recusava teimosamente a entender as dimensões do fenômeno. Pertencente a uma geração criada na mais extrema restrição emocional, Elizabeth achava que logo os ingleses recobrariam a compostura, porque “nós não somos assim”. A rainha, além disso, sabidamente detestava a ex-nora, a qual, depois de divorciada do príncipe Charles, considerava excluída das hostes reais. Acima de tudo, porém, Elizabeth II expôs sua total incapacidade de aceitar a popularidade de Diana e de entender como, na morte trágica porém constrangedora, com um motorista bêbado e um namorado vulgar, essa paixão popular se exacerbou. Pela primeira vez nos seus 45 anos de reinado, bateu de frente com seus súditos. E de forma tão crítica que, em questão de dias, o país estava mergulhado numa crise institucional, e a rainha, com um currículo de relacionamento com nove primeiros-ministros, todos sempre colocados no seu devido lugar, se viu sendo cobrada com insistência crescente pelo recém-eleito Tony Blair (o ótimo Michael Sheen).

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Dirigido com ritmo e habilidade por Stephen Frears, A Rainha é, em primeiro lugar, uma reconstituição dos bastidores dessa crise – parte baseada em depoimentos de pessoas que a atravessaram, parte fruto da especulação de Peter Morgan, o roteirista inglês do momento. O que torna o filme fascinante, porém, é o que Helen Mirren faz da personagem-título. Elizabeth II é uma das mulheres mais conhecidas do mundo, e também uma das mais indecifráveis – sem o que, claro, não estaria fazendo bem o seu trabalho. Já o trabalho de Helen é penetrar essa fachada e revelar a humanidade criteriosamente escondida por trás de uma das mais competentes cabeças coroadas que a Europa já teve. Helen se desincumbe da primeira etapa da missão – imitar a rainha – com perfeição. E cumpre a segunda com brilhantismo: ao mesmo tempo em que personifica Elizabeth II, a atriz comenta sua personagem, expõe suas falhas e revela, com uma profundidade inédita, os motivos pelos quais ela agiu como agiu.

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Desde que se lançou, Helen é uma das atrizes mais fortes de um meio – o meio dramático inglês – em que atores fortes não faltam. “Resultado de já nascerem fingindo”, brincou Robert Altman, ao dirigir Assassinato em Gosford Park, sobre a hipocrisia com que os britânicos lubrificam suas relações sociais. Não é uma estrela, mas uma atriz de carreira, que desfruta um respeito e uma variedade de escolhas profissionais raras de encontrar em qualquer outro país. Joga a seu favor, ainda, uma fabulosa tradição de excelência em textos teatrais, que vai de Shakespeare ao contingente empregado na televisão inglesa. Tem, em doses fartas, o destemor imprescindível para que se sobreviva ante tanta competição. Trevor Nunn, então diretor da Royal Shakespeare Company, lembrou assim de Helen, no frescor de seus 22 anos: “De repente, chegou essa garota vestida numa teia de fios pretos, que mostrava bem mais do que cobria. A conversa parou. Os queixos caíram. Ela não tinha nenhuma experiência, mas queria adquirir treinamento clássico. Não ocorreu a nenhum de nós sugerir que ela fosse treinar em algum outro lugar”. Dois anos depois, Helen era uma das estrelas da companhia – e até hoje, aos 61 anos e uma bem-cuidada coleção de rugas, não recuou na sexualidade e na presença física que a tornaram tão singular. Elas estão presentes inclusive na sua interpretação de Elizabeth II.

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São surpreendentes o respeito que Helen encontra para com Elizabeth II no momento mais antipático do seu reinado e a clareza com que ela esmiúça uma relação tão singular. Entre a maioria dos ingleses, mostra o filme, prevalece o sentimento de que a rainha tem uma simbiose única com o povo – um sentimento de que a rainha compartilha, e do qual se divorciou perigosamente naquela semana de setembro. É em nome do seu peso simbólico que Elizabeth II por fim fez um pronunciamento sobre a morte de Diana. E, mostra Helen Mirren, é em nome desse mesmo símbolo que a rainha o fez com relutância, desgosto e coração partido. Diana, vista em A Rainha numa soberba seleção de imagens feitas por paparazzi, torna-se aqui uma presença espectral. E Elizabeth II, tão perfeitamente enquadrada em seu papel simbólico, pela primeira vez ganha corpo e alma. Eis aí a inteligência e a maturidade com que Helen aborda a rainha: como uma atriz que, célebre pela proficiência com que desempenha um papel, cai em desgraça, sem que o papel ou seu desempenho tenham mudado. “Agora a rainha de verdade é que parece a imitação”, maravilhou-se um crítico inglês. O carioca Affonso Beato, diretor de fotografia de A Rainha, testemunhou ao vivo esse fenômeno. “Desde a primeira tomada, ficamos todos arrepiados no set. Helen simplesmente era Elizabeth II”, contou ele a VEJA.

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Tanta empatia para com Elizabeth II não deixa de ser curiosa. Filha de pai russo e comunista, e mãe inglesa e proletária, Helen Mirren (ou, na época, Ilyena Mironoff) mamou no leite do antimonarquismo feroz. Anos atrás, ao ser apresentada à rainha num jogo de pólo, não conseguiu se curvar o suficiente para fazer o cumprimento protocolar ainda vigente entre os leais súditos. Diz que hoje faria a melhor cortesia de que é capaz, e com prazer. De fato, não é pouco o que ela ficou devendo às Elizabeths neste último ano. Só é menos do que as Elizabeths ficaram devendo a ela.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 07/02/2007
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2007

A RAINHA
(The Queen)
Inglaterra, 2006
Direção: Stephen Frears
Com Helen Mirren, Michael Sheen, James Cromwell, Alex Jennings, Sylvia Syms, Helen McCrory

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