Clássico “A Guerra dos Mundos” ganha versão intrigante na série “Invasion”

Em vez de se apoiar em efeitos, o lançamento da Apple TV+ joga com a insegurança de uma humanidade que só aos poucos percebe a destruição

Publicada em 1897, a novela A Guerra dos Mundos, do inglês H.G. Wells, é uma espécie de planta baixa a partir da qual se têm construído variações sobre uma hipótese tão fascinante (e possivelmente longínqua) quanto aterradora: a de que a Terra se veja um dia sob ocupação de uma inteligência alienígena hostil. Popularíssimo nas décadas seguintes ao seu lançamento e motivo de histeria quando da dramatização radiofônica de Orson Welles, em 1938 (muitos americanos acharam se tratar de uma transmissão ao vivo de um evento real), o livro de Wells — ainda hoje excelente leitura — sobrevive também em um sem-número de filmes e séries, do longa clássico B de 1953 à versão de belíssimos efeitos e drama batido de Steven Spielberg, de 2005, ou ainda o Marte Ataca!, de Tim Burton, e uma minissérie franco-­inglesa de potencial um tanto desperdiçado de 2019. A versão mais recente, e uma das mais intrigantes e bem produzidas, é a série Invasion (Estados Unidos, 2021), cujos três primeiros episódios já estão disponíveis na Apple TV+ (os seguintes entram semanalmente, até 10 de dezembro).

Invasion corre em fervura baixa, mas o clima de apreensão e a construção do inevitável são compensadores, assim como algumas atuações excelentes. Como no original de Wells, os sinais a princípio não são claros: um xerife do Oklahoma se intriga com uma cratera aberta em um campo de milho; algo atinge a estrada em que um ônibus escolar viaja, perto de Londres, provocando um acidente e deixando as crianças sós; num subúrbio americano, uma mãe de origem iraniana se obriga a fugir com o marido que a trai e as duas crianças quando sua casa é a única da rua que não sofre um atentado; a energia vai e volta em diversas partes do mundo; uma nave japonesa é atingida perto da Terra; e, no Afeganistão, soldados americanos tentam entender o que os atacou.

A série adota uma tática oposta ao habitual no gênero. Pouco mostra dos invasores ou dos célebres trípodes e naves, para sublinhar a insegurança dos personagens, que não sabem bem o que é o perigo e de onde vem, e jogar com a sensação de que estão a salvo (há margem, aliás, para uma nova temporada). Nesse sentido, é fiel à inspiração do livro, que Wells escreveu ao pensar como teria sido o extermínio dos aborígines da Tasmânia pelos colonizadores ingleses e a incredulidade com que teriam assistido à própria destruição. O inferno são sempre os outros — venham de onde vierem.

Publicado em VEJA de 27 de outubro de 2021, edição nº 2761

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