Precisando se ligar no 220? Martin Scorsese ajuda com “Os Infiltrados”

Como um roteiro comprado de Hong Kong reuniu Jack Nicholson, Leonardo DiCaprio e Matt Damon e fez o cineasta reencontrar sua potência

Na semana passada, sem nenhuma estreia que animasse muito no streaming, decidimos apostar no garantido aqui em casa: revimos Os Infiltrados, único filme em que Martin Scorsese dirigiu Jack Nicholson (que, a esta altura, já está há dez anos sem trabalhar) e primeira das suas colaborações com Leonardo DiCaprio que realmente acertou na mosca (não sou muito fã nem de Gangues de Nova York nem de O Aviador). Valeu a pena. Nada como passar meses rebaixando as expectativas em filmes assim-assim feitos para o streaming para sentir de verdade o tranco de energia, vigor, talento e absoluto domínio cinematográfico de um Scorsese no melhor da sua forma. Não há aspecto de Os Infiltrados que não seja formidável (mérito em boa parte do roteiro de Conflitos Internos, o original de Hong Kong que o diretor adaptou), mas vou destacar um deles como particularmente extraordinário: Thelma Schoonmaker, mestra entre os montadores e colaboradora indispensável de Scorsese, concebe aqui junto com ele uma edição que a toda hora puxa o tapete de debaixo dos pés do espectador, adiantando os acontecimentos de uma linha narrativa antes de “fechar” a linha que está em progresso. Como Os Infiltrados trata das trajetórias simétricas, porém opostas, dos protagonistas vividos por Leonardo DiCaprio e Matt Damon, a montagem sempre teria de dar conta dessa dificuldade, a de ao mesmo tempo espelhar e cruzar esses dois percursos. Mas, em vez de usar o artifício esperado da montagem em paralelo, Scorsese e Schoonmaker dobram a tensão – que às vezes chega ao puro desespero – com esse arranjo inusitado. Os Infiltrados não só arrancou Scorsese de uma fase inchada, marcada por produção ultradispendiosa mas voltagem narrativa insuficiente, como validou de fato a parceria entre  Scorsese e DiCaprio. Em seguida a Os Infiltrados, ela rendeu o mediano Ilha do Medo (2010) e o espetacular O Lobo de Wall Street (2013). E, depois de um intervalo para rever a vida, a carreira e as parcerias passadas em O Irlandês, Scorsese deve retomar a cooperação com DiCaprio em 2021 no longa Killers of the Flower Moon, sobre a investigação do FBI a assassinatos de índios da tribo Osage nos anos 20 – e, depois, em uma série baseada no livro The Devil in the White City, que entrecorta a história da Feira Mundial de Chicago em 1893 com a de um serial killer, e ainda uma cinebiografia de Teddy Roosevelt, presidente de 1901 a 1909 e um pioneiro do conservacionismo.

Leia a seguir a resenha original de Os Infiltrados, publicada quando o filme estreou nos cinemas:


Os excelentes companheiros

Em Os Infiltrados, a parceria entre Scorsese e Leonardo DiCaprio finalmente rende o que se esperava

Quando a sociedade entre Leonardo DiCaprio e Martin Scorsese parecia ir se confirmando como um tiro n’água, eis que ela produz Os Infiltrados. Vão-se os malsucedidos temas históricos de Gangues de Nova York e O Aviador, com os quais o diretor parece tão à vontade quanto um penetra na festa, e volta o universo do crime organizado, que ele domina como poucos; vão-se os protagonistas catalisadores, e tem-se de novo uma divisão mais equilibrada de forças entre os personagens. Acima de tudo, não há mais aqui aquele pedido desesperado por aprovação – da Academia, dos seus pares, da indústria e do público – que se intuía nos dois trabalhos do cineasta e de seu novo ator predileto. Scorsese voltou à sua zona de conforto. O que, no seu caso, significa um retorno às emoções extremas e ao cinema de alta octanagem de Os Bons Companheiros e Cassino, que até esta nova empreitada se mantinham como os últimos grandes de seu currículo.

