“Judas e o Messias Negro”: um encontro, uma tragédia

Soberbos, Daniel Kaluuya e LaKeith Stanfield encarnam uma história real de admiração e traição no excelente filme do novato Shaka King

Assista aqui a resenha em vídeo:


Leia aqui a minha resenha publicada na revista VEJA:

“Judas e o Messias Negro’: um traidor no movimento Panteras Negras

Daniel Kaluuya e LaKeith Stanfield, companheiros em ‘Corra!’, brilham na trama baseada no caso de um ativista que foi passado para trás por seu discípulo

do indiciamento se conseguir se infiltrar no ramo local dos Panteras Negras, cujo diretor, Fred Hampton (Daniel Ka­luuya), é uma liderança em rápida ascensão no ativismo negro em razão de seu carisma, de seu dom para a oratória arrebatadora e da intransigência de seus princípios. É a virada dos anos 60 para os 70 e o FBI está ainda sob a direção do tenebroso J. Edgar Hoover (Martin Sheen), que passou a última década e meia fazendo o possível e o impossível (além do ilícito, e às vezes o criminoso) para sufocar o movimento pelos direitos civis dos negros, com particular atenção às suas parcelas mais combativas — como os Panteras Negras. É claro que O’Neal escolhe infiltrar-se. E o que se passa a partir daí é o assunto de Judas e o Messias Negro (Judas and the Black Messiah, Estados Unidos, 2020), já em cartaz naqueles cinemas do país que estiverem em funcionamento.

Hampton figura de passagem em outro filme recente, Os 7 de Chicago, mas o capítulo de sua história contido em Judas e o Messias Negro nunca foi recriado com a riqueza que o diretor e corroteirista Shaka King dedica a ele, nem com tanta compaixão e consternação. O encontro entre Hampton e O’Neal resultou em uma série de tragédias. No caso de Hampton, o Messias, elas vieram em curto prazo; para O’Neal, o Judas, se prolongaram por anos antes de atingir a culminação.

O’Neal conseguiu não apenas se aproximar dos Panteras, como ganhou a amizade de Hampton e galgou posições em sua confiança. Em meses, chegou ao posto de chefe de segurança do ramo de Chicago. Seu êxito se deveu em parte à pressão do agente Mitchell, que o lembrava sempre da ameaça da prisão ao mesmo tempo que o tratava com uma consideração que o ex-vigarista jamais esperara receber de um homem da lei branco, e que espontaneamente ele passou a retribuir em fidelidade. De outra parte, a ascensão de O’Neal resultou de uma reação química também ela espontânea: admiração, fascínio e respeito por Hampton, e encanto com o ativismo de seus novos pares.

Desde sua fundação, em 1966, como uma organização de resistência e eventual revide à violência policial, o Black Panther Party — esse era seu nome oficial — vinha se dedicando ativamente a programas comunitários de saúde e alimentação e de estímulo à escolaridade para as comunidade negras, com os quais respaldava o chamado a não abaixar a cabeça e a fazer a revolução. Nunca O’Neal imaginara ser possível alimentar aspirações como essas e, à medida que ele notava no agente Mitchell o desconforto deste com as decisões de Hoover, maior o terreno que essas aspirações ganhavam nele. Mais que dividir-se, portanto, suas lealdades antagônicas conviviam nele — ou conviveram, até o momento inevitável da colisão.

Companheiros de cena também em Corra!, Kaluuya e Stanfield oferecem aqui interpretações nada menos que soberbas. Kaluuya equilibra com veracidade notável as facetas díspares de Fred Hampton: aos 20 anos de idade, ele em público tinha já uma firmeza e uma capacidade de inflamar que em nada ficavam a dever às de Martin Luther King ou Malcolm X — mas, no trato pessoal, podia ser de uma delicadeza tocante ao confortar a mãe de um companheiro morto, ou ainda de uma timidez enternecedora, como na corte à sua mulher, Deborah Johnson (Dominique Fishback). Já Stanfield é um assombro como o sobressaltado, nervoso, reativo e confuso Bill O’Neal, que sabe se colocar a serviço da traição máxima mas não faz ideia de como fugir a ela.

Somadas a esses desempenhos, a minúcia e a vividez com que King reconstitui o episódio resultam, num primeiro plano, em um documento histórico de qualidade notável. Tanto pela excelência como pela atenção aos dramas que se vão desencadeando no íntimo dos personagens, assim, o filme evoca sem artimanha nem proselitismo o quadro atual das relações raciais nos Estados Unidos: passados 55 anos, a mesma demanda que ocasionou o surgimento dos Panteras Negras — a violência policial sistemática — continua em pauta no #VidasNegrasImportam, tão urgente e necessária quanto antes.

Publicado em VEJA de 3 de março de 2021, edição nº 2727

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