Cate Blanchett é a maior inimiga das feministas em “Mrs. America”

Saborosa e cheia de humor, a série mostra por que o movimento ainda é necessário por um ângulo inusitado: o de uma grande opositora

Apresentada ao público como “sra. Fred Schlafly”, sem direito ao próprio nome, Phyllis Schlafly, uma conservadíssima (e conservadoríssima) mãe de seis filhos, sobe ao palco trajando um biquíni recatado com as cores da bandeira americana para dar uns volteios e agradar ao público masculino — sua contribuição ao jantar em prol de uma causa que o marido patrocina. Chama a atenção de muita gente e particularmente de Phil Crane, deputado do Partido Republicano. Crane puxa papo com Phyllis e descobre que ela não é só bonitona; é rápida no gatilho e alimenta aspirações políticas. Como Phyllis além disso domina o assunto quentíssimo da corrida nuclear — está-se em 1971 —, Crane a convida para uma entrevista na TV: que curiosidade, uma dona de casa que entende de um tema como esse. No estúdio, ele a trata com condescendência (“não fique nervosa”, “é melhor sorrir”). Mas, assim que a conversa entra no ar, Crane leva o troco: Phyllis é um trator no debate, e o estraçalha ao vivo. Se o senso comum valesse de alguma coisa, Phyllis Schlafly (1924-2016), a protagonista de Mrs. America, seria uma candidata natural ao movimento feminista — uma mulher cujo preparo, inteligência e vontade de empreender extravasam em muito o âmbito das atribuições domésticas, e que todo dia é obrigada a tolerar que homens a diminuam ou objetifiquem. E, no entanto, Phyllis se impôs outra missão: a de ser uma formidável pedra no caminho do feminismo e da Emenda pelos Direitos Iguais pela qual batalhavam líderes como Gloria Steinem, Betty Friedan, Bella Abzug e Shirley Chisholm.

Rose Byrne como Gloria Steinem

Até contos de fada como o de João e Maria e lendas como a do Rei Arthur são agora objeto de revisão feminista, e se fosse pelo caminho esperado, o da exaltação das ativistas dos anos 60 e 70, Mrs. America, já disponível na plataforma Fox Premium, pouco teria a acrescentar. O que aprofunda essa minissérie em nove episódios e a torna tão instigante é, primeiro, conferir o protagonismo à grande inimiga do movimento — e, segundo, a partir do estrago que Phyllis buscava provocar nele, investigar as correntes de pensamento que concorriam umas contra as outras dentro do feminismo.

LUTA FEMININA - Margo Martindale como Bella Abzug: idealismo pragmático

Não só Mrs. America é uma delícia de programa, cheio de humor, ritmo e anedotas saborosas, como seu elenco já seria uma diversão em si. Rose Byrne faz uma Gloria Steinem perfeita, nos trejeitos e naquele seu “algo mais” — a indefinição entre o animal político feroz e a musa. Tracey Ullman traduz maravilhosamente a beligerante e, no fundo, romântica Betty Friedan, enquanto a grande Margo Martindale é tão completa como a pragmática mas incansável Bella Abzug que por pouco não substitui a própria na memória do espectador. No centro do redemoinho — ou melhor, criando a ventania —, Cate Blanchett, também produtora, agarra com gana o papel da ambiciosa Phyllis, que usava a fachada de mãe de família dedicada para articular uma carreira que lhe fora impossível na juventude. “Phyllis é uma feminista”, denunciavam as próprias: os filhos e a casa ficavam a cargo da irmã e da empregada enquanto Phyllis organizava manifestações, conchavava com políticos, espalhava fake news e inflava sua persona pública. A certa altura, seu marido (o ótimo John Slattery) constata que ele agora é que é o “sr. Phyllis Schlafly”.

NO MUNDO DELES - Cate Blanchett como Phyllis: em defesa do status quo

Ao resgatar Phyllis para a notoriedade, o criador Dahvi Waller, produtor de Mad Men e de Halt and Catch Fire (além de supervisor de roteiro de Desperate Housewives), pergunta-se por que algumas mulheres têm tanto medo do feminismo, ou aversão a ele, e calculam ter mais chances de poder dentro das regras do status quo. A própria pergunta, claro, já é de certo modo resposta a outra questão importante — por que, nesta altura do século XXI, passados cinquenta anos daquele seu segundo auge (o primeiro, bem mais distante, foram os pleitos pelo voto feminino iniciados ainda no século XIX), é preciso que o feminismo ainda seja um movimento. Acima de tudo, Mrs. America bombardeia a noção confortável de uma “sororidade” feminina: quando uma mulher decide sair em defesa do patriarcalismo, não há homem que seja páreo para ela.

Publicado em VEJA de 7 de outubro de 2020, edição nº 2707

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