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“Snowpiercer” converte em série filme cultuado do diretor de “Parasita”

Adaptação é tirada tal e qual do longa ‘O Expresso do Amanhã’, de Joon-ho Bong. Só o que falta a ela é o que importa: o gênio do cineasta


O trem de 1 001 vagões não pode parar nunca: o movimento perpétuo é o que garante a energia necessária a manter em seu interior as cerca de 3 000 almas restantes da glaciação que matou a Terra, assim como os recursos destinados à sobrevivência desse contingente — de gado e colheitas até as drogas que, no vagão-balada, ajudam a suportar o confinamento. O Snowpiercer, ou Fura-Neve, é uma arca de Noé na qual estão preservadas também, entretanto, todas as perversidades e injustiças do mundo que deixou de existir: na primeira classe, junto da locomotiva, os ricos vivem em ócio e abundância, enquanto na rabeira os miseráveis se apinham, imundos e famélicos a não ser por uma repugnante pasta de proteína fornecida uma vez por dia, sob armas. Ao longo dos quilômetros da composição, as gradações entre esses extremos são cuidadosamente mantidas por Melanie Cavill (Jennifer Connelly), porta-voz e lugar-tenente do bilionário Wilford, idealizador do trem: engenheira de formação e chefe de hospitalidade em título, Melanie supervisiona desde o ponto do filé servido na primeira classe até as imensas pressões logísticas desse microcosmo. Em um equilíbrio tão frágil, é arriscada a decisão dela de tirar do último vagão o ex-­policial Andre Layton (Daveed Diggs), a fim de investigar um assassinato: a rabeira encontra-se à beira da insurreição, e dar livre acesso a um de seus integrantes é um convite a que o levante se concretize.

À parte a substituição dos personagens principais, a série Snowpiercer (Estados Unidos, 2020), cujos dois primeiros episódios estreiam na Netflix nesta segunda-feira 25 (os seguintes serão disponibilizados semana a semana), é tirada tal e qual do filme Expresso do Amanhã, que Joon-­ho Bong fez em 2013 a partir de uma graphic novel francesa. Só falta à série o que de fato importa: o gênio do cineasta sul-coreano de Parasita (que assina aqui como produtor). Na encenação virtuosística de Bong prevalecia a atmosfera de um pesadelo or­wellia­no, em que os exageros e impossibilidades são realçados para obscu­recer os esquematismos e tornar mais crível a visão do futuro. Já a série criada por Graeme Manson e Josh Friedman padece com o registro quase realista: a visão crepuscular e ameaçadora de Bong dá lugar a um socialismo de grêmio estudantil, tão ingênuo que chega a constranger. Manson e Friedman são ambos roteiristas expe­rientes no terreno da ficção científica, com créditos que vão do intrigante Cubo e Orphan Black (no caso de Manson) até Guerra dos Mundos e Avatar 2 (no caso de Friedman), mas este seu trabalho evidencia como é crucial ao gênero uma concepção visual forte — ou a ausência dela.

O que não quer dizer que Snow­piercer não tenha seus prazeres, começando pelo trabalho de Jennifer Connelly e terminando com uma guinada que sacode não só as ideias da série até ali, como todo o enredo. É tão inesperada a reviravolta, e tão estimulante, que vale a pena rodar o mundo para chegar até ela.

Publicado em VEJA de 27 de maio de 2020, edição nº 2688

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