O “Tempo” de Shyamalan voa, mas falha na aterrissagem

Diretor parte de uma de suas premissas mais intrigantes, mas só consegue desenvolver parte dela – e, de novo, falha na reviravolta final

Assista aqui a resenha em vídeo:


Leia aqui a minha resenha da revista VEJA:

Em “Tempo’, Shyamalan poderia ter tirado mais de uma ideia intrigante

O cineasta aprisiona onze personagens em uma praia na qual a vida literalmente passa voando

Não só o resort é esplêndido, como o gerente recomenda a Prisca e Guy aproveitar com a filha de 11 anos e o filho de 6 um segredo próximo dali: uma praia em uma reserva, fechada ao público e murada por rochedos impressionantes. “Não é para todo mundo que eu sugiro esse passeio, mas gostei de vocês”, diz o gerente à família, que se vê despejada nesse paraíso junto de um médico petulante com sua mãe idosa, sua mulher-troféu estridente e a filha pequena. Lá, um único outro turista os aguarda, solitário e afastado, olhando para o mar. O lugar é mesmo exclusivo, enfim, além de belíssimo, e as três crianças, encantadas, parecem alheias às tensões entre os adultos. Prisca (Vicky Krieps, de Trama Fantasma) e Guy (Gael García Bernal) não contaram aos filhos, mas estão prestes a se separar. A mãe e a mulher do médico agem como se ele fosse uma bomba prestes a explodir — e o que é aquilo que vem boiando na direção do pequeno Trent senão um cadáver? É com gritos e pânico, portanto, que um último casal retardatário é recebido. E é com choque que essas onze pessoas percebem que não há como sair dali; a praia é como uma força que os aprisiona.

Aproveitando a boa onda que desde A Visita (2015), Fragmentado (2016) e Vidro (2019) o levantou de novo junto ao público, M. Night Shyamalan se sai em Tempo (Old, Estados Unidos, 2021), já em cartaz nos cinemas brasileiros, com uma daquelas suas proposições caracteristicamente intrigantes. Logo os personagens descobrirão aquilo que o trailer do filme já anunciava sem rodeios: nessa estranha praia, eles foram feitos reféns do mais temido de todos os adversários humanos — a passagem do tempo, que, ali, em razão de alguma anomalia, segue em ritmo vertiginoso. A cada meia hora, um ano se vai. Horrorizados, os pais veem os filhos saltar da infância para a adolescência e dela à juventude, enquanto eles próprios ganham rugas e as aflições debilitantes da idade. Sem seus suplementos, a mulher do médico, que sofre de uma deficiência grave de cálcio, rapidamente passa de pin-up a uma espécie de fantasma retorcido de teatro kabuki na atuação sem amarras da australiana Abbey Lee, da série Lovecraft Country. Os delírios paranoides do médico (Rufus Sewell) florescem, o turista solitário (Aaron Pierre) sangra, o tumor abdominal de Prisca cresce em velocidade espantosa. A única que parece melhor é a retardatária Patricia (Nikki Amuka-Bird), pela primeira vez na vida deixada em paz por sua epilepsia.

Como é muito típico dele, também, Shyamalan parece não se dar conta da riqueza da premissa que tinha em mãos nesta adaptação da graphic novel de 2010 Castelo de Areia, de Pierre Oscar Lévy e Frederik Peeters. Filmando com desenvoltura notável, ele se deixa absorver a tal ponto pelo fascínio das transformações físicas que passa quase batido pelo horror muito maior contido ali: o de que, para esses personagens, a vida humana deixou de ser apenas curta, como sempre é, para se tornar um vórtice sem lugar para arrependimentos, alegrias, segundas chances ou reparações. E, da mesma forma que na maioria dos filmes de Shyamalan, a reviravolta final é de uma tolice arrematada. Os onze infelizes, afinal, não passam de drosófilas em um experimento — mas não mereciam que também o roteiro os tratasse como tal.

Publicado em VEJA de 4 de agosto de 2021, edição nº 2749

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