“Fundação” doma o universo de Isaac Asimov

Com produção de primeira, série acerta ao preencher as lacunas que o escritor deixou em sua saga

Assista aqui a resenha em vídeo:


Leia aqui a minha resenha na revista VEJA:

Série “Fundação” expõe a atualidade da ficção científica de Isaac Asimov

Com elenco às vezes formidável, lançamento doma os livros do autor e sublinha ideia central: quem não aprende com o passado repetirá seus erros no futuro

Os oceanos de Synnax não param de subir, e os habitantes do planeta — pouco mais que uma vila de pescadores erguida sobre o mar — reagem à catástrofe iminente com uma guinada para o fundamentalismo religioso. Toda a ciência e a educação são interditadas, sob pena de morte. É no rústico Synnax, entretanto, que desponta uma das maiores mentes matemáticas do universo conhecido (e ele é grande; conta com milhares de planetas habitados e uma população que soma 10 trilhões de pessoas). A jovem Gaal Dornick (Lou Llobell) soluciona um teorema tido como insolúvel e, assim, é convidada pelo legendário Hari Seldon (Jared Harris) a juntar-se a ele em Trantor, a capital do Império Galáctico. O próprio Seldon, porém, está sobre o fio da navalha. Fundador de um ramo da ciência conhecido como psico-história, Seldon usa modelos matemáticos para prever eventos-chave futuros. E, segundo ele, em não mais do que 500 anos o Império Galáctico, que já dura 10 000 anos e se pretende eterno, estará em ruínas, mergulhando a humanidade em 30 milênios de barbárie — a não ser que, em vez de ser executado, como quer o Império, ele possa ser exilado com seus enciclopedistas em Terminus, um planeta nos confins da galáxia, para, em paz, se dedicarem a concentrar saber e ciência e assim abreviarem o período de trevas para 1 000 anos apenas. Essa é a Fundação que dá nome à série que acaba de estrear na AppleTV+ e tem também ela uma grande ambição: adaptar o universo que Isaac Asimov (1920-1992) começou a gestar na década de 40 e que seguiu expandindo até a década de 80.

Fundação (Foundation, Estados Unidos, 2021) foi um projeto várias vezes ensaiado e várias vezes gorado: trata-se de uma saga que cobre cerca de um milênio, com saltos vastos no tempo e um sem-número de locações e personagens revezando-se no protagonismo, e que tem ainda a marca de Asimov — a de se apoiar muito mais em conceitos e ideias que numa concepção convencional de enredo. Meramente domar esse material já seria boa medida de êxito. Mas, com os bolsos fundos da Apple e nas mãos de David S. Goyer, produtor experiente, a criação de Asimov ganha vida nos cenários impressionantes, na justaposição entre o épico e o íntimo e no elenco às vezes formidável — começando pelo sempre estupendo Jared Harris. Ganha vida, sobretudo, no modo como respeita os princípios de Asimov, da fé na racionalidade e na difusão do conhecimento como antídoto ao obscurantismo, até a sua visão da história, aquela com “H” maiúsculo.

Quando publicou os contos que seriam a gênese de Fundação, no início dos anos 40, Asimov tinha acabado de se graduar em química — bem antes, portanto, de fazer seus doutorados, de assumir o cargo de professor de bioquímica na Universidade Colúmbia e de se consagrar como o mais influente de todos os autores de ficção científica (embora um dos menos adaptados: até hoje, só dois filmes dignos de nota conseguiram transpor para a tela algo do que estava na página — O Homem Bicentenário, de 1999, com Robin Williams, e Eu, Robô, de 2004, com Will Smith). Os Estados Unidos, então, ainda nem tinham entrado na II Guerra. Mas Asimov vinha de outro mundo: de um vilarejo judeu na Rússia dos massacres antissemitas e da Revolução Comunista. Tinha 3 anos quando sua família imigrou para Nova York, mas cresceu em um ambiente em que era premente o conhecimento de que culturas e impérios se esfacelam — e foi da leitura do clássico do século XVIII História do Declínio e Queda do Império Romano que germinou a ideia do que viria a ser série Fundação.

No decorrer das décadas seguintes, Asimov foi incorporando a esse mundo os outros que havia criado em livros e contos, notavelmente as séries Robôs (suas “Três Leis da Robótica” seguem sendo um dos mais elegantes postulados lógicos sobre a criação de inteligências artificiais e a convivência com elas) e Império. E foi integrando a Fundação também todos os grandes eventos e movimentos do período: a Guerra Fria, o macartismo, a ascensão do terrorismo e de facções religiosas politicamente radicalizadas, a crise ambiental — cuja extensão ele foi um dos primeiros a antever.

Essa dinâmica de conceitualização e escrita é o que torna o universo expandido de Fundação tão atual. Assistindo à série, poderia ter-se a impressão de que Asimov, como Hari Seldon, foi capaz de prever as movimentações geopolíticas que estavam ainda no futuro, e cuja relevância para este momento o time de roteiristas e diretores de David S. Goyer ressalta de maneira tão hábil quanto envolvente. O lance realmente decisivo da série, porém, é como ela contorna as dificuldades impostas pelos livros: preenchendo os vazios deixados no enredo pelos saltos de Asimov com personagens e drama — e com deslumbramento e beleza. Como o próprio autor gostava de dizer, o que faz um bom cientista é olhar para o mundo com a sensibilidade e a curiosidade de um artista — e vice-versa.

Publicado em VEJA de 29 de setembro de 2021, edição nº 2757

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