“Succession”: o outro (e estupendo) jogo dos tronos da HBO

Série criada por Jesse Armstrong chega à terceira temporada como o drama n°1 da TV

Assista aqui a resenha em vídeo:


Leia aqui a minha resenha da revista VEJA:

“Succession” acirra tragédia clássica no mundo corporativo em 3ª temporada

A série eletrizante retorna mergulhada na disputa de morte entre um pai e um filho

Designado pelo pai para o sacrifício — assumir a culpa de muitos por atos de que não participou, enfrentar o opróbrio e uma condenação por crimes federais, e ser ainda alijado permanentemente do império do qual se presumia herdeiro —, o filho não espera que algum anjo intervenha para salvá-lo. Como um Isaac que decidisse parar ele mesmo a mão de Abraão, o muitas vezes humilhado Kendall (Jeremy Strong) usa a coletiva de imprensa da qual deveria sair carregando todos os pecados da megacorporação Waystar Royco para, sem nenhum sinal prévio, virar a acusação contra o patriarca, Logan Roy (Brian Cox). “Meu pai é uma presença maligna. O reinado dele termina hoje”, diz Kendall, já se afastando dos microfones. Assistindo à entrevista a milhares de quilômetros de Nova York, em um iate ao largo da Grécia, Logan esboça um sorriso: talvez, quem sabe, o filho tenha então o necessário instinto assassino para o cargo que sempre cobiçou, e que o pai nunca enxergou nele. “Não acho que o sorriso signifique aprovação. É o reconhecimento de algum potencial, condicionado à hipótese de Kendall se mostrar capaz de levar adiante o que começou”, diz Brian Cox, tão duro na queda quanto o personagem que interpreta (leia a entrevista com o ator na pág. 84) — uma espécie de Rei Lear que não pensa realmente em dividir seu reino, mas apenas atiça os filhos Kendall, Roman (Kieran Culkin) e Shiv (Sarah Snook) com essa promessa para jogá-los uns contra os outros e segurar-se mais um dia, semana ou década no trono.

Como duas outras séries que se tornaram paradigma da nova dramaturgia televisiva, A Família Soprano e Mad Men, a espetacular Succession (Estados Unidos, 2018-), que entra na terceira temporada a partir do domingo 17, na HBO Max, opera na escala da tragédia clássica — a grega e a shakespeariana —, em que o poder amplifica e articula os grandes dilemas humanos. Querer e conseguir aquilo que se quer, claro, são coisas muito distintas. E a ambição de Successionbeiraria o húbris — a palavra grega para um orgulho e arrogância tão excessivos que se creem capazes de se sobrepor ao destino —, não fosse a excelência do time envolvido no projeto.

À produção de Adam McKay, o cineasta afinado com os jogos de poder contemporâneos de A Grande Aposta e Vice, somam-se o brilhantismo dos diálogos do criador e roteirista Jesse Armstrong, que ao mesmo tempo cortam, confundem e eletrizam, e a solidez que ele dá à estrutura da série. À direção contundente de egressos do teatro britânico como Mike Mylod correspondem atores temperados na mesma tradição, como o escocês Cox e o americano Strong, sutis como a árabe-israelense Hiam Abbas (a indefinível terceira mulher de Logan) ou imprevisíveis como Kieran Culkin (que traz para o papel experiência considerável de famílias disfuncionais). “Em geral, tratamos cada cena como se fosse uma pequena peça teatral: podem ser quatro páginas ou vinte de roteiro, mas filmamos de uma vez só, sem parar nem cortar, com os nossos dois excelentes operadores de câmera circulando entre nós”, explica Cox. “Como estamos todos — diretor, atores, maquiadores, figurinistas — correndo o risco da cena juntos, a tensão sobe à tona.”

