Tiozão de “Top Gear” encara trombadas rurais em “Clarkson’s Farm”

Veterano da TV e novato no campo mete os pés pelas mãos em “Na Fazenda com Clarkson’. Mas descobre que trigo e ovelhas dão até mais alegria que carrões

Charlie, o administrador, recomenda a Jeremy comprar um bom trator de segunda mão. Jeremy aparece com um modernérrimo trator Lamborghini — tão grande que nem passa pela porta do celeiro e repleto de comandos indecifráveis. Kaleb, o rapaz que tem um terço da idade de Jeremy e muito mais experiência, avisa para não se meter com rebanhos. Jeremy vai e compra 78 ovelhas e dois machos, inspirado pela ideia idílica de que eles vão controlar a vegetação das áreas intocadas da propriedade. Ato contínuo, incorre em despesas monstruosas — estábulos, galpões, cercas eletrificadas, uma pastora profissional e, ironicamente, forragem: o capim nativo não é suficiente para alimentar tantas fêmeas prenhas. Cheio de orgulho, Jeremy mostra a Gerald o trecho de muro de pedra que ergueu. Ninguém entende o que Gerald fala, mas nem precisaria: com um só chute, o artesão derruba o trabalho de horas. Às vezes, Na Fazenda com Clarkson (Clarkson’s Farm, Inglaterra, 2021), da Amazon Prime Video, tem aquele quê de “armação” para dar impulso ao roteiro. Mas sobram situações genuínas em quantidade mais que suficiente para garantir a graça dos oito episódios — e nada soa mais autêntico que a alegria do fazendeiro novato, para surpresa do próprio.

Clarkson e Kaleb

Veteraníssimo da TV, célebre globalmente pelo campeão de audiência Top Gear e notório pela incorreção política — em 2015, a BBC o demitiu pelo esculacho virulento a um produtor que falhara em providenciar uma refeição quente ao fim de uma gravação —, Jeremy Clarkson é mestre em tirar máximo partido de cada situação e cada interação, tanto que não hesita em promover a coastro o figuraça Kaleb, que bronqueia com ele sem descanso e sem a menor cerimônia. E se a imensa fazenda comprada uma década atrás na região das Cotswolds é de início o pretexto da série, também ela logo ganha protagonismo: a beleza e a agenda implacável do campo, a luta com o clima e com a pandemia, o deslumbramento de plantar, ver nascer e então colher, tudo vai ganhando o respeito e, aos poucos, a paixão do sujeito cínico que, durante três décadas, viveu de respirar fumaça de escapamento. Ar puro faz bem.

Publicado em VEJA de 21 de julho de 2021, edição nº 2747

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