Em “Free Guy”, Ryan Reynolds ganha ideias próprias, e Jodie Comer dá um show

Sai melhor do que a encomenda a história do personagem de game que, apesar de não ser real, é muito gente


Assista aqui a resenha em vídeo:


Leia aqui a minha resenha da revista VEJA:

Com Ryan Reynolds, “Free Guy atesta: 2021 é o ano dos mocinhos

No filme, ele descobre que nem é humano nem seu mundo é real: não passa de um personagem de fundo em um game

Guy é um exemplo de contentamento com a própria vida: toda manhã, acorda feliz ao som de Fantasy, de Mariah Carey, dá bom-dia ao peixinho-dourado, veste a camisa azulzinha e as calças cáqui (seu armário não tem outra combinação possível) e segue para o trabalho como caixa de banco. Guy nem dá bola aos numerosos roubos, tiroteios, homicídios e atos de vilania em geral que acontecem nas ruas de Free City. Nas várias vezes ao dia em que algum mal-encarado assalta o banco, ele e o segurança Buddy se jogam tranquilos no chão e aproveitam para fazer planos para o fim de semana. Guy (que além de ser um nome quer dizer “cara”) e Buddy (que pode ser um apelido como “amigão”) não participam da bagunça; isso é para quem usa óculos escuros — pessoas de outra categoria. Ou pessoas, simplesmente: Guy (Ryan Reynolds) e Buddy (Lil Rel Howery) creem existir e viver em uma cidade real, mas não passam de NPCs, a sigla em inglês para os personagens de fundo em um game. Mas, quando Guy cruza com a Garota Molotov (Jodie Comer) e se apaixona, ele faz o que nenhum NPC jamais fez: sai do programa e começa a evoluir. Ou seja, age, deseja, experimenta, entra em crise e as provoca também: Molotov — o avatar da criadora original do game — percebe que está caidinha por esse homem que, apesar de não existir de verdade, é muito gente (e Jodie, a maravilhosa Villanelle de Killing Eve, torna a ideia tão natural quanto inevitável).

Free Guy (Estados Unidos, 2021), em cartaz nos cinemas, é um cruzamento de O Show de Truman e Detona Ralph com Grand Theft Auto, aquele game em que qualquer barbaridade é permitida. Em tese, seria díspar demais para funcionar. Mas, da mesma maneira que seu protagonista, o filme tem uma espécie de vida própria: é tolo mas esperto, doce, cheio de energia e muito bom de olhar — o que serve também para descrever Reynolds no modo censura livre (aliás, o modo habitual do diretor Shawn Levy, dos três Uma Noite no Museu e de vários episódios de Stranger Things, série da qual vem Joe Keery, um dos atores mais simpáticos do filme). Em uma coincidência que talvez diga algo sobre o espírito do momento, em suma, Free Guy opera no mesmo comprimento de onda que o estouro do ano, a adorável série Ted Lasso. Se até os vilões do Esquadrão Suicida acabam de descobrir que têm um coração, é oficial: 2021 é dos mocinhos.

Publicado em VEJA de 25 de agosto de 2021, edição nº 2752

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