De certa forma, a maneira como Succession é filmada reproduz o impasse central dos Roy, cujo poder e controle vivem sob assédio de fraquezas pessoais e situações incontroláveis — desde a dependência de drogas de Kendall até acontecimentos triviais, como congestionamentos de trânsito e telefonemas que chegam em má hora. O poder de Logan Roy é de fato esmagador: à frente de um império de mídia que construiu a partir do nada e que abrange canais de notícias, jornais, cinema, parques temáticos e cruzeiros, ele unge ou enterra presidentes, influi em todas as esferas da política e carrega as bolsas de valores consigo para cima ou para baixo. Ele se vê tão grande e absoluto — tão insubstituível, enfim — que é incapaz de admitir a ideia da própria mortalidade, e toda vez que o instinto de legar um pedaço desse império aos filhos desponta, ele é sobrepujado por outro instinto, o da própria sobrevivência. Mas Logan tem 80 anos, e o fim de seu poder é uma cláusula natural e inescapável.

Assim, se a segunda temporada se encerrou com o golpe potencialmente letal desferido por Kendall contra Logan, a terceira leva de episódios retoma a cena do exato ponto em que ela havia parado para mergulhar na infinidade de repercussões desse sismo para a Waystar Royco, que já andava meio ferida de morte, e para cada um dos membros e agregados do clã Roy. Succession continua, em suma, a rechaçar o próprio título: com um rei que não entrega a coroa e herdeiros que contestam um ao outro, nenhuma catarse aqui é definitiva — e todas as complicações são possíveis.


Brian Cox, o Logan de “Succession’, a VEJA: “Não é louvável, mas é real”

Brian Cox, o colosso que dá vida a Logan Roy em Succession, conversou com VEJA sobre o patriarca — e o que ele realmente acha de seus filhos.

Com qual personagem clássico o senhor compararia Logan?  Exceto pelo fato de que Logan não tem a menor intenção de se afastar do seu reino, há fortes elementos de Lear, claro — inclusive naquilo que é sua força e sua fraqueza, o amor pelos filhos.

Mas ele é capaz de atos terríveis contra os filhos. Na sua opinião, ele os ama de fato, ou só a parte deles em que pode se espelhar? Não tenho dúvida de que ele ama os filhos. O que não quer dizer que eles não sejam uma decepção para ele. Nenhum dos quatro, no fundo — nem a favorita dele, Shiv —, é capaz de se manter de pé sozinho. Logan saiu da pobreza e trabalhou por tudo o que possui, mas seus filhos, para sua frustração, nunca conquistaram nada por conta própria. Como é comum nesta geração, eles acham que algo é devido a eles. Vivemos em uma era em que a sensação é de que tudo é fácil e instantâneo, e para tudo há um atalho. O mundo, porém, continua a exigir o que sempre exigiu: esforço e conhecimento das regras do jogo. Logan é rude e antipático, mas entende a realidade da situação.

No caso de Kendall, ele vai bem além da mera rudeza, não? Kendall já quase se matou tentando ser o que o pai espera. Mas Kendall também não pode ser o que ele espera. O problema de Kendall não é o pai — é Kendall. Ele tem uma fraqueza inerente. Chora, não assume a responsabilidade, não aceita o fato de ser um viciado. Sim, ele sofre, e ao que parece isso faz com que as pessoas esqueçam quanto ele é ambicioso e ganancioso. Mas é obsceno que um homem adulto culpe os pais por continuar se colocando em situações lastimáveis.

Os personagens de Succession mentem, apunhalam pelas costas, traem. Por que isso fascina tanto, na sua opinião?Primeiro porque reconhecemos neles os dilemas humanos e a loucura em que vivemos hoje. Mas também porque esse jogo em si é fascinante: mentir, dissimular, aniquilar — tudo isso faz parte da técnica de trabalhar com o poder no nível em que os Roy trabalham. Não é admirável nem louvável, mas é uma realidade.

Logan é um grande personagem — mas o senhor gosta dele como pessoa? Não desgosto dele. Penso que ele tem seus problemas, mas entendo o ponto de vista de Logan e tenho uma enorme empatia por sua pessoa. Ao mesmo tempo, ele costuma ser seu pior inimigo também. Como a maioria de nós.

Publicado em VEJA de 13 de outubro de 2021, edição nº 2759

3 comentários em ““Succession”: o outro (e estupendo) jogo dos tronos da HBO”

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