“Killing Eve”: cada segundo de Jodie Comer é um espetáculo

Em companhia de um elenco superlativo, a atriz inglesa leva uma imaginação inesgotável para o papel da assassina profissional/psicopata apaixonada Villanelle

Estou em crise: não sei se no próximo Emmy, em 20 de setembro, torço para Laura Linney em Ozark, Olivia Colman em The Crown ou Jodie Comer em Killing Eve. Neste momento, tendo acabado de assistir à terceira temporada de Killing Eve (todas as três estão disponíveis na Globoplay), pendo para Jodie Comer, porque se algum dia vi uma atriz com mais imaginação do que essa inglesa de 27 anos, não estou lembrada. Se você quiser a garantia de que uma atriz em uma série de TV nunca, nem por um segundo, vai decepcionar ou aborrecer – e, ao contrário, sempre vai surpreender –, ela é essa garantia. Como Villanelle, a assassina profissional/humorista amadora/psicopata apaixonada que persegue a agente Eve Polastri (Sandra Oh) primeiro com sanha homicida, e depois com amor incontido, Jodie já começou com estrondo, lá no primeiro dos 24 episódios lançados até aqui. Mas, de temporada em temporada, ela vem crescendo dentro do papel de maneira formidável. Agora, é como se dentro dela tudo fosse Villanelle – e, como Villanelle não para de mudar e de surpreender a si mesma com suas transformações, qualquer cena com Jodie é um espetáculo.

Killing Eve é uma diversão de primeira, mas o que verdadeiramente pega na série é a corrente que passa por baixo da sua superfície de humor algo absurdo e bastante perverso: não importa o quão fora do normal sejam os personagens; o que define a vida deles e a de qualquer um é sempre o banal e o mundano. Villanelle é perigosíssima não só porque os russos se aproveitaram do desequilíbrio mental dela para torná-la uma máquina de assassinar, mas porque ela é uma máquina de assassinar com uma incapacidade infantil de aceitar limites e de lidar com a rejeição – e, em um episódio maravilhoso desta terceira temporada, vê-se Villanelle sofrer a rejeição mais comum que existe, a qual calha de ser também a mais dolorosa que se pode imaginar. Não é à toa, assim, que o coração de Villanelle é essa fornalha. Eve Polastri, a analista subalterna do MI6, a Inteligência britânica, enfiou-se no jogo de gato e rato com Villanelle pelo motivo que atinge nove entre cada dez pessoas no mundo (uma estimativa conservadora) – a sensação de que a vida deveria ser mais, ou ser outra coisa. Ganâncias estúpidas, frustrações maternas, ressentimentos fossilizados, pequenas inconsequências, sentimentos de inadequação: isso é o que move todos os personagens de Killing Eve, e o que os torna ao mesmo tempo tão imprevisíveis, tão perigosos e tão próximos de qualquer espectador. De alguma forma, todos somos crianças correndo com tesouras nas mãos.

Quando leio alguma coisa sobre Killing Eve, vejo que a maioria dos resenhistas adora Sandra Oh – bem mais do que eu. Pessoalmente, considero a atuação dela apenas adequada, e acho que nesta terceira temporada ela padece com o crescimento acentuado de duas ótimas personagens que já vinham desde o começo. Fiona Shaw brilha nesta nova leva como a gélida por fora e tempestuosa por dentro Carolyn, chefe de divisão do MI6, e o dinamarquês Kim Bodnia está estupendo como Konstantin, o “adestrador” de Villanelle, cuja vida está implodindo. De quebra, tem-se ainda a entrada da fantástica Harriet Walter como Dasha, ex-atleta soviética exilada há décadas na Inglaterra por mau comportamento. E, claro, tem-se Jodie Comer, fazendo de uma personagem que poderia ser uma caricatura (ainda que uma caricatura muito divertida, e com um talento especial para usar moda extravagante) algo fascinante. Na plataforma do metrô, à espera do trem, Jodie fica andando no mesmo lugar apoiando-se na parte de trás dos saltões – e o gesto diz mais sobre quem Villanelle é do que metros de diálogo no roteiro.

E como são bons os diálogos, e também os desdobramentos. Killing Eve usa uma estratégia interessante para evitar desgaste e renovar perspectivas: cada temporada é conduzida por uma roteirista diferente. Phoebe Waller-Bridge, de Fleabag, foi quem estabeleceu o tom da série, mas a ela se se seguiram Emerald Fennell e agora Suzanne Heathcote. Suspeito que seja por isso que cada nova temporada comece em segunda marcha. É como alugar uma casa mobiliada: enquanto não se muda o sofá de lá para cá e não se vira mesa deste lado para o outro, a casa não parece ser sua. Assim, os dois ou três primeiros episódios têm sempre esse ritmo de rearranjo – não porque ele seja estritamente necessário, mas porque um novo roteirista está ajeitando as coisas ao seu modo. Concluído esse processo, porém, as temporadas decolam em direções inesperadas. Para mim, a terceira é a melhor até agora, e a prova disso é que atores que já vinham fazendo um trabalho superlativo estão agora nada menos que esplêndidos.

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