Adaptado tal e qual de Conflitos Internos, um policial de Hong Kong, Os Infiltrados trata das trajetórias opostas, mas simétricas, de Billy Costigan (DiCaprio) e Colin Sullivan (Matt Damon). Ambos têm ligações familiares com a máfia irlandesa de Boston, e ambos se destacam como cadetes da academia de polícia. Colin, porém, está ali a mando de Frank Costello (Jack Nicholson), chefão da bandidagem local, com o propósito de fazer carreira na lei e assim facilitar os negócios de sua organização. Billy, cujo pai aparentemente foi o único homem honesto de sua família, é recrutado para a tarefa inversa: cometer um crime, ser expulso da força policial e forjar sua passagem para o outro lado do balcão, insinuando-se junto a Costello. Para sua proteção, só dois de seus superiores, interpretados por Martin Sheen e Mark Wahlberg, conhecem sua verdadeira identidade. E, quanto mais os dois planos, o de Billy e o de Colin, se desenrolam, mais fica claro para cada uma das duas organizações (a criminosa e a policial) que há um informante em seu meio – e mais se intensifica a caçada a ele.

A exemplo de outro ícone do cinema nova-iorquino, Woody Allen, que em Match Point ganhou novo fôlego ao transpor seus temas habituais para Londres, Scorsese parece remoçado nessa mudança para Boston. Ao contrário de Allen, porém, que foi filmar na Inglaterra porque de lá é que veio o dinheiro para seu filme, a decisão inesperada de Scorsese atende a pelo menos uma boa razão prática. Uma trama como a de Os Infiltrados esbarraria em inúmeros obstáculos lógicos se colocada dentro da hierarquia rígida das famílias mafiosas italianas de Nova York. Já o estilo mais, digamos, personalista – e, portanto, altamente inflamável – dos irlandeses de Boston se presta à perfeição a essa história de dois agentes volantes, que se movem na base do improviso e no tempo mais curto da ação e reação, sem informações para traçar de antemão um percurso. Billy e Colin são assim, mais do que qualquer outra coisa, atores, e seus diferentes estilos dramáticos – calculado e jovial no caso de Colin, que está subindo de forma meteórica na polícia, defensivo e reativo no caso de Billy, o sujeito que entrou por último na gangue – são uma das chaves do filme. Outro indício de que Scorsese parece estar de volta aos seus bons tempos é este: a forma como os personagens aqui existem inteiros, e não como as contrafações de Gangues de Nova York. Os diálogos de Os Infiltrados são torrentes de obscenidades e insultos – mas torrentes meticulosamente moduladas de acordo com o temperamento de quem as profere, chegando ao brilhantismo no caso de Mark Wahlberg (não, isso não é um erro de redação). Em outros tempos, Scorsese teria escolhido atores habituados a se impor pelo peso, como seus antigos favoritos Robert De Niro e Joe Pesci. Aqui, a começar por Jack Nicholson, que faz sua estreia com o diretor, todo o elenco é mais leve e ágil – e em todo ele, de uma ponta a outra, as interpretações são excepcionais. Ainda assim, não resta dúvida de que o filme é de Leonardo DiCaprio. Apático em Gangues de Nova York e deslocado em O Aviador, ele aqui reencontra seu prumo (e, não menos importante, sua habilidade para envolver a plateia) num papel muito mais difícil do que qualquer desses dois. Seu Billy Costigan é onerado por desejos simultâneos de sobrevivência e de autodestruição, e por fantasias de fracasso e de vitória em circunstâncias impossíveis. E é, acima de tudo, muito jovem e muito só, no que finalmente parece ser um bom uso do repertório pessoal do ator.

Publicado originalmente na revista VEJA em 8 de novembro de 2006


Trailer


OS INFILTRADOS
(The Departed)
Estados Unidos, 2006
Direção: Martin Scorsese
Com Leonardo DiCaprio, Matt Damon, Jack Nicholson, Mark Wahlberg, Martin Sheen, Vera Farmiga, Ray Winstone, Anthony Andserson, Alec Baldwin, James Badge Dale, Kevin Corrigan
Onde assistir: AppleTV, Google Play

Uma consideração sobre “Precisando se ligar no 220? Martin Scorsese ajuda com “Os Infiltrados””

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s