Ele está com raiva

Jim Carrey dá sua versão hilariante e ácida de um escândalo corporativo em As Loucuras de Dick e Jane

Enquanto Dick Harper (Jim Carrey) diz na televisão que a Globodyne é uma empresa sólida e suas contas, transparentes, um gráfico mostra, ao vivo, as ações da corporação despencando até o fundo do poço. Promovido a vice-presidente de comunicações especialmente para fazer papel de bobo, Dick encontra, na volta ao escritório, as picadoras de papel a todo o vapor – e, em casa, sua mulher, Jane (Téa Leoni), feliz por ter se demitido do emprego e começado a cavar a piscina. O casal está, é claro, condenado à pindaíba mais indigna, e metade da graça de As Loucuras de Dick e Jane (Fun with Dick and Jane, Estados Unidos, 2005), que estréia nesta sexta-feira em circuito nacional, está na maneira insidiosa como a pobreza vai se instalando, da decisão incômoda de parar as obras da piscina ao corte de luz e, numa cena antológica, o banho no sprinkler do vizinho (nem gramado mais os Harper têm). Refilmagem de uma comédia estrelada por George Segal e Jane Fonda em 1977, essa nova versão tem o mesmo senso de oportunidade do original: em lugar da recessão e da quebradeira do início dos anos 70, tem-se aqui os escândalos ocasionados pela “contabilidade criativa” de grandes corporações como a Enron e a WorldCom (que, nos créditos finais, ganham agradecimentos irônicos). A outra metade da graça está na raiva com que o filme, produzido por Carrey, aborda o que é, afinal, uma tragédia: a ruína da confiança nas fundações da economia e, na sua esteira, milhares de desempregados privados até dos seus direitos mínimos de rescisão contratual. 

Dick e Jane não tem nenhum traço de santimônia. Ao contrário: o filme parte quase de cara para uma situação surreal, em que, derrotados em todas as tentativas de se reerguer, os Harper progridem de ladrões de loja de conveniência para assaltantes de banco – como vários outros ex-funcionários da Globodyne, que se descobre serem os protagonistas de uma bizarra onda de crimes. Escrito pelo Judd Apatow de O Virgem de 40 Anos com inspiração admirável, Dick e Jane é rápido, enxuto, incisivo e não raro hilariante. Marca, além disso, um momento singular na carreira de Carrey. Pela primeira vez, ele consegue aqui calibrar sua tão desejada fusão de humor com interpretação fundada no drama. E, pela primeira vez também, abre de boa vontade espaço para o restante do elenco, secundado por Téa Leoni, uma comédienne de primeira linha, e por Alec Baldwin, em mais uma ótima variação do tubarão corporativo. Uma comédia estrelada por um nome do calibre de Carrey e passada no mundo real é uma ave rara no cinema americano – espera-se que não seja a última de sua espécie.

Publicado originalmente na revista VEJA em 18/01/2006

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